Transição tem se mostrado desafiadora para Lula. Por enquanto, apenas uma certeza: Geraldo Alckmin segue atuando como um supraministro, abrindo diálogo entre futuro governo e setores ainda descontentes com a vitória do petista nas urnas.

Eleito, é hora de Lula começar a apresentar nomes.
Enquanto a bola rola no Catar, em Brasília o xadrez político é jogado de maneira mais estratégica do que de costume. Isso porque, na atual transição de governo, além da clássica distribuição do poder em troca da formação de maioria no Congresso, o governo que assume em janeiro de 2023 deve ainda se ocupar da questão do Auxílio Brasil, que Lula faz questão de retornar como Bolsa Família.
Para além disso, negocia-se com um Congresso que não necessariamente será o que estará legislando a partir de fevereiro do próximo ano – daí a urgência. Alguns deputados e senadores vão deixar seus postos para que os novos eleitos assumam as cadeiras. Haverá, ainda, eleição para a presidência da Câmara e do Senado e os dois atuais mandatários poderão – e deverão – se candidatar.
Dessa maneira, estamos diante de um cenário político bastante complexo, que tem exigido uma boa dose habilidade política da dupla Lula-Alckmin.
Uma das figuras mais proeminentes nesse momento é a de Arthur Lira (PP). O atual presidente da Câmara tem dois objetivos a saber – manter-se na cadeira de presidente da casa e institucionalizar as chamadas emendas do relator ou, em português claro, o orçamento secreto – um problemão para qualquer ocupante do Executivo. Tem tido êxito nas duas aspirações.
Lira já condicionou discutir a questão do auxílio através de uma PEC, o que faz com que o governo que chega já fique dependente das casas do legislativo para ter tempo hábil para sua aprovação. Significa dizer que as posições ocupadas pelo Legislativo, ao menos nesse primeiro momento, não serão reduzidas, como pretendia Lula.
Também no que diz respeito à distribuição do poder o processo anda complicado. A equipe de transição, chefiada por Geraldo Alckmin (PSB) tenta acomodar pretensões que não podem ser – todas – atendidas. Uma equipe de transição inchada, composta por antigos aliados e por nomes e siglas que ajudaram Lula a bater Bolsonaro nas urnas agora cobra o seu espaço.
Também os partidos pertencentes ao centrão vão se acomodando à nova situação e, aos poucos, vão aderindo ao novo governo. Somente o Partido Liberal, do ainda presidente Jair Bolsonaro, tentou manter acesa a chama do golpismo e se demora na adaptação.
Os demais já precificaram a derrota do seu candidato nas urnas e decidiram, assim, seguir a vida. Nesse sentido, o Republicanos, apesar de dizer que irá seguir uma linha independente em relação ao novo governo de Lula, já disse que está disposto a dialogar e colaborar.
Também o Progressistas, de Arthur Lira não fala e nem pensa mais em Bolsonaro – está preocupado, reforça-se, exclusivamente em manter a presidência da Câmara. Aliás, o movimento de Valdemar Costa Neto, ao questionar o resultado das urnas, ajudou a afastar essas siglas do ninho bolsonarista.
Já outros importantes partidos estão neste momento, como de costume, rachados.
O MDB, por exemplo, que tem apoiadores de primeira ordem de Lula, como o senador Renan Calheiros (AL), enfrenta resistência de outros correligionários para aderir ao novo governo. Ainda assim Simone Tebet (MS) saiu maior do que entrou nas últimas eleições e deve ter uma posição privilegiada no já batizado Lula 3.
Já o União Brasil, formado pelos antigos DEM e PSL (partido que elegeu Bolsonaro em 2018) não consegue esconder sua origem difusa. Um partido que ainda não se encontrou ideologicamente fica no pêndulo entre apoiar ou fazer oposição ao novo governo.
Acontece que, apesar de o centrão estar se adaptando ao governo que se iniciará em janeiro, o bloco já conseguiu a moeda de troca que precisa para invalidar os primeiros passos de Lula.
Nesse sentido, Lula tem de admitir que o caminho não está sendo fácil para sua equipe de transição. É chegada a hora de começar a apresentar os nomes que enfim irão formar os seus ministérios. Este jogo não aceita vacilos nem omissões. O poder é um lugar que sempre estará ocupado.
