
Origens distintas
Foi lançada no último sábado, dia 7 de maio a chapa que irá concorrer à presidência formada pela coligação entre o Partido dos Trabalhadores – PT, o Partido Socialista Brasileiro, PSB cuja alianças atrai também partidos mais à esquerda, como o PCdoB e PV – partidos com os quais o PT deve formar uma federação, além do Psol, Rede, Solidariedade.
Para o PT, “a eleição presidencial deste ano colocará em disputa dois projetos muito claros: o da democracia e o do fascismo.”, restringindo desta maneira o pleito a apenas as duas candidaturas que se polarizam. Se auto determinando democrático, o partido procura adjetivar seu oponente como fascista – faz parte do jogo.
O que é de se admirar é a improvável e, até certo tempo, impensável união de duas figuras públicas que se destacaram por caminhos tão diferentes durante suas vidas públicas.
Lula surgiu como o panfletário da porta das fábricas que, aos poucos foi consolidando-se como um líder mais ‘palatável’ à esquerda, até conseguir se eleger presidente da república em 2002.

Geraldo Alckmin, ao contrário, sempre teve sua imagem ligada à de um político moderado. Iniciou sua caminhada no MDB (que fazia oposição ao regime militar) e ajudou a fundar o PSDB – que de início tinha uma posição de centro-esquerda. Durante seus mais de 30 anos no PSDB, Alckmin forjou a imagem de se opor fortemente aos ditames do PT, especialmente aos de seu líder, Luiz Inácio Lula da Silva.

Há justificativa para a formação desta chapa?
Por incrível que pareça, há. Quando se fala nos partidos que a compõem (PT e PSB) a aliança é quase natural. O diferente aí foi o fato de Alckmin ter se filiado ao partido socialista.
Além disso, o discurso petista de que as próximas eleições serão definidas pelo embate democracia x fascismo é suficiente para ajudar a justificar esta estranha união. Seria, portanto, um esforço maior em torno de uma proposta democrática que iria forjar a chapa. Somente unindo forças até então antagônicas se poderia combater um mal maior – que é aquele que atenta contra o próprio processo democrático.
Por esta ótica, Lula aceitaria se unir a um candidato que sempre contestou suas atuações políticas porque o momento pede grandeza – não é momento de fazer as escolhas mais coerentes e sim as mais eficazes. Já Alckmin aceitou colocar seu nome junto ao de seu antigo oponente porque trabalha em prol da Democracia – para tanto sujeitou-se inclusive a filiar-se a um partido que não tem muita ligação com a história política do ex-governador de São Paulo.
Assim, enquanto Lula faria o papel de conversar com o povo, que se encontra neste momento bastante necessitado, Alckmin conversaria com a elite, que também se vê desorientada. Pode funcionar.
Como a chapa foi formada:
Em uma palavra, a chapa foi formada no susto! Na verdade, duas figuras deram o início àquela que tem sido considerada uma das chapas mais improváveis da política recente do país – o deputado federal Gabriel Chalita (sem partido) e o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT). Foram meses de uma costura delicada que acabou desencadeando em uma chapa que pretende, com a conhecida parcimônia de Alckmin, trazer Lula mais para o centro mas que tem tido, até agora, o efeito contrário – a força e o vigor do discurso de Lula é que tem conduzido Alckmin mais à esquerda.
Após o lançamento oficial da chapa, a dupla seguirá em périplo pelo país. Não se sabe o desfecho disto tudo. A dupla diz que pretende garantir a democracia no país – pode ser. Uma análise mais profunda, todavia, pode demonstrar que Lula, ao almejar uma nova chance na presidência, pode ter em mente inclusive o desejo de vingança. Para Alckmin, esse parece ser o único caminho para um dia conseguir o posto mais alto do Executivo nacional – sua última tentativa foi um fracasso e ser vice de uma chapa vitoriosa neste momento pode-lhe abrir chances enormes.
As Vitrines
O fato é que ambos, a despeito de envoltos em escândalos de corrupção – Lula inclusive condenado por envolvimento nos casos relacionados à operação Lava Jato, e Alckmin com o desagradável mal explicado (e investigado) do caso do Rodoanel durante seus governos no Estado de São Paulo, ambos têm muito a expor.
Para ser breve, durante o governo Lula o Brasil experimentou forte crescimento econômico e reduziu o famigerado fosso da diferença social existente e persistente no país. O Brasil alcançou, durante a sua gestão, o honroso posto de sexta economia do mundo, desbancando a Inglaterra e chegando a ameaçar muito de perto a francesa.

Já Alckmin soube conduzir como ninguém a “locomotiva São Paulo” – o Estado disparou como o mais importante estado da federação. Haja vista enquanto São Paulo, governado por sucessivos governos do PSDB conseguiu se modernizar e enriqucer como nunca, o Rio de Janeiro, apesar de ter sediado inclusive uma Olimpíadas (de 2016), não acompanhou o rítmo paulista.

Desta maneira, os dois candidatos tem o que ‘colocar à mostra’ em suas vitrines, apesar de ter também muita coisa para deixar escondida no porão.
Em suma:
Não se pode condenar a chapa apenas porque até então os candidatos seguiram caminhos diversos – é parte da política às vezes mudar de rota para evitar o despenhadeiro – aliás, isso faz parte da vida como um todo.
Melhor avaliá-la frente às outras opções que nos próximos meses serão oferecidas ao eleitor.
Acompanhar de perto todo este processo é fundamental para a escolha – o país tem, neste momento pouco espaço para equívocos. Que vença o melhor e mais preparado para assumir o país nestes tempos tão estranhos. Boa sorte ao Brasil!
