O populismo do presidente de plantão não só atrapalha o andamento saudável da economia como expõe Ministros de Estado ao ridículo.

A chiadeira que as varejistas nacionais, especialmente as grandes do setor de confecções estão fazendo pode até ser legítima mas, ao final, o governo as abandonou.
Mais uma vez, prevaleceu a lógica do populismo. Comprar roupas da China é de fato muito barato e o povo gostou da brincadeira. Se taxar as blusinhas vai derrubar a popularidade do presidente, então que se faça vista grossa à situação. Bolsonaro usou do mesmo artifício em relação aos combustíveis.
Por aí se vê como Lula e Bolsonaro são parecidos. Se Lula se diz um democrata, é porque sabe que não tem os militares a seu lado. Bolsonaro trabalhou muito para tentar um golpe, mas o Exército, como instituição de Estado, lhe deu as costas no momento decisivo.
Já Lula não pode nem sonhar com uma aventura autoritária. Sabe que não teria o menor apoio para isso – eis o caráter de sua “alma democrata”. Prefere, com populismo barato, manter um povo empobrecido a seu lado.
Por outro lado, como pode o ministro de uma das maiores economias do mundo acusar grandes empresas do maior parceiro comercial do país de sonegar impostos por aqui e depois recuar?
Agora o mesmo ministro sinaliza com a possibilidade de se cobrar o chamado “digital tax”, isto é, um imposto digital. Numa lógica ilógica afirma que o imposto não irá atingir o consumidor final. Mesmo assim, se essa alternativa já existe e, conforme Haddad afirmou que já tem sido utilizada pelas maiores economias do mundo, por que não a apresentou antes?
Há falta de planejamento na condução da vida política do Brasil. Ela é inacreditavelmente amadora e é feita ao sabor das ocasiões.
Aliás, a questão dos impostos no Brasil é um caso sério. Sempre foi. Não é por outra razão que ela é um dos maiores entraves para o crescimento do país.
Porque não é a roupa da China que é barata. É o custo do imposto às congêneres nacionais que é muito – extremamente – alto. Quando se compara as duas situações, o que aflora é a existência de dois sistemas díspares – um nada regulado e o outro super regulado.
A empresa Shein, após o aperto que o governo brasileiro tentou lhe fazer sinaliza em investir 750 milhões de reais para produzir no país, bem como gerar 100 mil empregos por aqui. Diz isso agora. Quando colocar na ponta do lápis os custos que terá de enfrentar para atuar no Brasil, e quando a “poeira baixar”, certamente vai mudar de conversa.
O episódio das gigantes chinesas não apenas ilustra essas mazelas de nossa política mas também a falta de consciência cívica de nosso cidadão. Este também reagiu muito mal ao episódio. Ao criticar o governo a intenção de cobrar impostos das empresas chinesas que aqui atuam, demonstrou colocar seus interesses particulares acima dos coletivos. Lástima nossa.
O brasileiro deveria levar em consideração o fato de que também os direitos trabalhistas são negados a quem produz as blusinhas que andam comprando barato por aqui. Que há pouca preocupação com o meio ambiente na produção destas mercadorias e que não houve o pagamento de royalties às mentes que um dia trabalharam para a criação das peças, quando compra roupas de marca falsificadas.
Quando se coloca todos estes custos de lado, de fato, passa a ser possível vender mais barato. Acontece que, mais do que o governo, o próprio consumidor, ao ser colocado diante desta realidade deveria ter ido às redes sociais para proclamar um boicote a essas empresas. Mas o que aconteceu foi o extremo oposto!
É como se ele dissesse: eu quero comprar roupa barata, não importa as consequências.
Mas, ao fim e ao cabo, a discussão pode ser produtiva. Serve, ao menos para que nosso cidadão compreenda que, definitivamente, não existe almoço de graça. Se esta pagando barato está, ao mesmo tempo, abrindo mão de outras coisas – como de seu emprego, por exemplo.
Se o caso é comprar barato, no lugar de pedir que a situação de sonegação de impostos se mantenha em relação aos produtos chineses, as redes sociais deveriam questionar porque é tão caro produzir no país.
Se fosse assim, além de baratear os produtos nacionais a ação geraria mais oportunidades por aqui.
Afinal, a conta que não fecha é a seguinte: sim, eu pago mais barato na roupa mas até quando eu terei emprego (e consequentemente condições) para poder comprá-las?
