Muito pouco adianta candidatos apresentarem propostas se não demonstrarem como pretendem lidar com o Parlamento para aprovarem suas projetos.

No decorrer da semana passada, como é de costume nos pleitos presidenciais, o Jornal Nacional, da Rede Globo de televisão, serviu de cenário para uma série de entrevistas que foram concedidas pelos candidatos mais bem colocados nas pesquisas de intenção de votos. Os entrevistadores foram os jornalistas William Bonner e Renata Vasconcellos.
O fato é que não é difícil perceber que os candidatos sabem exatamente do que o Brasil precisa. Na época em que Fernando Henrique se candidatou ao cargo pela primeira vez, sua propaganda eleitoral mostrava o tucano se apoiando em cinco metas, enquanto a propaganda mostrava os dedos de uma mão sendo preenchidos: emprego, saúde, agricultura, segurança e educação.
De lá para cá – e lá se vão quase trinta anos – podemos concluir que apenas a agricultura realmente se desenvolveu no Brasil, ainda que às custas da diminuição da importância da indústria, o que deixou um outro item – o emprego – vacilando entre bons e maus momentos.
Na saúde, a despeito de todas as deficiências que o sistema apresenta, ao menos conseguiu-se criar o SUS que chega a causar vergonha – atrasos em consultas e exames, falta de leitos – mas também orgulho, como no caso dos transplantes, totalmente de graça e muito eficiente.
Quanto à segurança e educação, infelizmente, pouco avançamos – e são desafios essenciais para o desenvolvimento do Brasil.
Sim, todos os candidatos têm algumas receitas para tudo isto. O problema é que para transformar planos em realidade, precisam do parlamento, afinal de contas, não são ditadores e nem os queremos por aqui.
Nesse passo, o primeiro candidato a ser entrevistado, Jair Bolsonaro (PL), que na campanha de 2018 jurou que sabia como lidar com o problema, acabou delegando seu governo ao chamado centrão e, durante sua entrevista, não apresentou nada que pudesse nos livrar desta situação.
Ciro Gomes (PDT) apresentou uma esdrúxula solução – convocar o povo – com o aval do parlamento – para comparecer às urnas e votar em plebiscito assuntos que são, por ordinário, competência do Congresso, numa espécie de democracia direta.
Lula (PT) disse que irá conversar com o Congresso e que pretende trabalhar durante a campanha para formar maioria na Casa. Sabe bem do que está falando. Foi no final de seu primeiro mandato, em 2006, que estourou o escândalo do mensalão, pelo qual as propostas do governo eram aprovadas mediante pagamento de uma mesada aos deputados que sustentavam. Essa é a maneira de Lula negociar?
Por fim, Simone Tebet (MDB) disse que pretende trabalhar com as patologias do Congresso tornando-as transparentes, isto é, através de um decreto que faça com que os ministros de Estado relatem qual foi o parlamentar que enviou o recurso e qual a destinação do mesmo, matando com uma canetada – termo utilizado pela candidata – com o orçamento secreto.
Terminadas as entrevistas, começa-se o período das campanhas no rádio e na TV. E também os debates. No primeiro deles, promovido pelo portal UOL, pelo Jornal Folha de S. Paulo e pelo grupo Bandeirantes e TV Cultura, prometeu-se muito, mas a questão principal ficou em aberto.
Como fazer com que o Congresso Nacional trabalhe em prol do povo brasileiro?
É preciso enfrentar esta questão.
