FORMAÇÃO POLÍTICA

Incentivo errado na hora errada

Transporte público pode diminuir número de carros nas ruas.

O governo federal anunciou recentemente uma nova rodada de incentivos à indústria automobilística, desta vez voltada aos chamados “carros sustentáveis”. A proposta prevê a redução da carga tributária sobre veículos menos poluentes fabricados no Brasil. Mas, na prática, trata-se apenas de mais uma forma de reduzir a carga tributária da indústria automobilística, mantendo a lógica do transporte individual.  

Essa política repete um erro histórico. Desde os anos 1950, quando o país optou pelo modal rodoviário em detrimento do ferroviário, o Brasil passou a depender do transporte sobre pneus — mais caro, mais poluente e menos eficiente. Essa escolha, na época, atendeu a interesses geopolíticos, mas nos deixou um legado de cidades congestionadas, sistemas de transporte público precários e estradas sobrecarregadas.  

Hoje, milhões de brasileiros perdem horas em congestionamentos diários, enquanto o transporte público sofre com a falta de investimentos. No Rio de Janeiro, por exemplo, a prefeitura decidiu reduzir em 20% o número de ônibus em circulação, alegando baixa ocupação fora do horário de pico. Mas o correto seria incentivar seu uso — e não punir o usuário com menos oferta.  

A pergunta que se impõe é: por que não concentrar esforços e subsídios em expandir e qualificar o transporte coletivo nas grandes cidades? Por que não criar condições para que mais pessoas usem metrô, ônibus, bicicletas ou patinetes, como já acontece em tantas capitais do mundo?  

Priorizar o transporte individual revela a falta de visão estratégica de um governo que deveria liderar uma transição urbana inteligente. É preciso repensar as prioridades. Insiste-se em um modelo ultrapassado. O futuro da mobilidade urbana deve ser coletivo, limpo e eficiente.  

Um governo só se justifica quando consegue oferecer segurança, administrar as finanças e pensar estrategicamente. Este que aí está não atende a nenhum desses requisitos. 

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