FORMAÇÃO POLÍTICA, Introdução à Política

As elites contra uma Nação – Republicanismo frustrado

Muita gente trabalhou para o advento da república no Brasil. Podemos dizer, aliás, que mentes brilhantes estavam engajadas neste processo. Rui Barbosa, Aristides Lobo, Benjamin Constant, Quintino Bocaiuva, Sólon Ribeiro.

Conta-se que o Marechal Deodoro atrasou a proclamação da República para arrajar seu “bigode”.

Enquanto o Marechal Deodoro estava preocupado com o seu bigode, esses pensadores estavam urdindo o que, para eles, era o modelo ideal de governo.

Esses homens colocaram suas mais nobres intenções para o advento de um novo regime político ao país. Admiravam os Estados Unidos da América e se perguntavam o porquê de o Brasil não seguir o mesmo caminho.

Foram batidos, todavia, pela capacidade das elites agrárias em cooptar os parlamentares. A República brasileira nasceu para acomodar os interesses desta elite, que não os enxergava mais garantidos na monarquia.

Estamos falando de uma força política que dominava o parlamento e que se estruturava desde o nível do município até o nacional.

Quando a escravidão no país finalmente acabou, esta elite decidiu trocar a roupagem do regime, instituindo uma república que agora seria gerida não mais por sangue azul, mas pelo voto. Havia o pressuposto de que o voto poderia ser facilmente manejado através de troca de favores, fraudes ou, em último caso, coerção.

Para os que apoiaram a iniciativa de converter a monarquia em uma verdadeira república, nada mais frustrante.

Rui Barbosa e Benjamin Constant

Quem lê a obra “Teoria Política”, de Rui Barbosa, terá uma pequena noção do que este jurista pensava sobre o Brasil.

Rui Barbosa disputou as eleições de 1910.

Ele passou 45 anos de sua vida exercendo mandatos eletivos —  trinta e dois dos quais no Senado Federal. Mas perdeu a chance de governar o país naquela que ficou conhecida como a “campanha civilista”, para a presidência da República. Perdeu a eleição — supõe-se —  de maneira fraudulenta.

Barbosa tentou implementar uma consciência política ao povo brasileiro, mas foi vencido pelo poder do coronelismo.

Já Benjamin Constant foi um dos principais articuladores do golpe que levou à proclamação da República brasileira. Ele era um republicano convicto e desempenhou um papel ativo na derrubada da monarquia em 1889.

Foi o grande divulgador do positivismo no Brasil. Além disso, ele ficou conhecido por ser um educador preocupado, dedicando-se à Matemática e à Física.

Constant assistiu, num primeiro momento, os desígnios do positivismo serem implantados na fundação da república brasileira —  os dois primeiros presidentes foram militares e a bandeira recebeu a isncrição “Ordem e Progresso”.

Mas logo as oligarquias agrárias retomaram o poder, com a presidência de Prudente de Morais (1894-1898).

Os primeiros anos de governo republicanos foram muito tumulados, gerando instabiliades políticas que provocaram a renúncia do primeiro presidente em favor de seu vice, que enfim entregou o governo às elites agrárias.

Naquele momento, tanto os sonhos de Benjamim Constant , bem como os esforços de Rui Barbosa estavam vencidos pela força irresistível de um parlamento contrário aos bons caminhos que uma verdadeira República poderia oferecer.

O Mundo vai à Guerra

Este também foi o momento em que a África passou a ser o principal local de interesses da geopolítica das nações europeias.

O processo de independência das nações latino-americanas, acontecido no início do século XIX forçou as potências a ter de negociar com os governos que por aqui se instalaram, nem sempre confiáveis. Também a Revolução Industrial, avançando em suas fases, encontraria na África a matéria prima de que tanto necessitavam.

Conflito se alongou para além do esperado e provocou milhões de mortes

Agora, a África passará a ser o palco das disputas promovidas pelas potências europeias e o resultado será a Primeira Guerra Mundial.

Assim, a Proclamação da República no Brasil em 1889 ocorreu em um contexto mundial de transformações significativas. Era uma época de intensa mudanças políticas e sociais.

E estas disputas por influência global incluíam, inclusive, uma missão ideológica — a de levar a ideia de “civilização ocidental” para povos considerados “menos avançados”. Não podemos nos esquecer que ideais republicanos, nacionalismo, socialismo e movimentos trabalhistas ganhavam força, desafiando as estruturas monárquicas e aristocráticas tradicionais.

Tudo isso imbuído em estratégias geopolíticas. O controle de rotas marítimas e pontos estratégicos para o comércio e poderio militar ocupava as preocupações de governantes e de estrategistas militares de nações que logo entrariam em confronto.

Tudo muito distante das preocupações dos países latino-americanos no geral e do Brasil em particular.  Muitos destes países estavam passando por processos de modernização e reforma, influenciados pelas ideias liberais e republicanas, mas não ambicionavam participar desta corrida pelas riquezas da África.

De qualquer maneira, foi este o cenário global que influenciou o movimento republicano no Brasil, que buscava modernizar o país e alinhá-lo com as tendências políticas e econômicas globais da época.

A Europa já havia promovido a partilha da gente africana antes de partilhar o território africano. Não apenas Espanha e Portugal haviam levado a gente daquele continente para outros lugares.

Apenas Etiópia e Libéria permaneceram independentes na África durante o período.

Também a Inglaterra, França, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Noruega o fizeram. Até a Itália e a Alemanha, que nem em estado nacional ainda haviam se constituído, participaram ativamente do jogo.

Todas essas nações participaram, em diferentes graus e em diferentes momentos com o sistema transatlântico de escravidão que afetou milhões de africanos e suas descendências. Agora estavam imbuídas na fatia do próprio território africano.

Mas, neste momento o Brasil ainda se ocupava de extinguir a escravidão promovida por Portugal para povoar e alimentar de mão-de-obra sua então colônia na América.

Ocupávamos em como conduzir a troca da mão-de-obra escrava pela imigrante, agora oriunda da “diáspora europeia”. E nossas elites, todavia, tomaram as piores decisões.

O país da matéria prima

A república foi instituída por militares, religiosos e fazendeiros, todos descontentes com os rumos que a família imperial havia dado ao país. E, ao fim e ao cabo, foram os interesses da classe agrária que foram garantidos.

O Brasil sequer pensou em participar da busca de riquezas para além de suas fronteiras, participando da exploração à África, à Ásia ou do Pacífico, nem sonhava com isso. E neste passo agiu bem.

Todavia, internamente tomamos as piores e mais imediatistas decisões possíveis. Ao excluir o negro de qualquer possibilidade de participação na vida social de maneira colaborativa, criamos uma sociedade eminentemente desigual. Quem decidiu isso?

Resposta: nossa elite, que patrocinava nossos políticos. Estes, após derrubada a monarquia, negaram — e ainda negam —  autonomia ao nosso povo. É desta autonomia cidadã que necessitamos para construirmos uma sociedade que se sustente.

A prevalência dos interesses da classe agrária no Brasil transformou-nos em um eterno fornecedor de matérias primas para a indústria, que se desenvolvia na Europa e nos Estados Unidos e que hoje ampliou seu espaço para o Japão e, mais recentemente, China.

Nossos ciclos econômicos foram marcados por uma história de exploração de recursos naturais e dependência de mercados externos, configurando o país como um mero fornecedor de matéria-prima.

Quando o movimento republicano rompeu com a Monarquia, um dos desejos de seus legítimnos pensadores era exatamente o de tornar o Brasil uma nação forte o suficiente para competir em igualdade de condições com as potências globais.

Vivíamos o ciclo do café naquele momento. Um dos intentos principais de Rui Barbosa e de outros que o acompanharam seria a de industrializar o país. Foram batidos pelos barões do café.

O país continua agrícola e, apesar de ter desenvolvido um moderno e poderoso agronegócio, erra ao privilegiar apenas este setor. Precisamos desenvolver indústria de ponta para nos libertar da dependência dos mercados internacionais e dos diversos ciclos por que também passam as grandes economias do mundo e, assim, acabam nos arrastando.

Atualmente, país abastece industria tecnológica com Lítio.

Desde o período colonial, a economia brasileira foi moldada para atender às demandas do mercado europeu, iniciando com o ciclo do pau-brasil, seguido pelo açúcar, ouro, café, borracha e, mais recentemente, soja e minério de ferro.

Este modelo resultou em períodos de crescimento econômico significativo, mas também em crises profundas e desigualdade social persistente.

Para romper com esse ciclo vicioso, é fundamental que o Brasil invista em inovação, tecnologia e industrialização, agregando valor às suas exportações e promovendo um desenvolvimento mais sustentável e inclusivo.

A origem da palavra República vem do latim (res = coisa + publica = de todos). Os sonhos que povoaram as mentes brilhantes de homens como Rui Barbosa ainda não se concretizaram.

Nossas escolas deviam ensiar mais sobre Rui Barbosa e menos sobre Marechal Deodoro.

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