
Alguns povos parecem condenados a viver sob um regime autoritário. São assim as culturas vinculadas ao islamismo, cujos Estados acabam por se caracterizar em uma mistura entre política e religião — são estados teocráticos e vivem sob diretrizes estritas, inclusive e especialmente as relacionadas à moral. Não se pensa em democracia ali.
Outros não se veem sobre outro regime que não seja a democracia. Nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, a democracia se consolidou após revoluções históricas que rejeitaram regimes autoritários e monarquias absolutistas, como a independência americana em 1776 e a Revolução Francesa em 1789.
Esses eventos estabeleceram a base para governos representativos que garantem direitos civis, liberdades individuais e participação popular. Após experiências traumáticas com regimes totalitários no século XX, como o fascismo e o comunismo, essas sociedades passaram a valorizar a democracia como o sistema que melhor assegura a prosperidade, a estabilidade política e a proteção das liberdades fundamentais, sem aceitar outro modelo de governo.

No entanto, existem alguns países em que nem se estabelece um regime ditatorial duradouro e, por outro lado, a democracia vai se consolidando apenas com grande dificuldade.
São povos em que parecem não confiar em sua capacidade de autoadministração e que, por isso, procuram um pai que lhes dê segurança. Assim nasceu o caudilhismo latino-americano.
No Brasil, em especial, vivemos a concepção do Sebastianismo, cujas raízes remontam à Portugal da era moderna. No ano de 1578 D. Sebastião, então rei de Portugal em um momento em que aquele país vivia sua expansão ultramarina foi morto em uma batalha no Marrocos. Ficou conhecido como o “Rei Adormecido” porque muitos portugueses aguardavam o retorno dele, fato que nunca aconteceu.
Transferindo essa ideia para sua principal colônia, por aqui sempre se espera algum ‘herói nacional’. Não é à toa que esse imaginário coletivo ajudou muito ao último pretenso autoritário por aqui se chamar Jair “Messias” Bolsonaro!
Nossa classe média, vez ou outra, embarca em aventuras propostas especialmente por uma elite que prevendo perder seus privilégios por governos de esquerda, preferem recorrer a golpes de estado. A última vez que isso aconteceu foi em 1964.
Mas, para melhor compreender o que levou o brasileiro a aceitar entregar o governo de seu país e o seu destino nas mãos de militares, é necessário recorrer ao contexto mundial daquele período.
Os Estados Unidos comandam o continente.
Durante as décadas de 1960 e 1970, os Estados Unidos desempenharam um papel significativo no apoio e influência em golpes militares que ocorreram em vários países da América Latina.
Motivados pela Guerra Fria e pelo medo de uma expansão do comunismo no Hemisfério Ocidental, os EUA, através de sua política externa, apoiaram governos militares autoritários que combatiam movimentos de esquerda.
Utilizando a Doutrina de Segurança Nacional, os EUA, muitas vezes por meio da CIA, forneceram recursos, treinamento e apoio logístico a grupos militares que derrubaram governos eleitos, como no Brasil (1964), Chile (1973), e Argentina (1976). Esses regimes militares frequentemente implementaram políticas repressivas, caracterizadas por violações de direitos humanos, censura e perseguição de opositores, com o aval implícito ou explícito de Washington, que via esses regimes como aliados na luta contra a influência soviética na região.

Preocupados com a influência soviética e cubana após a Revolução Cubana de 1959, os EUA adotaram uma estratégia de intervenção indireta para impedir que governos de esquerda ou socialistas tomassem o poder no continente. Essa intervenção era muitas vezes justificada sob a Doutrina Monroe, que estabelecia a América Latina como uma área de influência dos EUA, e pela Doutrina de Segurança Nacional, que colocava a luta contra o comunismo como prioridade.
No Brasil, por exemplo, o golpe militar de 1964 que derrubou o presidente democraticamente eleito João Goulart teve o apoio direto dos EUA. Documentos desclassificados revelam que o governo norte-americano, sob a presidência de Lyndon B. Johnson, forneceu suporte financeiro e bélico aos golpistas, incluindo o planejamento da Operação Brother Sam, que previa o envio de uma frota naval ao Brasil para apoiar as forças armadas caso houvesse resistência armada.
No Chile, o governo de Salvador Allende, que promovia políticas socialistas após sua eleição em 1970, tornou-se alvo da política externa dos EUA. A administração de Richard Nixon e o então conselheiro de segurança nacional, Henry Kissinger, temiam que o Chile tomasse Cuba por exemplo.
A CIA desempenhou um papel fundamental no financiamento de greves, na desestabilização econômica e na criação de um ambiente favorável ao golpe militar de 1973, que resultou na ascensão do general Augusto Pinochet e em um regime de brutal repressão.
Na Argentina, o golpe de 1976, que deu início à ditadura militar de Jorge Rafael Videla, contou com o apoio dos EUA, especialmente durante o governo de Gerald Ford e Jimmy Carter, mesmo com as violações de direitos humanos no país. Essa interferência seguiu o padrão de promover regimes que fossem hostis ao comunismo, independentemente dos métodos que utilizassem para manter o poder.
Em todo o continente, a influência dos EUA nesses golpes não se limitava ao apoio logístico.
O treinamento de militares latino-americanos na Escola das Américas (School of the Americas), nos Estados Unidos, foi um dos principais meios de disseminação das técnicas de repressão, tortura e contrainsurgência utilizadas por esses regimes. Essas ditaduras resultaram em décadas de repressão, censura, tortura e desaparecimento de opositores, gerando profundas cicatrizes nas sociedades latino-americanas.
A influência dos EUA sobre esses governos foi, portanto, uma tentativa de manter a hegemonia no continente e garantir que os regimes estivessem alinhados com os interesses estratégicos e econômicos norte-americanos durante a Guerra Fria.
Crescimento econômico e miséria do povo

O crescimento econômico durante o período militar no Brasil, especialmente nas décadas de 1960 e 1970, foi marcado por grandes investimentos em infraestrutura, industrialização e o chamado “milagre econômico”. Contudo, esse crescimento foi sustentado à custa de políticas de arrocho salarial, que comprimiram o poder de compra dos trabalhadores e ampliaram a desigualdade social. O governo militar, preocupado em atrair investimentos estrangeiros e estimular a produção interna, adotou medidas que favoreciam os empresários e limitavam os aumentos salariais, ao mesmo tempo que reprimia greves e movimentos sindicais. Alguns setores da economia experimentaram um boom. No entanto, o aumento da inflação e a redução do poder aquisitivo precarizaram o ambiente para os trabalhadores. Eles viam sua renda corroída enquanto a concentração de riqueza se intensificava.
Paralelamente, o regime militar empregou uma intensa repressão contra seus opositores, instaurando uma ditadura marcada por censura, tortura, desaparecimentos e execuções de quem se posicionasse contra o governo. A promulgação do AI-5 (Ato Institucional nº 5) em 1968, que deu poderes quase absolutos ao regime, abriu caminho para a perseguição sistemática de ativistas, intelectuais, artistas e qualquer um que representasse uma ameaça ao governo. A estratégia de controle social também envolveu o uso da propaganda estatal, que exaltava o crescimento econômico e promovia uma imagem de ordem e progresso, ofuscando a realidade das violações de direitos humanos.

Grande parte da população, embalada pelo discurso do crescimento e pelas promessas de modernização, não percebia, ou preferia ignorar, as atrocidades cometidas pelos militares. O governo controlava rigorosamente a mídia, censurando informações sobre prisões arbitrárias, torturas e assassinatos de opositores políticos. Esse controle, aliado ao medo da repressão e a falta de acesso a informações verídicas, criou uma espécie de “cegueira coletiva”, em que muitos acreditavam que o regime militar estava garantindo a segurança e o desenvolvimento do país. Somente anos mais tarde, com a abertura democrática e a revelação dos abusos cometidos, é que a sociedade começou a compreender a verdadeira extensão das violações ocorridas durante o período, e o custo humano desse crescimento econômico.
O choque do petróleo – mais uma vez, o mundo nos derrubou
O “Choque do Petróleo” de 1973 foi um marco que expôs a vulnerabilidade das economias em desenvolvimento, incluindo o Brasil, às forças externas. Naquele momento, o país vivia um período de aparente prosperidade, sustentado pelo crescimento econômico impulsionado pelo governo militar e pela industrialização acelerada. Contudo, o súbito aumento dos preços do petróleo, causado pelo embargo da OPEP em resposta ao apoio ocidental a Israel durante a Guerra do Yom Kippur, desestabilizou o mundo inteiro. Para o Brasil, altamente dependente da importação de petróleo, a crise foi um golpe devastador. Os custos de energia dispararam, e o milagre econômico, que até então mascarava as fragilidades estruturais da economia, começou a desmoronar.
Como em muitos momentos da história, o Brasil foi novamente afetado por fatores globais além de seu controle. O aumento exponencial dos preços do petróleo gerou inflação, aumento da dívida externa e desequilíbrios econômicos. As políticas internas, baseadas em empréstimos internacionais e arrocho salarial, se mostraram insustentáveis diante da crise energética global. O que antes parecia um caminho de crescimento contínuo transformou-se em uma armadilha econômica que revelou a dependência do país de insumos estrangeiros e de um sistema internacional instável.

O choque do petróleo também evidenciou a falta de preparo para enfrentar as crises globais.
Aquela visão otimista dos militares, que acreditavam estar construindo um país forte e autossuficiente, foi confrontada à realidade de uma economia muito sensível a variações externas. O sonho de modernização e desenvolvimento acelerado foi, mais uma vez, colocado em xeque por eventos globais que escapavam ao controle nacional, mostrando que o progresso do Brasil estava, em grande parte, à mercê dos humores do cenário internacional.
Quando as elites nacionais entregaram o controle do estado aos militares se iludiram com um atalho que, ao fim e ao cabo, se mostrou duplamente equivocado – tanto social quanto economicamente. Sem avanços sociais, retrocedemos institucionalmente como Nação.
