A guerra comercial e ideológica deflagrada por Trump contra o Brasil tem raízes mais profundas do que o caso Bolsonaro, que corre no Supremo.

A decisão do governo Donald Trump de sobretaxar produtos brasileiros tem sido lida, por muitos, como uma espécie de resposta aos desdobramentos jurídicos que envolvem os problemas que Jair Bolsonaro enfrenta no Supremo. Não é. A verdade é que o presidente dos EUA não age com base na lealdade a aliados, mas por cálculo estratégico, em conformidade com sua maneira peculiar de enxergar governos como fossem empresas — e a atual ofensiva contra o Brasil tem muito mais a ver com os BRICS do que com qualquer tribunal em Brasília.
Trump nunca aceitou bem o avanço das economias emergentes, sobretudo quando organizadas em blocos que desafiam a ordem global tradicional. E o Brasil, ao lado de China, Rússia e Índia, tem papel importante na articulação de uma nova multipolaridade. A presença de Lula em fóruns internacionais, a reativação da diplomacia em defesa do Sul Global incomodam profundamente a visão trumpista de mundo.
O que está em jogo, portanto, não é o ex-capitão, mas o país. O Brasil é visto como um ator geopolítico relevante que no momento, está nas mãos da “esquerda” — e, por isso, é alvo. Sobretaxar produtos brasileiros não é retaliação pessoal, é tentativa de desestabilizar um elo importante de um bloco que ameaça o domínio econômico do Ocidente.
O problema é que, internamente, seguimos tratando política externa como disputa doméstica. Enquanto alguns comemoram o revés como se fosse um castigo imposto ao país por tentar enquadrar Bolsonaro, esquecemos o essencial: quem perde é o Brasil.
De se observar que o único mérito de Lula nessa história é ter deixado seu vice, Alckmin, trabalhar. Quanto mais Lula ficar fora deste problema, melhor. Esse é o tipo de situação que pede diplomacia e política de qualidade, eo que falta ao mandatário principal, sobra ao vice.
É hora de maturidade. A resposta a Trump deve ser institucional, coordenada e estratégica — sem gritaria ideológica. Não se trata de romper com os EUA, mas de lembrar que somos uma democracia e que os poderes, portanto, não se misturam.
A guerra de Trump é contra o que o Brasil representa no cenário global, não contra quem hoje ou ontem o governou. Se não compreendermos isso, continuaremos sendo peões em tabuleiros jogados por outros.
