
Os poderes do Estado são três – Legislativo, Executivo e Judiciário e as habilidades que as pessoas precisam ter para desempenhar cada uma destas funções estatais também são diferentes.
O Judiciário, diferentemente dos demais, exige uma profunda preparação e anos de estudo árduo para que um candidato chegue ao posto de juiz de direito, por exemplo.
O posto ocupado por Sérgio Moro, antes de se aventurar pelas searas da política partidária era o de Juiz Federal – um cargo muito cobiçado por aqueles que pretendem exercer a magistratura.
Sérgio Moro abandonou o relativo conforto de quem tinha uma caneta poderosa nas mãos, primeiramente porque acreditou que ao se tornar Ministro da Justiça de um candidato que se propunha a se afastar do que chamava de ‘velha política’ poderia, de fato e de direito, transformar o Brasil – este foi o grande e – porque não dizer, – nobre motivo – pelo qual Moro renunciou sua carreira na magistratura.
Chegado no Executivo e, como Ministro de Estado, imaginou que poderia acelerar algumas mudanças na Legislação penal brasileira que ele entendia como necessária para tornar o país um lugar melhor e mais justo para se viver. Tentou emplacar as famosas “10 medidas” que trabalhou a quatro mãos com o então Procurador Deltan Dallagnol. Essas medidas já vinham sendo perseguidas pelos juristas antes mesmo de Moro entrar na política, porém, quando pensou que estivesse realmente em condições de implementá-las, não obteve o apoio necessário – os ventos da Lava Jato já estavam mudando.
Enquanto esteve à frente do Ministério da Justiça, Moro teve de tapar o nariz para conseguir respirar o ar que envolvia o governo. Mas não teve como suportar a tentativa de interferência da presidência da República nas questões de alternância no comando da Polícia Federal, em especial na do Rio de Janeiro. Deixou o governo acusando o presidente disto.

Após temporada nos Estados Unidos, Moro se apresentou ao país como pretenso candidato à presidência. O partido que lhe acolheu e apostou em seu nome foi o Podemos. Apesar de não ver sua candidatura decolar, Moro começou sua pré-campanha com o apoio deste partido.
Porém, no final de março deste ano, Sérgio Moro surpreendeu e abruptamente deixou as fileiras do Podemos e embarcou no União Brasil, certamente iludido por ter sido acolhido no partido que hoje tem o maior tempo de propaganda eleitoral, bem como as maiores verbas do fundo eleitoral e partidário. Deu um passo mal calculado.

De cara, o partido negou-lhe a condição de candidato à presidência. A vaga está ocupada, atualmente, pelo presidente da agremiação, Luciano Bivar. Então Moro se resignou e aceitou concorrer ao cargo de Senador da República pelo mais importante estado da Federação: São Paulo – nada mal!
Pensando bem, o cargo de Senador poderia ser, verdadeiramente, um excelente laboratório para Moro exercitar as habilidades que a política exige. Mas, no início deste mês, novo golpe foi desferido contra as pretensões de Moro – o TRE-SP negou a transferência do domicílio eleitoral de Moro para São Paulo. Como Moro se recusou a levar o caso ao Superior Tribunal Eleitoral, restou-lhe se candidatar ao Senado pelo seu estado de origem, o Paraná.

Algumas questões ainda dificultavam o caminho de Moro na empreitada. Primeiro, seu aliado Senador Álvaro Dias (Podemos) irá concorrer à mesma vaga – e este ano se elege apenas um senador por estado. Outro problema – para se candidatar ao cargo que lhe sobraria, o de Deputado Federal, entraria em rota de colisão com seu colega Dallagnol (Podemos), já que o ex-procurador também irá concorrer ao mesmo cargo, certamente dividindo seus eleitores.
Não bastasse todas essas desventuras, agora uma nova tacada foi dada – desta vez por uma filiada do partido União Brasil no Paraná que pretende definitivamente jogar uma pá de cal em qualquer pretensão de Moro a algum cargo político nestas próximas eleições.
Foi protocolado um pedido interno, pela ala bolsonarista do partido no estado, para a impugnação da filiação ao partido no Paraná – isso porque Moro se filiou ao União em São Paulo. O pedido pede para que seja declarada a “inexistência de filiação do impugnado”, o que afastaria em definitivo suas pretensões no estado. Uma resolução do Tribunal Superior Eleitoral já declarou que para cargos estaduais o candidato deve estar filiado ao partido no estado pelo qual vai se candidatar. Independentemente disto, também o PT promete levar o caso ao TSE.
Enfim, Moro está com o seu destino político sequestrado pelo partido ao qual se filiou em fins de maio deste ano.
Moro é aquilo que na política se chama de puxador de votos – e a ideia do partido é que Sérgio saia ao cargo de Deputado Federal pelo Paraná enquanto sua mulher, Rosângela, se candidate à mesma vaga por São Paulo. É uma estratégia que pode render bons frutos ao partido. Mas pode ser que Moro veja todas as suas expectativas frustradas – o fato de não conhecer bem os meandros da política profunda pode ter lhe roubado a oportunidade de se iniciar, verdadeiramente, na política partidária – ao menos nesse momento. Alí, a astúcia dita as regras. Cabe ao ex-juiz se adaptar a esta nova realidade se quiser colocar seu nome à apreciação do povo brasileiro.
