Filme de Walter Salles denuncia os horrores da ditadura e, ao mesmo tempo, mostra um Brasil longe dos estereótipos que o próprio cinema criou.

Fernanda Torres é uma atriz incrível. Tanto é que seu sorriso largo, mesmo depois de não ter levado o Oscar para casa, manteve-se igualmente luminoso. Afinal de contas, o filme no qual ela foi estrela, ao lado de Selton Mello, venceu. Um prêmio inédito para o cinema brasileiro.
O tema abordou um problema que aflige mais da metade do mundo há tempos, e só recentemente preocupa o mundo desenvolvido – a força bruta e covarde contra a democracia. Esta entendida como liberdade existencial.
O caso do desaparecimento do engenheiro e deputado federal Rubens Paiva é um exemplo do nível de despreocupação e desprezo com a vida humana a que uma situação de desmonte institucional pode conduzir. Sabe-se que existem outros a serem investigados, casos em que aqueles que sofreram não tiveram a força da caneta de um dos filhos do desaparecido, Marcelo Rubens Paiva.
À época, sumia-se com pessoas com a certeza de que nada iria acontecer aos transgressores, nunca. Quando a ditadura caiu no Brasil foi feito um acordo para blindar assassinos e torturadores. Tancredo Neves faleceu antes da posse. José Sarney, ex-aliado do governo militar foi quem assumiu. O resto sabemos.
Diferentemente da Argentina e do Chile, onde militares foram condenados por seus atos durante o regime, por aqui vigorou o mais inescrupuloso silêncio. O tempo cuidou de dar uma vida confortável aos reformados.
Por outro lado, o filme mostrou a imagem de um Brasil onde existe uma classe média que consome cultura e vai à sorveteria com as crianças. Isso difere muito dos estereótipos de violência e sexo que estrangeiros associam a nós. Este ponto também deve ser levado em consideração.
Um filme deve ser um retrato de uma sociedade, não uma caricatura dela. Caricaturas nada mais fazem do que reforçar aquilo de que precisamos nos livrar. E bastou isso para o Oscar finalmente vir.
