FORMAÇÃO POLÍTICA

Bolsonaro não acredita em golpe

“Ser poderoso é como ser uma dama. Se você tem de dizer às pessoas que você é, você não é.” A frase é de Margareth Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido de 1979 até 1990. O que a “Dama de Ferro” disse décadas atrás cabe perfeitamente ao comportamento de nosso atual presidente, Jair Bolsonaro. 

Presidente instiga a divisão e insinua a golpe.

Palavras, quando acompanhadas de autoridade, têm muito poder. Mas quando desacompanhadas, provocam apenas ruídos e, a depender do ‘dono da voz’ (como diria Chico Buarque), provocam apenas estragos e sofrimento.

Jair Bolsonaro (PL) não perde uma oportunidade de tentar fazer a população entender que, caso não vença as eleições de outubro, irá aplicar um golpe. Suas falas contra o Supremo Tribunal Federal e contra o processo eleitoral – que o elegeu para diversos mandatos na Câmara dos Deputados e para Presidente da República mexem com os humores do mercado, aprofundam divisões sociais e, claro, pioram o clima político do país.

É incrível observar que o presidente, durante todo o seu mandato não fez muito mais do que inflamar suas hordas –  é como um pai que, ao invés de fazer seus filhos conversarem e se entenderem, os provoca para a briga. Que paz esse pai pode esperar dentro de sua própria casa? Qual seria o seu objetivo? Colocar seus filhos para se matarem uns aos outros?!

Acontece, todavia, que as palavras de Bolsonaro e suas ações não se encaixam. 

Apesar de manter sua postura agressiva, Bolsonaro dá mostras claras de que não dispõe das condições necessárias para aplicar um golpe de estado, caso seja derrotado pelas urnas no fim do ano. 

Se acreditasse mesmo nisso, não teria entregue o seu governo nas mãos do Centrão. Se, de fato, visse alguma possibilidade de virar a mesa não comprometeria a governabilidade do próximo presidente (que, em caso de golpe seria ele!) concedendo ajuda a uma parte da sociedade às custas da estabilidade fiscal e mesmo com a Constituição vedando este tipo de benesse em ano eleitoral. 

Daí também o esforço do governo para fazer barrar uma CPI que se formava às vésperas da eleição, fruto da confusa gestão do MEC. Mais uma: ao pedir que seus ministros se engajem em sua campanha, Bolsonaro não deixou de alertar para que os mesmos se cuidassem para não transgredirem a Lei Eleitoral. Porquê tanta preocupação?

Mais um ponto nesse sentido, o derradeiro exemplo por hoje, porque há outros… 

Chega a ser ridículo o decreto presidencial, publicado dia 7 de julho no Diário Oficial da União pelo qual o presidente quer obrigar os postos de gasolina a, literalmente, fazer-lhe campanha eleitoral. 

Vide o artigo 1º do aludido decreto ipso literis:

Os postos revendedores de combustíveis automotivos deverão informar aos consumidores, de forma correta, clara, precisa, ostensiva e legível, os preços dos combustíveis automotivos praticados no estabelecimento em 22 de junho de 2022, de modo que os consumidores possam compará-los com os preços praticados no momento da compra”. 

Sabedor da ilegalidade do ato, não impôs sanção a quem desobedecer, mas ofereceu uma clara ideia aos donos de postos de combustíveis que o apoiam de como fazer propaganda política para um governo que se desespera para se manter em pé até o fim da corrida eleitoral.

Tivesse tanta certeza de golpe, Bolsonaro jamais agiria assim. O que ele faz, então, é gritar e tentar criar um clima propício para, aí sim, arriscar a quebra institucional.

Afinal de contar, contradizendo Thatcher, o nazista Joseph Goebbels já havia ensinado que “uma mentira dita mil vezes, torna-se verdade” o que, no caso, pode ser lido como “um devaneio sonhado mil vezes pode, incirvelmente, se tornar realidade”.

Deixe um comentário