FORMAÇÃO POLÍTICA

O jogo duro das coligações

Vencer uma eleição presidencial não é tarefa fácil. O candidato tem de convencer o eleitor de que é o mais preparado para assumir a responsabilidade de conduzir o país pelos próximos quatro anos. Mas, antes disso, um político tem de passar por outras etapas igualmente difíceis e desgastantes e que vão impulsionar – ou fazer naufragar – uma possível candidatura. Trata-se da escolha do candidato pelo partido e, após isso, a obtenção de apoio de outros partidos que eventualmente não irão lançar candidatura própria para a presidência.

Apesar de ter vencido as prévias do PSDB, João Doria tem encontrado resistências à sua candidatura.

Portanto, o primeiro passo cabe ao partido ao qual ele pertence – sua disponibilidade em lançar um candidato próprio. Acontece que isto envolve um aspecto que tem sido crucial para os partidos e que neste momento mostra-se claro e evidente em alguns partidos, especialmente no MDB e no PSDB.

Emedebistas históricos investem contra a candidatura de Tebet.

Em ambas agremiações, existe uma ala muito forte que prefere não lançar candidato à presidência para que todo os valores que serão creditados referentes ao fundo eleitoral seja direcionado para a divulgação de candidaturas de deputados, senadores e governadores. 

Faz sentido – quando a possibilidade de eleger o presidente é remota, melhor apostar as fichas na tentativa de vencer disputas regionais nos estados e obter a maior bancada possível tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal. Duas vantagens: além de aumentar a participação do partido nos fundos partidários e eleitoral, aumenta o poder do partido em negociar com o executivo – por cargos e verbas. Veja, isto não é ilegal e faz parte do jogo político – o problema é quando partidos ou grupo de partidos – como o Centrão – sequestram a governabilidade e impõe decisões ao mesmo.

Ultrapassado este passo, ou seja, caso um partido decida por lançar um candidato, inicia-se uma batalha intestina em relação à qual nome lançar. Ás vezes, isto é natural. É o caso, por exemplo do PT de Lula ou Bolsonaro pelo partido que atualmente o abriga, o PL ou mesmo Ciro Gomes, no PDT. O problema surge quando mais de um nome se apresenta para a disputa com reais condições de encabeçar uma chapa. 

Apesar de ser considerado algo democrático, isto pode representar uma outra dor de cabeça ao pretenso candidato. Caso atual é o de João Doria que, apesar de ter vencido as prévias de seu partido, o PSDB, enfrentou resistência de uma importante ala que preferia o nome do derrotado nas prévias, Eduardo Leite (ex-governador do Rio Grande do Sul).

Vencidas estas duas etapas chega uma realmente desafiadora – a da construção de uma coligação que dê de fato sustentabilidade à candidatura. É aqui que os caciques dos diversos partidos começam a conversar e a tecer uma rede por vezes incoerente.

Há algumas coligações que são coerentes e até esperadas. Isso se dá devido à posição ideológica dos partidos. Assim, à esquerda uniram-se PT, PSB, PV, Psol, PCdoB, Rede e Solidariedade para juntos unirem suas forças em prol da candidatura Lula-Alckmin. Aliás, o fato de Alckmin ter migrado para o PSB após sua saída do PSDB foi exatamente porque PT e PSB formam uma união totalmente coerente e mesmo histórica.

Ao centro, pretendeu-se formar uma ampla coligação com a intenção de apresentar um candidato que possa representar uma terceira via em relação à polarização Lula-Bolsonaro. Este projeto tem falhado exatamente porque os presidentes dos partidos de centro não têm conseguido entrar em um entendimento em relação a esse nome. Neste grupo estão o PSDB e Cidadania (que estão em processo de formação de uma federação partidária), o MDB acima mencionado, mas também e o União Brasil (partido formado pela fusão de dois partidos, DEM e PSL que juntos se tornaram o partido que mais receberá verbas do fundo eleitoral).

O problema é que, à exceção do Cidadania, trata-se de partidos muito grandes e que possuem alas internas que se digladiam, levando em conta também os interesses regionais. Assim, dentro do PSDB, além daqueles que são favoráveis à candidatura de Eduardo Leite em lugar de João Doria, já tem uma ala sendo assediada por Jair Bolsonaro, o que racha o partido em três. Pelos lados do MDB existe uma importante ala – a nordestina –  que pretende apoiar Lula. 

No próximo dia 18 foi prometida a definição de uma candidatura única que representaria este autodenominado ‘centro democrático’, composto por PSDB/Cidadania, MDB e União Brasil. 

Porém, a União Brasil foi o primeiro que deu mostras claras de que esta coligação naufragou – lançou como pré-candidato à presidência o seu próprio presidente Luciano Bivar e deixou para os diretórios regionais, na prática, a decisão de apoiar Lula ou Bolsonaro. Qualquer apoio a nível nacional ficaria para o segundo turno. 

Presidente do UB Luciano Bivar se adiantou, lançou-se como candidato e deixou a ‘terceira via’ enfraquecida.

À direita, Bolsonaro (PL) faz uso da força que sua caneta presidencial tem para atrair o apoio de outros partidos. Ele já se envolveu até a medula ao Centrão – composto neste momento pelo PL, PP e  pelo Republicanos. Aposta na busca de parte do MDB, do PSDB e do União Brasil para conseguir apoios importantes e vencer as eleições – inviabilizando qualquer tentativa de formação de uma coligação ao centro. Lula também faz isto ao investir sobre o PTB que, no caso de uma coligação ampla, poderia compor uma candidatura de centro-democrática. Parece que a ambos convém a polarização.

O fato é que uma eleição se começa a ganhar conforme vai-se angariando apoios. Este momento é bem interessante – é quando o xadrez político está de fato sendo jogado. Observar estes movimentos permite inclusive perceber se uma coligação é sincera, formada com coerência ou apenas formada com interesses específicos – no caso, vencer as eleições e/ou estar perto do poder.

Se o Brasil vai conseguir encontrar uma porta de saída para sair deste estado de letargia em que se encontra depende muito do que vem sendo negociado agora. Assim, esse momento merece toda a atenção por parte do eleitor e é bom que este eleitor entenda como e porque este jogo é jogado.

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