IDEOLOGIAS – DO ASSASSINATO DO ARQUEDUQUE ÀS BOMBAS SOBRE O JAPÃO
***

O assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do império Austro-Húngaro é tido como o estopim da Primeira Guerra Mundial. A guerra aconteceu, todavia, devido ao rearranjo político pelo qual a Europa atravessava naquele momento.

A instabilidade política provocada pela erosão das antigas potências imperiais havia abalado as estruturas então vigentes. Além do mais, alguns países como a Alemanha e Itália estavam atrasados no processo do imperialismo, pelo qual porções – e riquezas – da África principalmente, estavam nas mãos das potências europeias. Estes países que se atrasaram se uniram em uma aliança e a partir daí passaram a tentar se projetar neste processo, despertando a reação dos países que já estavam estabelecidos, como França e Inglaterra – e o continente europeu se armou.
Portanto, o que causou a Primeira grande guerra – e consequentemente a Segunda, que pode ser vista como uma má resolução da Primeira – não foram as revoluções que pretendiam dar mais liberdade individual e direitos sociais ao homem, mas a resistência que uma ordem posta e vigente oferecia a esta nova configuração da sociedade.
Veja: quando o homem comum, reprimido por um governo que lhe sugava a essência da vida se rebelou contra esta ordem, utilizou-se das revoluções, na busca por dignidade. Quando essa ordem finalmente ruiu, a monarquia, tal e qual era concebida levou todo o continente europeu – e grande parte do mundo – à guerra.
Estimam-se dezessete milhões de mortos na primeira guerra mundial e outros 50 a 55 milhões na segunda guerra. A dimensão disto é a seguinte – em 1940 o Brasil tinha pouco mais de quarenta milhões de habitantes – foram mortos nas duas grandes guerras algo em torno de setenta milhões de pessoas!
Este conflito teve o poder de fazer o homem se ver de uma nova maneira – e filósofos são faróis nesse sentido.
Uma das potências imperialistas de então, a Inglaterra, se gabava em dizer que o sol nunca se punha em seu império – mas seus súditos queriam se desvincular deste privilégio. A Índia, antiga colônia inglesa, conquistou sua independência baseada nos princípios de não violência defendidos por Mahatma Gandhi (1869-1948).

Ele foi um filósofo prático porque colocou em uso suas ideias, sofrendo as consequências disto. Iniciou suas experiências de usar a paz contra o poder de uma potência como a Inglaterra ainda na África do Sul, onde se formou em Direito. Mas foi na sua terra – a Índia – o lugar em que levou às últimas consequências os seus ideais. Percebeu o poder da imprensa e passou a se utilizar do destaque que ela oferecia para tornar-se cada vez mais aguerrido na desobediência civil que, enfim, forçou os britânicos a conceder a independência à Índia, em 1947.
Mais tarde, Martin Luther King (1929-1968) irá se utilizar destes métodos para promover movimentos de resistência pacífica às leis racistas nos Estados Unidos, durante os anos 1950 e 1960. Certa vez, ele disse que “Cristo deu-nos as metas, e Mahatma Gandhi, as táticas”.
Então, após os horrores das grandes guerras, momento em que se percebe que o mundo passou a ser um lugar que é de todos e cujos fatos e ações acontecidas em determinado lugar acabam por irradiar por todo o planeta, a Filosofia inicia um movimento de pensar na paz em detrimento da guerra, e sua preocupação principal se voltou para a busca de um modelo de vida em que a exploração do homem pelo homem deixe de existir.

Mas pensamentos são tendências, não unanimidades. Se o processo de independência da Índia teve o sempre destacado papel de Gandhi, que pregou a paz, teve também a colaboração de outros personagens que não pensavam assim. Um deles foi o pensador e ativista Manabendra Nath Roy (1817-1854) que, ao contrário do primeiro, pregava a insubordinação armada contra o poderio britânico. Legitimava o uso da força para defender as massas empobrecidas do seu país contra o despotismo dos ingleses.
No final de sua vida, M. N. Roy, em meados dos anos 1950, dedicou-se ao que ele chamou de Humanismo Radical – estava desiludido tanto com a democracia burguesa quanto com o comunismo e procurava uma via alternativa – via esta que vem sendo buscada pelos pensadores desde que o capitalismo se confrontou com o comunismo, mas que ambos, por extremismo ou exclusão do outro, não conseguem encontrar.
Isso demonstra como as filosofias do período são, por excelência, excludentes e radicais. Gandhi foi um radical contra a guerra. Roy um radical a favor da luta armada.
Os pensadores daquele momento estão quase sempre engajados nos acontecimentos políticos que chacoalharam o período. Muitos deles assumiram postos de comando em seus países e levaram à morte muita gente. Da Revolução Russa, por exemplo, temos Vladmir Lênin (1870-1824), Joseph Stalin (1878-1953), Léon Tróstki (1879-1940) que nada mais fizeram do que tentar colocar em prática um comunismo de estado, mas que fracassaram.
Antes mesmo da Primeira Guerra, Emiliano Zapatta (1879-1919), no México, tentou implantar um estado comunista e na Alemanha Rosa Luxemburgo (1871-1919) também foi a campo defender os ideais de uma sociedade mais justa e igualitária.
Zapatta e Rosa Luxemburgo morreram no mesmo ano – 1919 – imediatamente após o final da Primeira Guerra (1918). De fato, o mundo que viu terminar a Primeira guerra já se preparava para a Segunda.
Olhar a vida e as ideias destas personagens nos leva a indagar: seriam eles filósofos?
Sim, foram filósofos que além de defender ideias colocaram a vida em jogo. Causaram muitas mortes e muitos morreram por suas causas – foram filósofos radicais.
Winston Churchill (1875-1965), Primeiro-ministro britânico durante os horrores da Segunda Guerra mundial foi muita coisa – esplêndido orador, historiador, escritor e até artista. Mas não podemos dar a ele o nome de filósofo, a não ser pela frase que lhe eternizou: “A democracia é o pior dos regimes, à exceção de todos os demais”. Quis com isso afirmar que se é difícil viver em democracia – especialmente governar em um regime democrático – pior é viver em outros, como o autoritarismo ou o fascismo/nazismo, que levou o mundo à Segunda Guerra, filhos mal concebidos do nacionalismo extremado.
Uma pensadora que sofreu muito os traumas da guerra foi Hannah Arendt (1906-1975). Foi obrigada a migrar da Alemanha para os Estados Unidos por ser judia. Viu-se reduzida à condição de apátrida até conseguir a nacionalidade americana, em 1951. Foi então uma fervorosa defensora do pluralismo – é necessário incluir o “outro”.

Arendt pensou em uma democracia para além daquela pela qual Churchill deixou sua crítica-elogio. Queria uma democracia para além da representativa – uma forma de democracia direta, concebida através de conselhos.
Para combater o que ocorreu na Europa, durante a Segunda Guerra deixou o conceito do Totalitarismo – que é algo que vai para além do mero autoritarismo. O totalitarismo age na alma das pessoas, transformando-as em robôs cegos e obedientes as ordem de um líder.

Mas a marca do período é em suma, a filosofia da não guerra. Smedley Butler (1881-1940) foi um general dos marines americano que escreveu sobre o seu sentimento ao participar de guerras. Devido à industrialização do mundo Butler se sentia, após anos de luta, como um gangster para o capitalismo. Para ele, a guerra só deveria ser aceita quando servisse para a autodefesa de uma nação e para a proteção dos direitos civis dos cidadãos – mas não era isso o que ele via! Pelo contrário, para ele, a guerra nada mais era do que o extremo utilizado pelo Estado para garantir os interesses que as empresas (nomeadamente as americanas, no caso) tinham no exterior.
Se Arendt resume o período ao oferecer o conceito do totalitarismo e Butler enxergava na guerra um meio de empresas atingirem seus interesses no exterior, Antonio Gramsci (1891-1937) vai fazer a ponte entre os horrores da guerra – que ele também sofreu – com a saída encontrada pelo que se pode imaginar como uma ‘elite global’ que sempre encontra um modo de continuar a manter o povo em estado de submissão – essa elite que comanda as grandes corporações.
Não perdemos o fio da meada – primeiro a revolução perpetrada pelo povo para se vir livre de uma escravidão disfarçada conseguiu derrubar o absolutismo – que nada mais era do que uma elite investindo um homem com poderes absolutos e o mantendo no poder para que atendesse suas exigências. Depois essa elite vai levar os governos parlamentares a fazer guerra se preciso for, para manter os seus interesses inalterados.
Então, quando a guerra saiu do controle desta elite e ela viu suas propriedades arrasadas e seus mercados destruídos, ela partiu para um novo e sutil modelo de dominação. Mas, existem os filósofos para denunciá-los!
E foi assim que Gramsci percebeu e criou o conceito de “hegemonia cultural”. É através desta hegemonia que a elite global mantém o controle sobre a classe trabalhadora (escrava!?) não mais através da coerção, mas através do controle ideológico – reforçando o poder dos poderosos sobre essa massa trabalhadora com o consentimento desta mesma massa trabalhadora!

Isso se daria através da imprensa, da propaganda, do esporte, do cinema. Para se livrar disto a população deveria ser educada. Não que a arte seja ruim – aliás, ela é modo de se livrar desta hegemonia! Mas, é necessário saber escolher.
O cinema tanto pode alienar como libertar – assim também o esporte, que tanto pode prender o assalariado fanatizado por uma seleção ou por um time de futebol como pode libertar o jovem da droga através de uma sadia convicência com outros jovens.
Arendt denunciou a manipulação da história para atender a interesses imediatos e, se isso é claro e evidente em sistemas totalitários e autoritários, também pode se dar mesmo em uma democracia liberal quando visa atender aos interesses dos poderosos. Por isso Gramsci alertou para a hegemonia cultural, que prende o escravo moderno a um sistema que ele mesmo defende. Tudo isto é muito sutil.
As bombas que caíram sobre Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945 foram, para os historiadores, as últimas da Segunda Guerra Mundial e as primeiras da Guerra Fria.
O período abraçou as ideias de alguns que ainda pregavam a revolução para a destituição do poder constituído e ainda tem os resquícios da guerra como solução dos problemas, mas deixa claro que a luta armada não era mais a solução adequada.
Foi a partir daí que fóruns internacionais foram – e continuam a ser pensado como forma de segurar o ímpeto da força que por vezes o ser humano se vê tentado a utilizar.
Compreender como agem os poderosos, que se utilizam do estado para atingir seus objetivos é ponto crucial para a verdadeira libertação do homem. A filosofia denuncia e procura clarear o caminho. E, afinal, a verdadeira libertação do homem parece ser o grande objetivo da filosofia política!
Logo os pensadores perceberiam que para além da guerra – que é explícita e atenta contra a vida humana – outras questões também deveriam ser enfrentadas. O mundo atual estava em gestação – o feminismo e o direito das minorias bem como as preocupações com o meio ambiente entraram em pauta.
Falaremos também disso no próximo capítulo.
