Uma dicotomia que não faz mais sentido
A dicotomia entre esquerda e direita tem perdido espaço na compreensão da complexidade do mundo atual. Quando discutimos essas categorias, é essencial definir os âmbitos de análise.
No campo dos costumes, a esquerda tradicionalmente defende posições progressistas, enquanto a direita se alinha ao conservadorismo. Já na economia, as posições se invertem: a esquerda tende a priorizar a intervenção estatal, enquanto a direita defende um mercado mais livre.
Esse quadro revela que o debate contemporâneo transcende a oposição simplista entre essas ideologias. Cada dimensão — costumes e economia — contém nuances que dificultam classificações rígidas, exigindo análises que considerem os contextos históricos, culturais e sociais que moldam essas correntes.

No Brasil, a história política recente ilustra bem essa complexidade. No início do século XXI, a esquerda chegou ao poder com Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto Fernando Henrique Cardoso, seu antecessor, lançou as bases para a estabilidade econômica e programas sociais. Embora Lula tenha prometido “ensinar a pescar”, sua gestão e a de sua sucessora, Dilma Rousseff, priorizaram programas assistencialistas, sem resolver problemas estruturais.
O impeachment de Dilma em 2016 trouxe Michel Temer ao poder, que promoveu reformas estruturais, como a trabalhista, mas abriu caminho para Jair Bolsonaro, cuja gestão, marcada por uma postura antissistema e antidemocrática, foi desastrosa, especialmente durante a pandemia de Covid-19. Apesar disso, Bolsonaro também usou benefícios sociais como estratégia política.
Ao retornar à presidência, Lula manteve a aposta nos programas sociais, esquecendo a promessa de capacitar a população para alcançar autonomia econômica. Esse ciclo vicioso reflete um impasse pernicioso: de um lado, um governo que busca apoio popular via benefícios sociais; de outro, elites que resistem a reformas estruturais, preferindo preservar privilégios imediatos.
As contradições na gestão dos recursos públicos também são evidentes. Políticas populistas coexistem com incentivos fiscais para grupos empresariais influentes, enquanto desigualdades na remuneração do funcionalismo público perpetuam injustiças. Resolver esses desafios exige reformas amplas, que equilibrem eficiência, justiça social e redução de privilégios desproporcionais.
As elites brasileiras — grandes empresários, líderes políticos e gestores públicos — têm papel crucial na construção de um país mais justo. Contudo, a priorização de lucros imediatos e a manutenção de desigualdades estruturais comprometem o fortalecimento de uma classe consumidora robusta, limitando o crescimento econômico sustentável.
Essa lógica é contraproducente. Um mercado interno dinâmico beneficia não apenas a sociedade, mas também os próprios grupos dominantes. Para isso, é necessária uma mudança de mentalidade, que inclua um novo pacto social comprometido com desenvolvimento sustentável e equidade.
A perpetuação da desigualdade social tem efeitos devastadores, como a violência urbana, alimentada por jovens sem oportunidades que passam a recorrer ao crime, agravando a insegurança e afastando investimentos.

Outro problema daí advindo é o que diz respeito à apatia social, já que a falta de perspectivas mina o engajamento cívico e perpetua ciclos de pobreza.
Também ocorre a fuga de talentos e capitais, já que profissionais e empresários buscam melhores condições no exterior, enfraquecendo o potencial competitivo do país.
Superar esses desafios requer políticas públicas inclusivas e comprometimento das elites com a redução das desigualdades.
A polarização entre uma esquerda teimosa e uma direita autoritária agrava problemas estruturais. A esquerda, ao insistir no assistencialismo, ignora soluções de longo prazo, como educação de qualidade e incentivo ao empreendedorismo. Já a direita, ao privilegiar interesses corporativos igualmente imediatos, dificulta a formação de uma classe consumidora forte e promove instintos antidemocráticos.
Essa polarização gera um ambiente político tóxico, inviabilizando o diálogo e perpetuando ciclos de exclusão. Governantes pressionados por bases polarizadas adotam posturas radicais, deixando problemas estruturais sem solução.
Romper com esse ciclo exige líderes políticos e eleitores dispostos a abandonar ideologias inflexíveis em favor do diálogo e de soluções coletivas. Somente assim será possível construir um Brasil mais unido, próspero e preparado para enfrentar os desafios de um mundo interconectado e multifacetado.
A guisa de Conclusão: Somos o país do imediatismo
O retrospecto da história política do país nos permite concluir que nossas elites sempre manipularam a opinião pública e derrubaram regimes democráticos quando os interesses delas não estavam atendidos. Falta-lhes um projeto para o país.

O Brasil é um país onde não se quer esperar para atingir objetivos de longo prazo. Porém, como nos lembra o economista e ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, “O longo prazo demora, mas chega”. Não damos muita atenção a esta lição.
Historicamente, a sensação que se tem é a de que nossas elites — sejam políticas, econômicas ou intelectuais, sempre se enxergaram como uma casta à parte da sociedade brasileira. Nunca estiveram dispostas a aguardar o bolo crescer para depois repartir, como dizem metaforicamente os economistas.
O primeiro e definitivo passo neste sentido foi dado ainda em Portugal pelo Marquês de Pombal que, ao expulsar os Jesuítas do Brasil acabou com todo o projeto de educação que eles aqui promoviam.
Ali se criava uma barreira, ainda intransponível daqueles que deveriam ser educados para administrar a Colônia daqueles que deveriam apenas oferecer os braços para que um Estado fosse erigido na América.
E, anos após isso, quando a corte portuguesa se viu obrigada a se transladar para o Rio de Janeiro, a preocupação do governo que aqui se instalava foi a de tornar a cidade “europeia”, mas jamais a de educar o povo que nela habitava.
O passo decisivo para se construir uma sociedade desigual foi dado, todavia, em 1850. Naquele momento o país sofria pressão da Inglaterra para colocar fim à escravidão e então leis foram criadas para garantir o privilégio de uma classe senhorial que fatalmente iria deixar de ser. É neste contexto que se criou a Lei de Terras (1850), não por acaso no mesmo ano da Lei Eusébio de Queirós. Esta lei regularizou as terras devolutas, em favor dos já favorecidos. Anos depois, veio a abolição e os negros foram simplesmente abandonados por um estado que então se preocupava em garantir o conforto financeiro dos produtores de café.
Europeus migraram para o Brasil e ocuparam os postos de trabalho que estariam melhor alocados aos ex-escravos de forma mais justa. Estes foram responsáveis por inchar os embriões de nossas metrópoles atuais.
Depois, o projeto de república que mentes com as de Rui Barbosa ou Quintino Bocaiuva ambicionava não se concretizou. A República nasceu para acomodar os interesses da elite agrária que já não enxergavam na Monarquia a preocupação suficiente com os seus problemas.
Getúlio Vargas governou quebrando um regime atrás do outro, até se firmar como ditador, defenestrado posteriormente pelo mesmo exército que o apoiou. Ficou enquanto atendeu a interesses. Quando deu um passo além, caiu. Foi ele quem criou a CLT e com seu ministro do trabalho dobrou o valor do salário mínimo em 1954, dando um passo em direção à construção de uma sociedade cuja classe média fosse de fato significativa.
Jânio Quadros surgiu posteriormente levando às últimas consequências a irresponsabilidade populista. Ficou pouco tempo no cargo. Quando ameaçou renunciar pensando ter o apoio da elite, também caiu.
Agora o mundo já vivia a Guerra Fria e o Brasil procurou apoio nos Estados Unidos para derrubar o governo social de João Goulart. Aqui nossas elites mais uma vez se iludiram com a capacidade militar em planejar o Estado, entregando competência. Houve uma hiperinflação com estagnação econômica.
Foram necessários anos até que a inflação fosse controlada, com a chegada da moeda real. De lá para cá nada temos feito além de tentar institucionalizar o país.

Nossa Constituição de 1988 deveria ser parlamentarista, mas foi presidencialista. Foi o último golpe que os militares nos aplicaram, ao menos até o momento.
E assim seguimos. Hoje diante de uma anacrônica esquerda que insiste em soluções ultrapassadas e uma perigosa direita, que pretende revisitar períodos autoritários.
É assim que seguimos. Precisamos ter foco e resiliência para evitar atalhos. Foram eles que nos levaram a maus caminhos, até hoje.
