Um povo digno não pode precisar de um messias, de um “pai”; um povo digno deve compreender que um governo que lhe atenda as necessidades nada mais faz do que cumprir com sua obrigação.
Desde sempre o brasileiro foi acostumado a ver na figura do político maior — seja um príncipe regente, um rei ou um presidente da república, a solução para os seus problemas. Não é — a solução dos problemas encontra-se no encaminhamento correto que o mandante dá aos recursos que todos juntos colaboram.

Getúlio Vargas, um pretenso — e efetivo — ditador, percebeu bem essa característica do brasileiro e dela fez uso ao limite. Chegou ao poder em 1930 através de um golpe de estado e lá permaneceu, com um hiato de poucos anos no qual, mesmo afastado, não deixou de ser o centro político do país, até se matar, em 1954.
Getúlio Vargas derruba a ordem.
O Brasil estava se modernizando e a visão única imposta pelas oligarquias agrárias não era mais aceita por uma população que se urbanizava e por uma sociedade que se tronava mais vibrante. Assim, novas correntes ideológicas irão surgir no decorrer desse novo período de nossa história política — mas eles serão refreados.
O embate maior se dará entre a Aliança Nacional Libertadora (ANL) — organizada em 1934 e a Ação Integralista Brasileira (AIB) — fundada em 1935. Como cada qual se colocou em um dos extremos do espectro eleitoral, a política nessa quadra de nossa história se tornou beligerante. O resultado será uma ditadura sanguinária promovida pelo ditador Getúlio Vargas.
Com o objetivo de consolidar e centralizar o poder em suas mãos, Vargas assume o comando e os destinos do país ao implantar o Estado Novo, um golpe de estado que vigorará de 1937 até 1945. Agora, os direitos políticos serão simplesmente ceifados da população. Este foi o resultado prático do embate político acima denunciado.
Consumado o Golpe de 1930, o governo de Getúlio Vargas viveu três fases, mas objetivou somente um fim — o de governar conforme seus únicos desígnios.
Após assumir o governo com o golpe, Vargas assumiu o compromisso de promover a edição de uma nova Constituição para o país. Não foi o que ele fez.
Com a demora na convocação de uma Assembleia Constituinte e vendo-se desprestigiada no plano federal, o estado de São Paulo promoverá, em 1932 a Revolução Constitucionalista, exigindo especialmente que a prometida Constituição fosse enfim confeccionada.

Apesar da derrotada pelas tropas federais, a principal reivindicação da revolução foi atendida. Desta maneira, em 1934 uma Assembleia Nacional Constituinte fez erigir uma constituição de cunho democrático e liberal. Mas essa Carta teve vida breve.
Assim, a primeira fase vai de 1930 até 1934, quando finalmente foi implementada uma nova Constituição e até esse momento o país vivia sobre a permissão da existência dos partidos polítcos.

Em 1937, Vargas vai finalmente aplicar um golpe dentro do golpe. Desta maneira, institui, por decreto, o que passou para a história com o nome de “Estado Novo”. Agora é uma ditadura que se impõe ao povo brasileiro. Partidos políticos são extintos e o que se tem, na vida política, é um deserto.
Esta situação vai perdurar até 1945 quando, pressionado por uma ampla oposição que foi aos poucos se organizando, são realizadas eleições. O militar General Dutra assume a presidência, cargo que ocupará até 1950. No fundo, isso nada mais foi do que um ajuste. Vargas voltará ao poder novamente para um novo mandato, agora conseguido nas urnas.
Portanto, politicamente analisando, durante a era Vargas o país irá ver se consolidar os primeiros partidos políticos de ideologia radical. Eles serão organizações que se empenharão em defender uma visão única de um determinado projeto de nação e que se situam nos extremos do espectro político, à esquerda ou à direita.
À esquerda, já em 1922 surge o Partido Comunista do Brasil (PCB), ligado à III Internacional Comunista. Aparece aqui a figura de Luís Carlos Prestes.
Este partido apoiou a Aliança Nacional Libertadora (ANL) na tentativa de aplicar um golpe em 1935, conhecido como Intentona Comunista e foi colocado na ilegalidade por Getúlio Vargas.
No outro extremo surge a Ação Integralista Brasileira (AIB), em 1932. Inspirada no movimento fascista italiano, de Mussolini, foi aqui liderada por Plínio Salgado. Em 1937, com o golpe do Estado Novo também foi extinto por Vargas.
Foi o acirramento de ideologias extremadas. De um lado o PCB, através da Aliança Nacional Libertadora e de outro a AIB — Ação Integralista Brasileira que produziu o fermento de que Getúlio Vargas precisava para implementar o Golpe do Estado Novo.
Ao manipular o medo da sociedade frente à instalação de um governo comunista no Brasil e se aproveitando do Integralismo, Vargas conseguiu preparar o terreno para alcançar suas maiores ambições. E a maior delas, era a de governar de maneira ditatorial.
O Plano Cohen e o Estado Novo
O discurso utilizado pelo governo Vargas era de que havia sido descoberto um arranjo para a realização de uma greve geral, saques, depredações e até a morte de autoridades. Foi esse o instrumento do qual Getúlio se valeu para convencer o Congresso a decretar o estado de guerra e assim poder implementar o Estado Novo.

Sabe-se atualmente, entretanto, que este plano foi forjado para a implementação da ditadura que se seguiu. Pode-se dizer, portanto, que o Plano Cohen nada mais era do que fake news.
Getúlio Vargas instituiu o Estado Novo através do Manifesto à Nação pelo qual pregava a necessidade de adequação do organismo político às necessidades econômicas do país, ou seja, propunha a intervenção do Estado na economia.
Mas foi além: decretou o fechamento do Congresso Nacional e outorgou uma nova Constituição — a de 1937.
Foi instituída, assim, a censura — concretizada através do Departamento de Imprensa e Propaganda — DIP.
As medidas de repressão, todavia, já vinham sendo levada a cabo desde a Intentona Comunista, em 1935. É desta época a criação do DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social), que vai ser muito utilizado mais tarde, durante a fase mais dura da ditadura civil-militar, a partir de 1964.
Os partidos políticos foram extintos e, assim, o Brasil deixará de ter vida político-partidária até 1945, ano em que surgirão diversas agremiações políticas com o restabelecimento do direito de associação.
A ideologia do Estado Novo tinha por base a supressão de práticas liberais. Logo, Getúlio Vargas encontrava as condições para implantar o projeto nacionalista que tinha para o país, interrompido pela Constituição de 1934.
Quando implantou o Estado Novo, Vargas prometeu para 1943 um plebiscito para referendar a Constituição de 1937. Porém, Vargas habilmente vai colocar o Brasil na Segunda Guerra Mundial em 1942 — motivo mais que suficiente para cancelar o pleito marcado para 1943.

Na sequência acontecerá o Manifesto dos mineiros, uma carta aberta, assinada por juristas e intelectuais de Minas Gerais na qual se clamava pelo retorno do regime democrático, enfim, pedido o fim do Estado Novo.
Estes políticos mais tarde se tornarão fundadores da União Democrática Nacional — UDN. Em 1945, quando a guerra chega ao fim, terminam também os motivos de Vargas para protelar a redemocratização do país. Getúlio perde importantes apoios políticos.
Por pressões, neste mesmo ano é promulga um Ato Adicional à Constituição prevendo eleições em noventa dias, além do restabelecimento da liberdade de associação, ou seja, o retorno dos partidos políticos.
Surge nesta seara a União Democrática Nacional (UDN), com ideais liberais, o Partido Social Democrático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), estes últimos formados por alas ligadas à Vargas.
A Ação Integralista Brasileira irá ressurgir com o nome de Partido da Representação Popular (PRP). Surgirá também o Partidos Trabalhista Nacional (PTN), além do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e do Partido Social Progressista (PSP).
A oposição aguardava as eleições, mas Getúlio Vargas ardilosamente promoveu uma mudança no calendário eleitoral trazendo o pleito nos Estados e Municípios para junto da eleição para presidente.
Também nomeou seu irmão, Benjamim Vargas como chefe da polícia no Distrito Federal. Estava caracterizado que Getúlio preparava novo golpe.
Diante disto, o General Góis e setores do exército exigem sua renúncia, que se dá em 20 de outubro de 1945. Assumirá a presidência, após eleições, o general Eurico Gaspar Dutra, do PSD.
Mas Getúlio Vargas logo voltaria ao poder.
ESPECTRO POLÍTICO-PARTIDÁRIO
ERA VARGAS
Até o Estado Novo (1930-1937)
EXTREMA ESQUERDA
Partido Comunista Brasileiro (PCB)
Aliança Nacional Libertadora (ANL)
ESQUERDA
Partido Socialista Brasileiro (PSB)
CENTRO DIREITA
Partido Libertador (PL)
EXTREMA DIREITA
Ação Integralista Brasileira (AIB)
