Filosofia Política, FORMAÇÃO POLÍTICA

Filosofia Política – Capítulo 4

APÓS A REVOLTA, A REVOLUÇÃO – AS MASSAS BUSCAM TER VEZ E VOZ

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Terminamos o capítulo anterior afirmando que Hegel apresentou a forma da opressão que o mais forte exerce contra o mais fraco de maneira teórica. Karl Marx quis enfrentar o problema demonstrando como o mesmo acontece na prática. Aliou-se a Friedrich Engels e juntos publicaram em 1848 o Manifesto Comunista.

Karl Marx se valeu da teoria de Hegel para propor uma abordagem prática ao problema.

Para Marx (1818-1883) somente o comunismo seria capaz de resolver um problema que estava implícito ao capitalismo – a organização do trabalho. Ao deter os meios de produção através da propriedade privada o capitalista subjuga o proletariado, que nada possui além da força de seu trabalho e da capacidade de constituir uma prole – daí o termo – que iria continuar o processo. Um fornecia os meios de produção (o capitalista) e outro os braços para o trabalho (o proletariado). Um trabalho assim era um trabalho alienado, uma atividade forçada – o trabalho se transforma em uma relação de confronto e, para Marx, a raiz deste mal era a propriedade privada.

As ideias de Marx revolucionaram o mundo. O socialismo – para ele, uma fase anterior ao comunismo – tornou-se ideologia política e foi implantado em alguns países. O mais importante exemplo é o regime soviético que aflorou após a Revolução de 1917 na Rússia. Durante a Guerra Fria, que pode-se dizer, foi uma extensão da Segunda Guerra Mundial os regimes capitalistas e socialistas confrontaram o mundo em dois grandes blocos – socialistas e capitalistas.

E seguindo a tradição do pensamento de Karl Marx toda uma teoria foi construída a partir dos princípios trazidos por ele. Assim, para além das ideias de Marx surgiu uma corrente ideológica que foi denominada de marxista.

Nem todas as propostas marxistas foram pensadas por Marx.

Desta maneira, as ideias genuinamente advindas de Marx podem ser chamadas de “pensamento marxiano”, mas, aquelas advindas de toda uma corrente ideológica que dela se formou são chamadas marxistas. Portanto, nem tudo o que é marxista necessariamente foi proposto por Marx. O marxismo é fruto do pensamento dos intérpretes de Marx.

O marxismo acabou por espraiar sua influência em diversas áreas do saber humano, oferecendo uma mensagem de transformação e libertação – nas artes, na economia e na maneira de se enxergar a história, por exemplo.

Apesar desta maneira de enxergar a vida e a sociedade não ter funcionado adequadamente na prática – haja vista o fim da União Soviética com a queda do muro de Berlim e o fracasso de outras sociedade comunistas, como Cuba – continua a existir, através do ideal comunista um movimento que pretende socializar a humanidade. Aos fracassos se atribui as ambições das pessoas que se apoderaram do poder e não a ideologia em si, que continua a embalar o ideário de muita gente bem intencionada por aí.

Sim, o que Hegel demonstrou na teoria e Marx pretendeu implementar na prática continua a ser um divisor de mentes e corações da humanidade.

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No livro “A democracia na América” Tocqueville contrapõe o Velho ao Novo mundo.

O contraponto do socialismo é o liberalismo. Na França de então, Alex de Tocqueville (1805-1859) criticava as pretensões de Marx. Argumentava que o sistema jogava contra as paixões materiais do homem, minando o princípio da propriedade privada, além de desprezar o indivíduo. Tocqueville acreditava que este tipo de Estado sufocaria a iniciativa individual através de um Estado dominador que terminaria por se tornar o “senhor de cada homem”.

Mesmo assim, em 1871 é proclamada a Comuna de Paris, fruto de um longo processo revolucionário que se desenvolvia na França desde 1848. A Comuna a primeira experiência de um governo de trabalhadores, que na visão de Marx devia ser “composta de conselheiros municipais eleitos por sufrágio universal nos diversos distritos da cidade, responsáveis e substituíveis a qualquer momento. A Comuna devia ser não um órgão parlamentar, mas uma corporação de trabalho, executiva e legislativa ao mesmo tempo”.

Quem deu as bases teóricas para o acontecimento foi Proudhon (1806-1865) com a publicação em 1840 de “O que é a propriedade“.  Outro pilar ideológico do movimento foi o  “Manifesto Comunista” de Marx e Engels. Na verdade, a tendência crescente de um avanço do socialismo na classe operária internacional já vinha sendo impulsionada desde a década de 1830. Também Mikhail Bakunin (1814-1876), um dos fundadores do sindicalismo revolucionário e severo contestador da autoridade religiosa, teve participação importante em vários levantes populares na França entre 1870 e 1871. Bakunin se jactava em afirmar que o movimento era fruto do socialismo revolucionário que acabava de promover uma primeira manifestação brilhante e prática – a Comuna de Paris.

A “Comuna de Paris” pretendeu que o povo governasse o próprio povo, sem o domínio político das ‘elites’.

Todavia, o projeto da Comuna fracassou porque foi derrotado pelo exército regular da França que num primeiro momento havia se deslocado para o interior. Também houve o apoio da Prússia, que se organizava pela unificação da Alemanha e percebia no movimento um grave perigo para o seu processo. Coincide também com o movimento de unificação da Itália. Era uma Europa em profunda mudança.

Em 1873 uma severa crise financeira assolou tanto Europa quanto os Estados Unidos, que não fazia muito tempo havia saído de uma sangrenta e traumática guerra civil (finalizada em 1865). Esta grave crise gera uma longa depressão. Em 1889 assistimos a Segunda Internacional, organização de partidos socialistas e trabalhistas fundada em Paris, dando sobrevida ao movimento das massas que reivindicavam um lugar ao sol.

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Por outro lado, o argumento dos liberais, como John Stuart Mill (1806-1873) era o de que “a individualidade é o alicerce de uma sociedade saudável” – e procurava encontrar um equilíbrio entre a liberdade do indivíduo e o controle social. Para Mill, o instituto das eleições regulares teria o poder de alinhar o interesse das massas com os do Estado. Mas havia certamente um problema já detectado por Tocqueville – a tirania das maiorias. Tão danosa quanto o governo de um tirano poderia a opinião pública majoritária se tornar porque as opiniões do povo estavam arraigadas no próprio interesse e preferências pessoais, sem conseguir alcançar o bem da coletividade – além de poder ser manipulada! Então Mill trabalhou por encontrar um equilíbrio entre a autonomia individual e a interferência do Estado. O Estado só poderia intervir na liberdade do indivíduo quando esta mesma liberdade causasse danos aos demais. Sendo assim, enquanto no campo das ideias, nenhuma forma de pensamento devia ser oprimida, pois, ao oprimi-la, poderia estar tolhendo a sociedade de novas maneiras de se desenvolver. Isto é, as minorias também deveriam ter a oportunidade de se manifestar.

Stuart Mill escreveu “Sobre a Liberdade” no qual pensou no equilíbrio entre a liberdade individual e o controle social.

Mill escreveu sua principal obra “Sobre a Liberdade”, baseado no contexto do sistema filosófico do utilitarismo, para o qual as ações deveriam ser julgadas de acordo com o alcance da contribuição para a soma total da felicidade humana. Vejam, uma ação livre e individual, mas que deveria estar em consonância com a felicidade geral de todos.

O pensamento de Mill deu base ao desenvolvimento das democracias liberais ao redor do mundo. Assim, nas democracias liberais modernas, o princípio da liberdade individual e as considerações acerca do utilitarismo que ele defendia e que foram propostas antes por Jeremy Bentham formam o sustentáculo das discussões sobre os debates acerca de comportamento social, tais como o homossexualismo, o tema do aborto e mesmo o comportamento do governo em relação à economia.

Já Friedrich Nietzsche (1844-1900) enxergava no utilitarismo a expressão corrompida do pensamento da burguesia inglesa, que, para o pensador, era feliz, mas totalmente ignorante. Nietzsche não se debruçou muito na questão do Estado e de seu poder sobre o indivíduo. Preocupou-se mais com o sentido de se pertencer a ela – e a esquemas religiosos – falou de “vontade de poder”. Para o filósofo prussiano, a vontade de poder é maior do que a própria vontade de viver – uma luta sem fim pelos objetivos e as conquistas mais elevadas da vida. Ele não escreveu sobre movimentos nem organizações, seu foco sempre foi o indivíduo, porém seus escritos influenciaram pensadores políticos – de direita e de esquerda.

Nietzsche não tinha a política em si como sua principal preocupação, mas o que disse foi essencial.

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Max Weber entrega seu “A ética protestante e o espírito do capitalismo” em 1905, mesmo ano em que uma ameaça de revolução é extinta na Rússia, revolta esta que seria o embrião da Revolução de 1917. Weber se baseou em uma ciência que surgia, a sociologia, para expor uma nova maneira de explicar a sociedade. A sociedade deveria ser compreendida a partir de sua base – os indivíduos. O comportamento dos indivíduos seria definido em conformidade com sua visão de mundo – um entendimento coletivo. Sistemas religiosos e políticos conduziam a esse entendimento. Na obra de 1905 ele propôs que o espírito do protestantismo individualista conduziria a sociedade a desenvolver uma sociedade de mercado. Aliás, está aqui o cerne de um entendimento que reza que os Estados Unidos se desenvolveram porque a religião protestante induziu aquele povo a trabalhar e a evitar o consumo, gerando poupança e fomentando o capitalismo enquanto a América Latina católica não desenvolveu o mesmo entendimento. O católico estaria mais afeto a uma vida de privações e sacrifício, aguardando a recompensa no além. Bem, quando se fala em consumo excessivo que povo vem à mente – o norte americano não é?

Weber é tido como um dos pais da moderna Sociologia.

Cuida-se, na verdade, do embate de forças que historicamente se enfrentam tentando conduzir finalmente à liberdade do homem. Este movimento de liberdade é sempre refreado por aqueles que pretendem manter as coisas como estão porque sua posição é privilegiada. O próximo salto civilizatório da humanidade se dará quando as ideologias, agora claras e bem definidas passam ao centro do debate. O período vai até o final da Segunda Guerra, mas será ao final dela, que as duas ideologias principais – capitalismo e socialismo – irão se acomodar em dois grandes blocos, dando início a um período de disputas ideológicas, onde pensadores seriam fundamentais para esclarecer o momento.

É o que veremos no próximo capítulo.

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