A apresentação de um mapa-múndi invertido pelo IBGE gerou polêmica, mas revela uma discussão necessária.

O mapa tradicional, com a Europa no centro e o Norte posicionado acima do Sul, não é uma verdade geográfica, mas uma construção histórica e cultural. Aprendemos desde cedo que esse é o “mapa certo”, quando, na realidade, trata-se de uma representação que reforça uma lógica de poder: o Norte como dominante, civilizado e desenvolvido, e o Sul como periferia, subalterno, fonte de recursos e mão de obra.
Tanto é assim que o termo “Sul Global” não diz respeito unicamente à geografia, mas a uma posição econômica e política no mundo. Ao apresentar um mapa onde o Brasil ocupa o centro e o Sul está na parte superior, o IBGE apenas expõe o quanto nossa visão de mundo foi moldada por séculos de colonialismo e dominação cultural.
Este, inclusive, foi o mapa que a ex-presidente Dilma Rousseff, hoje à frente do Banco dos BRICS, apresentou ao presidente da China, Xi Jinping, exatamente para simbolizar a quebra dessa visão eurocêntrica e hierarquizada do planeta.
O mais curioso é que boa parte das críticas ao mapa parte justamente de grupos que vivem bradando discursos sobre “patriotismo” e “orgulho nacional”, mas que, na prática, parecem mais desconfortáveis com qualquer tentativa de reposicionar o Brasil no centro da própria narrativa. Uma incoerência flagrante.
A reação contrária, claro, não vem do desconforto com a geografia, mas com o que ela representa: a desconstrução, ainda que simbólica, de um mundo onde uns sempre estão por cima — literalmente — e outros, por baixo. Mais do que uma polêmica sobre cartografia, é um espelho de como naturalizamos, até nas coisas mais simples, estruturas de poder que insistem em se perpetuar.
Em um mundo que passa por transformações profundas, com o fortalecimento de blocos do Sul Global, o avanço dos BRICS e uma ordem multipolar cada vez mais evidente, não faz mais sentido continuarmos presos a representações construídas no auge do colonialismo. Vale lembrar que até mesmo o Meridiano de Greenwich, hoje referência universal, foi estabelecido em 1884, durante uma conferência internacional dominada pelos interesses britânicos, quando o Império ainda ditava as regras do comércio global e da navegação.
O centro do mundo foi, literalmente, colocado onde interessava à potência da época. O planeta de hoje, no entanto, exige novas referências, novas narrativas e um olhar menos submisso a lógicas impostas há mais de um século.
O mapa, por óbvio, trata-se apenas de uma demonstração disto — não se quer mudar os livros escolares! Mas é bom ensinar às crianças que aquilo que tomamos como natural muitas vezes é apenas uma construção histórica, fruto de escolhas feitas por quem detinha o poder em determinado momento. É fundamental que elas entendam que o mundo não tem lado de cima ou de baixo, nem centro absoluto — e que representações também carregam ideologia, visão de mundo e relações de poder. Pensar criticamente sobre isso é, antes de tudo, um exercício de liberdade e autonomia intelectual.
