FORMAÇÃO POLÍTICA

O rei Arthur

Protagonismo do presidente da Câmara dos Deputados deixa exposta a responsabilidade do Legislativo pelo atraso do Brasil.

Lula teve de ceder para acelerar a votação da PEC da Transição.

Bolsonaro iniciou seu mandato dizendo que iria governar sem o apoio de partidos políticos. Pretendia trabalhar as bancadas que já havia elegido como prioritárias – da bíblia, da bala e do boi (bbb). Imaginou que a popularidade conquistada nas urnas garantiria-lhe força suficiente para enquadrar o parlamento. Seus primeiros sinais de pretenso ditador logo se desvaneceram.

Quando decidiu ceder para fugir às ameaças de um prematuro processo impeachment, a fatura veio alta. Não pôde oferecer resistência ao “orçamento secreto” que acabou por transformar o presidente da Câmara Arthur Lira (PP) no regente dos destinos do país. Político perspicaz, Lira não encontrou adversário quando tentou a reeleição, já em 2023.

Lula, que durante sua campanha eleitoral chegou a se referir sobre as emendas do relator como um “assalto ao dinheiro público“, logo esmoreceu nas críticas. Da cadeira que ocupa, no Planalto, sua visão ficou diferente. Agora ele as vê como uma “época pobre da política”. Promete trabalhar para recompor uma relação republicana com o Parlamento. Oxalá consiga.

Neste momento, diante das benesses concedidas pelo governo para que Lira possa agradar os novos deputados e, desde já, cooptá-los, o alagoano deu a partida à Reforma Tributária criando um grupo de trabalho com doze deputados que irão analisar as propostas já existentes.

O que o atual governo quer com isso é viabilizar sua agenda.  Além da Reforma Tributária, o governo tem a definição de um novo arcabouço fiscal que venha a substituir o atual “teto de gastos” como objetivos imediatos.

Arthur Lira tem dito que, quanto à reforma tributária, esta deve se limitar ao que ‘é possível’ no momento. Mas, quem define o que seria esse “possivel”?

O ponto positivo que emerge do protagonismo que a Câmara dos Deputados tem alcançado sobre a presidência de Lira é que a responsabilidade do Legislativo ficará exposta.

É no parlamento que reside o maior entrave para os progressos materiais que o povo brasileiro merece, mas que tanto demora. Somos um país rico de gente pobre e nosso parlamento é responsável direto por isso – sempre foi. 

Acontece que, como são muitos os deputados e senadores, a responsabilidade acaba ficando difusa. O eleitor mal se lembra em quem depositou sua confiança para representá-lo na Câmara dos Deputados em outubro passado!

No momento, Lira se sobressai. Quanto maior o poder, maior será a cobrança. O governo é composto de um todo – Executivo e Legislativo.

Até aqui, o Parlamento tem sido hábil em atribuir a responsabilidade por nossas mazelas ao ocupante do Planalto. Isso tem de mudar. O véu está caindo.

Deixe um comentário