Encaminhando para a formação de uma chapa que até poucos meses atrás poderia soar como impensável, Lula e Alckmin deram mais um passo para a consolidação desta união.

Geraldo Alckmin, que foi um dos fundadores do PSDB tem sua origem política atrelada ao MDB – depois PMDB, já no final do período da ditadura militar. Deste modo, Alckmin apareceu no cenário político no partido que fazia oposição ao regime militar que perdurou de 1964 até 1985. Portanto, não se pode falar que a origem de Alckmin seja a direita já que os políticos com esta coloração partidária estavam abrigados na Arena.
Com o passar do tempo o próprio PSDB, partido que surgiu de uma dissidência do PMDB passou do espectro político da centro-esquerda para a centro-direita. No momento, aliás, o partido dos tucanos está fazendo um movimento ainda mais à direita, podendo já ser considerado um partido que tem no livre mercado sua principal orientação – e não mais nas questões sociais.
Alckmin desfiliou-se do PSDB no fim do ano passado e após um período de negociação com alguns partidos, optou pelo PSB – Partido Socialista Brasileiro, com a promessa de que iria ser alçado ao cargo de vice-presidente de Lula nas eleições de 2022.
Para Geraldo Alckmin esta aliança, aparentemente incoerente transformou-se na única porta que ele viu se abrir para o seu projeto de um dia ser Presidente da República do Brasil. Afinal de contas, no término de um novo mandato de Lula, o petista já estará com 80 anos, Alckmin estará com 73 anos, ainda em condições de enfrentar uma nova corrida eleitoral. Certamente este trato foi feito – “agora você, depois eu!”. Se um novo pretenso mandato de Lula for positivo, Alckmin terá condições reais de se eleger em 2026. Isto sem contar com a possibilidade de Lula, por um motivo ou outro ter de se afastar.
Deve-se levar em conta também que o antigo partido de Alckmin, PSDB não lhe proporcionou o apoio necessário para sua maior ambição – a Presidência. Nas eleições de 2018 o candidato Alckmin teve um desempenho abaixo de qualquer expectativa alcançando menos de 5% dos votos válidos no pleito. Basta lembrar que o candidato ao governo do estado de São Paulo, na ocasião João Doria alcunhou-se de Bolsodoria para atrair o voto dos bolsonaristas que nasceram do desencanto com a política, especialmente com os candidatos do PT.
Já pelo lado de Lula o esforço de atrair Alckmin para sua chapa se dá em função da necessidade que o candidato tem de atrair uma parcela do centro político para a esfera de sua candidatura. Alckmin é um vencedor em São Paulo, tendo governado o Estado em quatro ocasiões. Ele também tem a chave que abre para a chapa a porta de confiança de que o mercado precisa para escolher alguém para cuidar do país. Depois do erro cometido com a eleição de Jair Bolsonaro, a Faria Lima não quer se equivocar novamente. Neste sentido, alguns analistas tem enxergado em Alckmin o mesmo poder que teve a “Carta ao Povo Brasileiro” que Lula assinou durante a campanha de 2002, comprometendo-se a respeitar as leis do mercado. De lá para cá se passaram 20 anos e uma mera nova missiva não teria o poder de convencer o mercado das boas intensões de Lula.
Compreender estas nuances nos faz perceber que a união destes dois adversários políticos não é tão incoerente assim. Ambos têm bastante experiência política para assumir um país dividido como é o Brasil de hoje em dia. Visto por este ponto de vista, a união destes candidatos em uma única chapa pode até ser “vendida” aos eleitores como um esforço que cada um dos dois fazem em benefício do Brasil. Pode até funcionar. Com a palavra os marqueteiros.
