Valores pretendidos por estadias na COP-30 em Belém ultrapassam o razoável e demonstram que o mercado, por si só, nem sempre consegue responder às necessidades da sociedade.

A COP-30 em Belém, prevista para novembro deste ano, pode se tornar um constrangimento nacional. As tarifas de hospedagem na cidade explodiram, com preços que ultrapassam qualquer referência de razoabilidade — prática adotada tanto por redes hoteleiras locais quanto por grandes grupos internacionais. A justificativa é simples: demanda alta e liberdade de mercado. Mas é justamente esse o ponto de inflexão. A chamada “mão invisível” do mercado mostra, mais uma vez, que nem sempre responde às necessidades da sociedade com equilíbrio.
O problema era previsível. Desde que Belém foi anunciada como sede da conferência, havia tempo e instrumentos para que o poder público — seja municipal, estadual ou federal — coordenasse a preparação do evento, inclusive em relação à hospedagem. Uma alternativa seria intermediar reservas com antecedência, negociando pacotes a preços justos para serem repassados às delegações. Em vez disso, optou-se por deixar o mercado agir por conta própria. Agora, autoridades tentam remediar a situação às pressas, enquanto delegações falam em reduzir suas comitivas e até cogitam pleitear a transferência da sede do evento. O Rio de Janeiro, por exemplo, sempre é uma opção — tem bom histórico em eventos internacionais.
A disputa virou um jogo de empurra entre governo, setor hoteleiro e representantes estrangeiros. Enquanto isso, Belém se apressa em entregar o “Parque da Cidade”. Quanto ao real legado que a cidade pode receber — as obras de macrodrenagem e saneamento na periferia, essas ficam para serem concluídas “depois do evento”.
O episódio todo revela um sintoma maior: em tempos de desafios climáticos globais, o Brasil ainda se preocupa em fazer coisas para inglês ver. Porém, desta vez, decidiu cobrar caro por isso.
