FORMAÇÃO POLÍTICA

João Doria vai ficando pelo caminho

Vencedor das prévias realizadas pelo PSDB em novembro do ano passado, o ex-governador de São Paulo está vendo o seu nome ser preterido dentro da própria sigla por uma ala do partido dos tucanos que não admite a candidatura do paulista à presidência.

João Doria está sendo rifado pelo seu partido, PSDB.

Ao se sentir traído, todavia, Doria está experimentando do veneno que ele mesmo ajudou a destilar no interior do partido e que tem causado grandes estragos àquele que já foi uma das duas principais agremiações políticas do país e que vem perdendo o protagonismo ao longo do tempo.

Doria apareceu para a política recentemente, em 2016, vencendo uma também polêmica prévia partidária, na ocasião para se lançar à disputa pela prefeitura da capital. Sendo o escolhido, bateu o então prefeito Fernando Haddad (PT) e se tornou o prefeito de São Paulo ainda no primeiro turno, mas naquele momento tinha ali o apoio do governador Geraldo Alckmin (então PSDB). E aí está um ponto fundamental em toda esta estória – Alckmin foi o padrinho político de Doria.

Doria bateu Haddad (PT) ainda no primeiro turno com o apoio de Alckmin.

Depois, afoito, renunciou à prefeitura com menos de dois anos de mandato para concorrer ao governo do estado – novamente a tática deu certo e João Doria se tornou governador de São Paulo em 2018 e foi durante essa campanha que ele traiu o seu aliado Alckmin, que estava candidato à presidência mas patinava nas pesquisas. Doria então deu seu apoio a Jair Bolsonaro (então no PSL) que disparava nas pesquisas com um discurso liberal na economia e conservador nos costumes. Doria se uniu a tal ponto a Bolsonaro que chegou-se a criar a alcunha de “BolsoDoria”, o que lhe era muito conveniente à época. Alckmin naufragou com menos de 5% dos votos, Bolsonaro venceu a presidência e Doria assumiu o Palácio dos Bandeirantes.

Em detrimento a Alckmin, Doria apoiou Bolsonaro em 2018.

Acontece que todo mundo sabia – e Doria não escondia de ninguém – que o Bandeirantes lhe serviria apenas de trampolim para o Planalto – sua grande ambição política. Nisso surgiu logo o atrito com o presidente da República que havia mudado de discurso – Bolsonaro disse em campanha que trabalharia para por fim ao instituto da reeleição para presidente no Brasil, mas após eleito passou a trabalhar para a sua própria reeleição – agora Doria era uma pedra no caminho.

De olho fixo na presidência, João Doria renunciou ao cargo de governador do estado de São Paulo, abrindo mão de disputar uma reeleição na cadeira de governador, já com a certeza de que seria lançado pela sigla à presidência, afinal de contas, ele venceu as prévias.

Acontece que João Doria tem muitos rivais dentro do ninho tucano. Um destes é Aécio Neves, pelo qual Doria trabalhou pela sua expulsão do partido em um momento em que o mineiro estava fragilizado devido a denúncias que o envolviam em corrupção.

No momento de maior fragilidade de Aécio, Doria trabalhou por sua expulsão do PSDB.

Na verdade, Doria faz parte de uma ala que acabou por conduzir o partido da centro-esquerda para a centro-direita – é quase um partido dentro do partido. Políticos de grande expressão e envergadura dentro do PSDB não querem Doria candidato à presidência – até porque uma candidatura presidencial custa muito dinheiro e o partido quer se utilizar das verbas que dispõe neste ano para fazer o máximo de deputados, senadores e governadores porque, como tem se tornado claro, o partido tem perdido força ao longo do tempo – uma campanha sem chances de vitória à presidência significaria abrir mão de verba eleitoral para eleger governadores e parlamentares –  o que parece ser o foco do partido nesse momento.

Rejeição de quem?

O ponto que tem sido mais utilizado pela ala que não quer Doria candidato é o de que ele tem alta rejeição junto ao eleitorado. Na verdade, a rejeição ao nome de Doria se encontra instalada de maneira definitiva dentro do partido e não fora dele. Afinal de contas, para que serve o marketing político?

Uma campanha bem elaborada poderia diminuir esta rejeição e fazer sim o nome do candidato entrar em uma curva ascendente – isso não foi oferecido a Doria. O nome de Doria já tem projeção nacional, o que teria de ser ainda construído com Simone Tebet (MDB).

O fato é que o ex-governador de São Paulo tem bastante a mostrar de seu governo no estado de São Paulo, a começar por seu trabalho quando a vacina contra a terrível peste que se abateu sobre a humanidade nestes últimos anos estava sendo rejeitada pelo presidente, momento em que Doria assumiu a responsabilidade de trazer esta esperança para o povo de São Paulo e depois para o Brasil, através do Instituto Butatã.

O governo de São Paulo saiu na frente para vacinar pessoas contra a Covid-19 no Brasil.

Mas o governo de Doria alcançou outro feito – a despoluição do Rio Pinheiros em São Paulo, algo sempre falado, mas nunca realizado e que o ex-governador acabou por entregar o rio já com algum aspecto de vida, ainda que falte um bom caminho para sua despoluição.

Doria também conseguiu sanear as contas do estado. Saiu de um quadro deficitário em 2019 para um superávit de 41,9 bilhões de reais em 2022. Também implantou câmeras acopladas aos uniformes dos policiais militares do estado de São Paulo, o que diminuiu a letalidade das ações policiais.

Tudo isso poderia servir de cardápio para uma campanha eleitoral que fizesse seu nome enfim sair dos meros 2% de intenção de votos, mas a verdadeira rejeição de Doria encontra-se aninhada dentro de seu próprio partido.

Doria tem pouco tempo para agir e um caminho pode ser o judicial. Isso certamente pouco efeito teria junto ao eleitoral que, afinal seria quem julgaria a viabilidade de suas propostas. Quando não se consegue convencer nem seus próprios correligionários, fica difícil levar um projeto desta dimensão adiante.

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