FORMAÇÃO POLÍTICA

No centro do redemoinho

Suposta proximidade de Modi a Trump não poupou a Índia de sobretaxas.

Originalmente, Brasil, Rússia, China e Índia formaram o dístico BRIC — um acrônimo que, mais do que uma sigla, passou a representar uma tentativa de reorganização da ordem mundial, agora multipolar. O grupo logo cresceu e firmou o objetivo de fortalecer laços entre economias emergentes e propor uma nova lógica de cooperação internacional.

A recente decisão de Donald Trump de aplicar as mesmas sobretaxas à Índia, que já havia imposto ao Brasil, lança luz sobre o que realmente está por trás de sua ofensiva comercial: Trump via atingir a China — e, por consequência, o BRICS como bloco.

O atual presidente norte-americano, assim como o establishment que o cerca, sabe que não pode isolar a China diretamente sem correr grandes riscos econômicos. Por isso, ataca suas alianças estratégicas. Ao punir o Brasil, sinalizou contra a presença de Lula no cenário global e sua aproximação com Pequim. Agora, ao mirar a Índia por manter relações comerciais com a Rússia, Trump escancara seu verdadeiro objetivo: minar o avanço do BRICS, que tem se consolidado como uma alternativa ao sistema financeiro e diplomático liderado por Washington.

Enquanto no Brasil muitos interpretaram as medidas como uma retaliação ao cerco jurídico enfrentado por Jair Bolsonaro, a sanção contra a Índia desmonta essa tese. Trump não age por lealdade a ex-presidentes ou por afinidade ideológica — age por cálculo geopolítico. Para ele, o mundo é um tabuleiro de negócios, e o BRICS representa uma ameaça comercial, diplomática e simbólica à ordem global que os EUA tentam preservar.

O Brasil precisa entender o jogo com maturidade. Não se trata de uma questão partidária ou de afinidade entre governantes, mas de posicionamento internacional. Não é a hora de comemorar “derrotas” por revanchismo político ou de minimizar os impactos econômicos das medidas adotadas por Trump. É a hora de reforçar a diplomacia, de mostrar firmeza institucional e, sobretudo, de reconhecer o papel estratégico que o Brasil ocupa no cenário global.

A resposta não virá de slogans, mas de uma política externa profissional, coordenada e autônoma. O mundo está mudando — e o BRICS é parte dessa mudança. Cabe ao Brasil decidir se quer ser protagonista ou satélite.

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