Arthur Lira se impõe e coloca o cargo de presidente da Câmara dos Deputados no centro do poder. Mas é preciso saber para onde ir.

A Câmara dos Deputados já teve presidentes influentes. Para ficar em alguns exemplos recentes, podemos citar Michel Temer (MDB) e Aécio Neves (PSDB). No início de seu governo, Bolsonaro foi barrado por Rodrigo Maia (atualmente no PSDB). Depois se juntou a Arthur Lira (PP) e conseguiu atravessar seu governo sem ter de enfrentar um processo de impeachment, já que motivos não faltaram.
Agora Lira empareda o governo de Lula (PT) e faz valer sua atribuição de ditar a “ordem do dia”, isto é, pautar ou não matérias de interesse do governo. Também tem em suas mãos o controle da velocidade com que pode colocar em votação a PEC que pretende limitar o poder de um Ministro do STF em condenar uma Lei à ineficácia por decisão individual. Ao afivelar as malas para Dubai, Lira detém sobre si todos os holofotes.
Ele já sinalizou que vai segurar a proposta que afeta a Corte, ao menos até o fim do recesso. Ou seja, irá cozinhar o STF. Com o discurso de que tem uma pauta carregada com votações de projetos da agenda econômica do governo — e isso é fato — manterá o suspense sobre a pressão que o legislativo faz ao judiciário.
De se lembrar de que Lira obteve o favor de Gilmar Mendes em setembro último, quando o decano anulou provas obtidas pela Polícia Federal no caso da aquisição de kits de robótica utilizando recursos públicos em seu estado, Alagoas. Vai se demorar em retribuir?
Entre 4 e 10 de dezembro estará na COP-28, em Dubai. O recesso de fim ano se inicia em 22 de dezembro.
Nos Emirados, pretende obter recursos para o país na área ambiental. Para isso, precisa destravar projetos da chamada “agenda verde”, isso antes de viajar, portanto. Acontece que outros assuntos se impõem no Congresso.
Além da Lei de Diretrizes Orçamentárias há a Reforma Tributária que aguarda a análise do que sobrou dela depois da passagem pelo Senado. Tudo isso em meio à ambição de recriar o chamado “orçamento secreto”.
Com agenda tão apertada e mantendo o controle sobre tudo e sobre todos em suas mãos, pode se tornar rapidamente no responsável pelo atraso nas pautas de interesse nacional.
Sim, o poder deslumbra. Mas é necessário saber para onde ir. Do contrário, não se vai a lugar algum — e a fatura vem.
