Crise de credibilidade corrói Judiciário, Legislativo e Executivo — e a democracia passa a depender mais da pressão popular do que da força das instituições

O que o Brasil vive já não pode ser tratado como mero conflito entre Poderes. A tensão institucional é apenas o sintoma visível de algo mais profundo: uma crise de credibilidade que avança sobre os três pilares da República e compromete a confiança pública.
Quando o Estado falha, duas distorções emergem: ou se instala um poder paralelo, onde impera a lei da covardia, ou o crime infiltra-se na própria estrutura oficial. O Brasil, hoje, convive perigosamente com ambas as realidades.
O Judiciário enfrenta desgaste crescente. Benefícios que o distanciam da realidade da maioria da população somam-se a uma politização perceptível de decisões e discursos. Quando a Justiça passa a ser vista como ator político, sua autoridade moral se fragiliza. Sem confiança, a toga perde peso.
No Legislativo, a ampliação do controle sobre o orçamento da União transformou recursos públicos em instrumento de negociação política, quando não roubalheira descarada. A distribuição pulverizada de verbas, muitas vezes sem transparência adequada ou planejamento consistente, enfraquece a responsabilidade fiscal e a coerência administrativa. O orçamento deixa de ser ferramenta estratégica e passa a ser mecanismo de sobrevivência eleitoral e enriquecimento ilícito.
Já no Executivo, a prioridade parece cada vez mais eleitoral do que administrativa. Em meio a ruídos políticos e crises periféricas, o país carece de uma agenda clara, capaz de sinalizar estabilidade e direção.
É nesse cenário que a condenação dos irmãos Brazão, apontados como mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu assessor Anderson Gomes, poderia sinalizar algum alívio ao brasileiro incrédulo. Mas o desfecho só ocorreu após anos de pressão social e intensa vigilância da imprensa. Não foi a normalidade institucional que garantiu o resultado, foi a persistência pública.
Quando a Justiça depende da indignação coletiva para cumprir seu papel, o problema não está apenas no crime investigado, mas na fragilidade do próprio sistema.
O Brasil está de pernas para o ar. Não por ausência de instituições formais, mas por erosão da confiança nelas. Democracias não colapsam apenas por rupturas abruptas; elas se desgastam lentamente quando seus pilares deixam de inspirar credibilidade.
Reconstruir essa confiança é o desafio central do país, e isso exige mais do que discursos. Exige compromisso real com responsabilidade, transparência e atenção às reais necessidades da população.
