Para que se acabe com a ineficiência e com os privilégios, é urgente a reforma do sistema da administração pública do país.

O presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos) prometeu colocar em prioridade o projeto que prevê a reforma administrativa. O foco da reforma seria o de avaliar o desempenho dos servidores, disciplinar os supersalários e padronizar carreiras/salários.
O serviço público brasileiro convive com um paradoxo: há servidores que recebem salários modestos e enfrentam o julgamento negativo da população por um desempenho que, muitas vezes, não reflete falta de dedicação, mas sim as condições precárias de trabalho. São profissionais que lidam diretamente com o cidadão — em escolas, postos de saúde, repartições administrativas — e que carregam o peso de uma estrutura ineficiente e mal gerida. Sem recursos, com metas inalcançáveis e pressionados por uma burocracia lenta, acabam sendo o rosto visível das falhas do Estado, quando, na verdade, são suas maiores vítimas.
Em contrapartida, existe uma elite do funcionalismo que vive em uma realidade completamente distinta. Recebem supersalários, acumulam benefícios e, em geral, estão afastados do contato direto com a população. São servidores de altos cargos, muitas vezes com remuneração acima do teto constitucional, que desfrutam de privilégios corporativos enquanto a base do serviço público é responsabilizada pela má qualidade do atendimento.
Essa divisão cria um abismo dentro do próprio Estado: de um lado, o servidor que trabalha muito e ganha pouco; de outro, o que ganha muito e pouco entrega. A verdadeira reforma administrativa precisa enfrentar essa desigualdade interna — e não punir o servidor comum, que carrega nas costas o peso do sistema.
Por isso, é urgente que o Brasil avance com uma reforma administrativa verdadeira — uma que vá além do discurso fácil de “cortar gastos” e enfrente, de fato, as distorções internas do serviço público.
O país precisa valorizar o servidor que está na linha de frente, garantir condições adequadas de trabalho e eliminar privilégios injustificáveis que corroem a confiança da população nas instituições.
Não se trata de punir o funcionalismo, mas de reorganizá-lo, torná-lo mais justo, eficiente e conectado com as necessidades do cidadão. Adiar esse debate é perpetuar um sistema desigual e ineficiente, que penaliza quem trabalha e recompensa quem se beneficia das brechas. Cabe ao presidente da Câmara cumprir sua promessa e fazer a reforma andar.
