FORMAÇÃO POLÍTICA

A disputa do Moinho

Favela do Moinho já sofreu com grandes incêndios.

A recente iniciativa do Governo do Estado de São Paulo de remover as famílias da Favela do Moinho para edifícios revitalizados e transformar o local em um parque está no epicentro de uma disputa política que, no fundo, pouco se preocupa com a real inclusão social dos mais vulneráveis.

O governo estadual, sob a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos), argumenta que oferece alternativas como cartas de crédito e auxílio-moradia, prometendo garantir moradia digna para as famílias removidas. Porém, o Governo Federal, por meio da Secretaria de Patrimônio da União (SPU), resiste à cessão do terreno, alegando que as soluções habitacionais apresentadas não garantem condições adequadas para a população — especialmente para famílias de baixa renda, que podem ser empurradas para as periferias.

É preciso questionar até que ponto o governo estadual está verdadeiramente motivado pela preocupação social. O projeto do Parque do Moinho está ligado ao plano de transferir a sede do Governo de São Paulo para o centro da capital, desativando a Estação Júlio Prestes e promovendo ampla requalificação urbana na região central. Tal projeto pode impulsionar a valorização imobiliária, beneficiando setores econômicos, enquanto a promessa de integração social fica em segundo plano.

Por outro lado, cabe perguntar se o governo federal, em vez de buscar ajustes e soluções conjuntas, não estaria usando entraves burocráticos e exigências extras como instrumento para dificultar o êxito de um projeto estadual. Se a preocupação é social, por que não somar esforços para garantir que as famílias removidas recebam, de fato, moradias adequadas — e permaneçam incluídas na vida urbana, com acesso ao centro, empregos e serviços?

Neste caso, vê-se o melhor e o pior que a política pode oferecer. Ou a possibilidade de grandes transformações urbanas, resgate da dignidade e inclusão social; ou a reprodução de velhos conflitos, jogos de poder e uso de projetos públicos como instrumentos de barganha política e ideológica. O centro da cidade torna-se palco de um embate que, ao mesmo tempo que inspira esperança, também revela limitações e vícios do nosso sistema político.

Ao invés de cederem à lógica do antagonismo político, os governos estadual e federal deveriam buscar o diálogo e a cooperação institucional, colocando o interesse público — especialmente o das famílias que vivem há décadas em condições insalubres e de risco — acima de disputas ideológicas. A revitalização do centro de São Paulo interessa a toda a sociedade, mas só será legítima se incluir, de verdade, quem sempre esteve à margem.

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