Ao pautar temas polêmicos, presidente da Câmara dá aval à demanda de deputados que estão descolados da realidade.

Brasília é uma ilha. O primeiro a sentir isso foi Jânio Quadros que, ao enviar sua carta de renúncia, esqueceu que o povo estava distante. Desde então, políticos mais hábeis compreenderam, primeiro, a distância física; depois, a ainda mais perigosa distância simbólica entre os anseios da sociedade e os interesses do Congresso. Mas, por vezes, há exageros que rompem todos os limites.
A Proposta de Emenda à Constituição que impede o Supremo Tribunal Federal de julgar deputados e senadores sem autorização das próprias Casas Legislativas é uma dessas aberrações. Trata-se de um retrocesso institucional grave, que, na prática, blindaria parlamentares contra qualquer responsabilização efetiva, mesmo diante de crimes evidentes. O nome pelo qual já circula entre os mais atentos não é à toa: PEC da bandidagem.
Mais grave ainda é ver a Câmara correr — em regime de urgência — para aprovar a anistia aos envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. Enquanto o país finalmente ensaia responsabilizar figuras públicas de alto escalão por atentarem contra a democracia, os mesmos parlamentares que deveriam proteger a ordem constitucional se movimentam para apagar da História o crime que chocou a todos, como se fosse apenas um protesto mal interpretado.
A pressa em perdoar o imperdoável escancara que há muitos cúmplices no Congresso.
Mas o povo vai reagir. Diversas entidades da sociedade civil, movimentos democráticos, juristas e organizações apartidárias já se mobilizam para protestar contra a tramitação dessa PEC e da anistia. Manifestações estão sendo organizadas, abaixo-assinados ganham força, e há articulações para pressionar parlamentares em seus estados. A resposta virá — não apenas dos tribunais, mas também das ruas.
Brasília, de fato, parece viver em outro mundo — um lugar onde as prioridades são blindar políticos e aliviar golpistas, enquanto o brasileiro comum enfrenta filas no SUS, alta de preços, desemprego e insegurança. Aliás, a ligação entre Insituições e o crime organizado estão cada vez mais claras.
Ao pautar assuntos que são uma afronta ao povo só se pode concluir que o presidente da Câmada dos Deputados Hugo Motta (Republicanos) ou vive em outra dimensão ou perdeu completamente o juízo.
