FORMAÇÃO POLÍTICA

Ainda há tempo

Flávio é o único nome em quem Jair Bolsonaro confia.

Embora o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), apresente desempenho superior em cenários de segundo turno, é Flávio Bolsonaro (PL) quem concentra, até aqui, as intenções de voto no campo da direita, insinuando consolidar-se como seu principal nome na disputa contra Lula (PT). 

Esse dado impõe uma reflexão incontornável. A direita precisa se organizar — e, sobretudo, se definir. A fragmentação, a hesitação ou a aposta em projetos personalistas podem resultar, mais uma vez, na entrega do governo a Lula da Silva, que, aos 80 anos, poderá comandar o país pela quarta vez. Seriam dezesseis anos de poder direto. Um ciclo longo o suficiente para que promessas se confundam com legado — ainda que este seja, em muitos aspectos, mais retórico do que estrutural. 

Lula costuma se vangloriar dos avanços sociais de seus governos. No entanto, o que se viu foi mais distribuição de benefícios do que transformação profunda. Ele não “ensinou a pescar”, conforme prometido; preferiu o mais fácil: continuou “dando o peixe”. Sim, houve algum alívio, mas não ruptura com as causas estruturais da desigualdade.

Um pensamento social legítimo defende que todos larguem da mesma linha na “corrida da vida”. Isso exigiria, desde o início, um investimento firme em uma escola pública universal, de qualidade e igual para todos. Não foi o que ocorreu. Seus ministros da Educação jamais enfrentaram esse desafio de maneira decidida. 

Um dia, quando finalmente deixar o poder, Lula não entregará um país que superou a pobreza estrutural, mas o mesmo país que encontrou ao chegar pela primeira vez — dividido sob a lógica do “nós contra eles”, que ele próprio ajudou a consolidar. 

É verdade que Michel Temer tentou, em determinado momento, articular uma direita menos radical, capaz de construir uma alternativa de centro, institucional e pragmática. A ideia é válida e o ex-presidente deveria se empenhar nela.

Tarcísio parece estar medindo os efeitos de uma investida ao cargo. Sua candidatura ao menos ofereceria uma ampliação do debate para além do Lula x Bolsonaro. O país merece mais que isso. Ainda há tempo. 

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