Porque, apesar de suas imperfeições e até incoerências, a diminuição do número de partidos políticos no Brasil é importante.

O sistema partidário brasileiro, historicamente marcado pela fragmentação, tem passado por um processo de reestruturação que, embora ainda incipiente, aponta para uma maior racionalidade política. A formação de federações partidárias e a fusão entre siglas refletem não apenas exigências legais, mas também a necessidade de sobrevivência e competitividade num ambiente político mais restrito.
A recente criação da Federação entre União Brasil e PP e o anúncio do processo de fusão entre PSDB e Podemos são exemplos claros dessa tendência. Sem dúvida, a principal razão dessas movimentações é a cláusula de desempenho. Este mecanismo, previsto pela legislação eleitoral, limita o acesso ao fundo partidário e ao tempo de propaganda gratuita para os partidos que não atingem um percentual específico de votos. A cada eleição, esse critério torna-se mais exigente, forçando as legendas a repensarem sua viabilidade.
Nesse rearranjo, dois tipos de motivação emergem. A busca por clareza e coerência ideológica que facilite a compreensão do eleitor; ou meras alianças de conveniência, movidas pela necessidade de assegurar espaço de poder. A Federação União-PP se encaixa nesta segunda categoria. Trata-se de uma união pragmática de forças já bastante expressivas no Congresso, num momento em que o próprio poder do Legislativo tem colocado o Executivo como refém.
No entanto, essa federação nasce com desafios internos significativos. Ambos os partidos possuem influentes lideranças que irão se chocar, o que pode gerar tensões sobre decisões estratégicas, distribuição de recursos e candidaturas. A disputa por protagonismo pode comprometer a coesão da federação e revelar contradições em momentos decisivos.
Por outro lado, a fusão entre PSDB e Podemos sinaliza uma tentativa de resgatar relevância política diante do encolhimento eleitoral, especialmente do partido tucano. Trata-se de um esforço mais racional de recomposição partidária, que pode contribuir para a recuperação de um espaço de centro moderado no espectro político.
A redução do número de partidos efetivos impacta positivamente o sistema democrático: facilita a formação de maiorias estáveis, reduz a fragmentação legislativa e torna mais claro para o eleitor quem representa o quê. Com menos siglas, a prestação de contas torna-se mais clara, e a governabilidade tende a melhorar.
Ainda que algumas federações nasçam mais pela sobrevivência do que por afinidade programática, o movimento de consolidação partidária é positivo para o Brasil. Resta saber se as novas estruturas conseguirão se manter coesas e comprometidas com uma agenda pública que vá além dos interesses de curto prazo. Afinal, a verdadeira reforma política ainda está por ser feita — mas essas alianças já são um passo na direção a um sistema mais transparente e funcional.
