FORMAÇÃO POLÍTICA

Poluição visual à vista

Antes da Lei Cidade Limpa, São Paulo era tomada por anúncios.

Pipocam aqui e ali propostas à criação de Times Squares em cidades brasileiras. São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Balneário Camboriú estão debatendo o assunto. 

Como as coisas que funcionam no Brasil são pouco valorizadas, o projeto que livrou a cidade de São Paulo da poluição visual, desde 2006, não é suficientemente defendido. 

A Times Square, em Nova York, é um exemplo emblemático de um modelo urbano voltado ao consumo e à saturação visual. Faz sentido em um país cuja cultura de mercado moldou boa parte da experiência urbana.  

Mas importar esse modelo sem reflexão crítica é ignorar que cada cidade tem sua própria identidade — e que poluição visual não é sinônimo de modernidade. A experiência paulistana com a Lei Cidade Limpa provou o contrário: menos propaganda pode significar mais qualidade de vida. Em vez de reproduzir vitrines publicitárias gigantescas, faz mais sentido continuar investindo no retrofit de prédios históricos do centro de São Paulo, valorizando uma beleza que já existe e que precisa apenas ser preservada. 

A cidade não pode servir de pano de fundo para outdoors digitais gigantescos que atendem aos interesses de poucos. A paisagem urbana pertence a todos. Poluí-la com propaganda em nome de uma suposta modernização é um retrocesso. Que se inspirem boas ideias de fora — sim —, mas com senso crítico, com adequação à nossa realidade e, sobretudo, com respeito à coletividade. 

Não há “modernidade” em encher avenidas de telas. Há alienação disfarçada de progresso. Que o Brasil saiba preservar o que conquistou e não se renda, mais uma vez, ao brilho artificial de soluções feitas para encantar a vitrine e ignorar quem caminha pela calçada. 

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