FORMAÇÃO POLÍTICA, Introdução à Política

As elites contra uma Nação – O blefe de Quadros

Aproveitando-se dos momentos de dificuldades da população, alguns políticos fazem muito mal ao país. Uns mais que outros. Entre os que se destacaram nesse feito podemos citar Jânio Quadros.  

Quadros chega à presidência de maneira meteórica.

O Brasil podia ter passado sem esse breve governo de apenas sete meses, mas que deixou consequências nefastas pelos próximos vinte e cinco anos. Sua inabilidade política acabou por conduzir o Brasil ao golpe de 1964, aliás, já urdido desde a posse de Juscelino, e mesmo antes disto. Há quem diga que ao se matar, Getúlio atrasou o golpe em dez anos.

O fato é que o blefe de Jânio Quadros nos custou caro. 

Jânio chegou como um meteoro à presidência. Cuidou-se somente de mais um dos casos clássicos do populismo barato e perigoso que incendeia a política latino-americana.

Polêmico, soube surfar na demagogia. Os articuladores políticos da época e as influências que nesse meio transitam logo enxergaram nele a figura ideal para permanecerem com a chave do verdadeiro poder nas mãos — entre elas, a UDN.  

A UDN (União Democrática Nacional) se destacou por sua oposição ferrenha a Getúlio Vargas e ao trabalhismo, representado pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Entre seus membros estavam muitos dos apoiadores do golpe de 1964, que resultou na instauração do regime militar no Brasil.  

Após o golpe, assim como outros partidos, a UDN foi dissolvida com a promulgação do Ato Institucional Número Dois (AI-2, em 1965), que extinguiu o pluripartidarismo e instituiu o bipartidarismo no país. E por isso nem o partido esperava, não havia sido este o combinado.

Jânio venceu as últimas eleições diretas para a presidência da república representando a antipolítica, isso é, apresentando-se como uma pessoa que não era um político profissional e que por isso mesmo, poderia acabar com a corrupção no governo.

Jânio condecora Che Guevara e obtém a desconfiança dos americanos.

Mas a sua gestão foi de um verdadeiro amador. Condecorar Che Guevara em Brasília e, na sequência — um mês depois — encaminhar uma carta ao Congresso renunciando à presidência, na esperança de que sua renúncia seria rejeitada, deixou claro que fez a aposta errada. 

Quadros agiu como um amador, mas sua estratégia era a de um profissional.

Antes de encaminhar a carta renúncia ao parlamento, teve o cuidado de enviar à China o então vice-presidente João Goulart, na expectativa de duas coisas:

A primeira era a de que o Congresso não iria aceitar sua renúncia porque seu vice era tido como comunista.

A segunda era a de que o fato de Jango estar na China dificultaria uma recusa à sua renúncia. Mas se enganou duplamente. 

Renúncia de Jânio: poucas palavras e graves consequências.

Jânio já havia se valido deste estratagema em duas ocasiões durante o processo de sua escolha como candidato à presidência, impondo assim suas vontades. Ameaçando renunciar à candidatura, impunha-se. Mais tarde, ele irá confessar ao neto que este foi o grande erro de sua carreira política.  

Ao encaminhar a carta de renúncia, Jânio Quadros não quis outra coisa senão enquadrar o Parlamento. Não imaginava que o Congresso iria aceitar sua vontade e entregar o poder a um esquerdista, mas foi o que de fato aconteceu. 

Ascenção e queda durante a Guerra Fria

O embate ideológico que se seguiu à Segunda Guerra Mundial ficou conhecida como Guerra Fria — uma alusão falaciosa de que nesse momento discutia-se ideologias sem que bombas fossem detonadas.  

Uma vassoura era o grande cabo eleitoral de Jânio.

Durante este período, Jânio partiu de um completo desconhecido para a presidência da República. Em 1947 assumia uma cadeira na Câmara de Vereadores de São Paulo. Em 1961 estava no recém-inaugurado Palácio do Planalto. 

Quando o Partido Comunista foi banido do país por Getúlio Vargas ele era suplente de vereador. Portanto, por um golpe de sorte chegou ao seu primeiro cargo político.  

De vereador passou a prefeito da maior cidade do país; depois, a governador do mais importante Estado da Federação e logo chegou a Brasília. Tudo muito rápido e baseado em um discurso altamente populista. 

Naquele momento, para além das questões internas, os problemas internacionais faziam muita pressão sobre o destino político de vários países ditos satélites, como era o caso do Brasil.  

Assim, ao entregar a presidência a um esquerdista do porte de João Goulart, abriu-se as portas para o golpe de Estado que os militares a tempo urdiam e que a direita enamorava. Com o apoio dos Estados Unidos que, assim, garantiam que um país como o Brasil caísse na influência da União Soviética, o golpe foi dado sem maiores resistências. 

Os militares estavam unidos às facetas mais conservadoras de nossa sociedade e aos interesses internacionais dos Estado Unidos — quem poderia contestar?

Portanto, a mesma guerra fria que promoveu a ascensão de Jânio confirmou sua queda. O banimento do Partido Comunista foi o golpe de sorte de que ele se valeu para ingressar na política e o mesmo receio ao comunismo lhe apontou o caminho do fracasso. 

Irá retornar anos mais tarde, mais uma vez como prefeito de São Paulo (1986-1989), mas agora, numa passagem apagada e nostálgica. O blefe que Quadros perpetrou em 1961 decretou, a um só tempo, o fim de sua carreira política e o início de um período sem política digna de nome no Brasil, ao menos pelos próximos vinte e cinco longos anos. 

***

Mas o que nos chama a atenção e o que se quer aqui analisar é o porquê de o brasileiro confiar em uma figura tão esdruxula para ocupar o cargo mais alto de governo do país. Quem o colocou lá?  

Antes de ser presidente, ele teve uma ascensão fulgurante na política paulista. Depois, para chegar a Brasília, Quadros contou com o apoio do que hoje poderíamos chamar de “grande capital”.  

Mas mesmo assim, o brasileiro, desconfiado, colocou no cargo da vice-presidência um esquerdista — João Goulart. De se lembrar que o sistema eleitoral de então permitia votos desvinculados para os postos de presidente e vice-presidente. 

Portanto, não se pode concluir que “o brasileiro não sabe votar“…

Mas tem um pretexto que é sempre aceito pelo brasileiro: o medo do comunismo. Não que nesse momento seu principal adversário, o Marechal Henrique Teixeira Lott (aquele mesmo, que havia garantido a posse de JK) representasse a ameaça comunista. Mas ele estava ligado às alas mais progressistas e à esquerda da época. 

Fica claro: estar à esquerda significa pensar mais no social do que no capital e isto não interessava à elite financeira do país, que sempre prefere um incentivo ao capital. Ora, como fazer o povo acompanhar esta ideia: ressuscitando o fantasma do comunismo. Com os discursos — e alguma ação — de João Goulart, isso foi tarefa fácil. 

Então as últimas eleições diretas para a presidência da república antes do Golpe de 1964 foram vencidas por um representante de uma direita comprometida com os interesses capitalistas e que ao final não seguiu a cartilha.

Ao tomar medidas que deixaram esta elite desconfiada, não teve nenhum apoio ao blefar sua renúncia. A herança de Jânio Quadros vai para além dos vinte e cinco anos de ditadura militar que o Brasil depois vivenciou.

Más escolhas trazem consequências nefastas para o país.

Ela reforçou o populismo e serviu de escola para personalidades posteriores que vieram a ocupar a presidência da república e que sempre, como Jânio, pouco deixaram de legado e muito de problemas. Tristes retratos da história política do Brasil.

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