Movimento da indústria automobilística tradicional pretendia desestimular a produção e comercialização de carro elétrico no país.

A maneira como a indústria automobilística é tratada no Brasil denuncia o quão condescendentes nossos governos foram — e costumam ser — com este tipo de empresa.
Foi durante o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), que o Brasil optou por priorizar a construção de rodovias, deixando as ferrovias de lado.
Essa mudança teve um impacto direto na indústria automobilística. A expansão das rodovias estimulou o crescimento da produção e a venda de automóveis, consolidando as montadoras internacionais no país.
Se as consequências incluíram o desenvolvimento econômico e industrial, também provocou o aumento dos custos logísticos, a sucateação de ferrovias e os desafios ambientais que agora se impõem, devido ao aumento das emissões de gases de efeito estufa.
Numa mudança inédita de postura, a Câmara dos Deputados votou pela taxação dos automóveis, inclusive os elétricos, com o Imposto Seletivo (IS), já conhecido como “imposto do pecado”, sob o argumento de que eles agridem o meio-ambiente.
Parece um passo correto desde que se dê o passo seguinte, que seria o de se implantar um sistema ferroviário que atenda as necessidades do país. Para isso, seria necessário sobretaxar também os caminhões a diesel, inexplicadamente fora desta tabela.
Seria também um bom momento para finalmente se priorizar a implantação de transporte público de qualidade em nossas grandes cidades, desestimulando o uso de veículos particulares.
Por outro lado, ao colocar em pé de igualdade os veículos elétricos aos veículos à combustão, a Câmara deu uma resposta sagaz à indústria tradicional automobilística, que pretendia desestimular os investimentos chineses no país.
É fácil perceber o jogo: as indústrias do chamado “mundo desenvolvido” não têm o Brasil como prioridade neste momento. Primeiro têm de suprir seus próprios mercados de carros elétricos para depois, fornecer-nos a “novidade”. Por este motivo, tentaram impingir a sobretaxa apenas aos elétricos.
Mas o mundo hoje em dia é global. Com a indústria chinesa avançando no nosso mercado, disposta a oferecer o produto a preços condizentes com a realidade do consumidor brasileiro, o jeito foi apelar para os lobbies.
Se os europeus e norte-americanos pretendiam frear os chineses, a resposta do Congresso acabou por dificultar o caminho de todos. Mas como o texto-base da Reforma ainda vai para o Senado, esta estória ainda não acabou.
