Caso do juiz aposentado que se apresentava como britânico de nascimento confirma que nosso complexo de vira-latas está no andar de cima, não na base da população brasileira.

Um cidadão que aufere, de aposentadoria, mais de cinquenta mil reais por mês deveria se orgulhar do país em que nasceu. Mas não. O juiz aposentado José Eduardo Franco dos Reis (nome de batismo) em algum momento de sua vida falsificou seus documentos para passar a se chamar Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield. Tomava o clássico “chá das cinco” e fazia aula para perder o sotaque britânico.
Um caso bizarro que deveria entrar para o anedotário forense não refletisse o sentimento que muita gente bem-sucedida tem pelo país que lhe proporcionou uma excelente condição de vida.
Nelson Rodrigues cunhou nos anos 1960 o termo “complexo de vira-latas”. Aquele sentimento que nos faz sentir menor do que povos ditos superiores. O brasileiro comum, todavia, devia ser poupado disto — um ato covarde.
Estudiosos como o sociólogo Jessé Souza e o economista Eduardo Giannetti, que vêm denunciando esta atrocidade, deveriam ser mais ouvidos.
O caso escancara uma verdade incômoda: o nosso complexo de vira-lata está mais presente na elite do que entre o povo, mas quem sofre com isso é o brasileiro comum.
Importante dizer: não se trata aqui de pregar um nacionalismo cego — este, sim, perigoso e excludente. Trata-se de defender uma autonomia cultural e simbólica, uma autoestima coletiva que nos permita reconhecer nosso valor sem precisar imitá-lo em outra língua ou passaporte. Em vez de negar o Brasil, deveríamos fortalecê-lo.
O povo, sabemos, tem pouco tempo para esse tipo de fantasia. Quem despreza o que é nacional deveria, ao invés de fugir para ilusões, contribuir para a construção de um país melhor. Valorizar o Brasil passa por apoiar nossa produção cultural, investir em educação pública de qualidade, reconhecer a ciência feita aqui, consumir e respeitar o que é nosso — sem fechar os olhos para nossas falhas, mas também sem negar nossas virtudes.
Construir uma autoestima coletiva saudável exige coragem, consciência e ação. O primeiro passo é simples, mas essencial: olhar para o Brasil não com desprezo, mas com responsabilidade e compromisso.
