FORMAÇÃO POLÍTICA

Uma década depois

Por insistir em uma ideologia fora de época, Lula perde a oportunidade de fazer um governo de consenso.

Há dez anos, população se revoltou contra a Política no país.

Os historiadores hão de concordar que uma década é um tempo ainda pequeno para análises de fato fundamentadas sobre um evento histórico. Mas negligenciar análises por esse motivo também não é opção.

As manifestações populares que sacudiram o país durante o mês de junho de 2013 fazem parte de um contexto no qual novidades como o empoderamento da opinião das pessoas através do uso das redes sociais é marca cristalina. Nesse sentido, o caso brasileiro é um a mais a se juntar com a Primavera Árabe, por exemplo. As consequência é que foram diferentes.

Observando o que se seguiu àquele momento extremo, temos que, na prática, houve por aqui a queda da esquerda e o ressurgimento de uma direita envergonhada, que andava cabisbaixa com os resultados práticos dos mais de vinte anos de ditadura militar.

O Brasil é um pêndulo político. Na falta de um projeto consistente de nação, social e capital vivem às turras. É nesse ponto que nossa democracia vez por outra sucumbe às tentações autoritárias, como se precisássemos de um “messias” a nos guiar. 

Quando governos de esquerda passam a querer entregar mais direitos sociais, alguém vai ter de bancar os gastos – o capital. Este, imbuído na lógica do ganho imediato em detrimento da criação de um robusto mercado consumidor, prefere radicalizar. A esquerda também se radicaliza e finalmente é destituída do poder. Foi isso que levou João Goulart e Dilma Rousseff à queda.

O movimento pendular direita/esquerda é uma constante (ainda que um tanto anacrônica) no Brasil e os fatos de 2013 apenas inauguraram um novo momento desta triste sina – triste porque nos impede de seguir um caminho retilíneo, rumo ao futuro.

Desde a redemocratização, ganhos sociais foram paulatinamente incorporados ao cotidiano dos brasileiros. Os protestos de dez anos atrás vieram, ao fim e ao cabo, atrasar o processo, ainda que não tenha sido este, na sua origem, o seu objetivo.

Porém, desta vez a ruptura não aconteceu. Nossa democracia tem sobrevivido – esta é a novidade histórica. Nossa Constituição, de 1988, continua plena e em vigor. Nossas instituições democráticas, ainda que desmoralizadas, continuam respirando.

Nesse passo, Lula perde a oportunidade de fazer um governo de consenso para devolver paz à política brasileira – precisamos de uma trégua e alguém precisa dar este primeiro e importante passo. Ademais, esta seria seria a única maneira de Lula reescrever sua biografia, se é que foi para isso que retornou. 

Deixaria enfim o seu legado – o da garantia democrática. Se escutar um pouco mais seu vice, Geraldo Alckmin, pode encontrar o caminho.

Nossa história continua a ser escrita. Que seja com tintas moderadas.

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