Polarização reduziu a vida partidária à disputa entre lulistas e bolsonaristas. Os grandes temas e um caminho para o Brasil é algo deixado de lado.

É preocupante observar que o calendário eleitoral avança e que o único tema capaz de mobilizar o debate político no país continua sendo a famigerada polarização entre Lula e Bolsonaro — agora representado, em grande medida, por seu filho, Flávio, assim como em 2018 Lula esteve simbolicamente representado por Haddad.
A política brasileira parece aprisionada a essa disputa permanente. Os grandes temas nacionais como desenvolvimento econômico, reforma do Estado, produtividade, educação, segurança simplesmente desaparecem do debate público, substituídos por uma rivalidade personalista que pouco contribui para o futuro do país.
Como sair dessa bolha? Talvez pelo reconhecimento de uma verdade incômoda: tanto um quanto o outro produzem mais desgaste institucional e divisão social do que benefícios efetivos ao Brasil.
A própria dicotomia ideológica entre direita e esquerda tampouco oferece uma resposta suficiente. Em uma democracia madura, a alternância de poder é natural e desejável. Nenhuma corrente política detém, por si só, todas as respostas para um país complexo como o Brasil.
Neste momento, Lula colhe os frutos de um projeto político que há duas décadas promete transformar o país sem produzir mudanças estruturais proporcionais ao discurso. Jair Bolsonaro, por sua vez, encontra-se politicamente enfraquecido e juridicamente comprometido após os ataques à ordem democrática que o conduziu ao poder.
Seria, portanto, o momento ideal para o surgimento de uma alternativa capaz de romper esse ciclo. No entanto, ela não aparece.
Os partidos políticos — que deveriam organizar projetos nacionais — tornaram-se, em grande parte, meros balcões de negociação. Preferem acomodar-se na lógica da polarização, que lhes garante sobrevivência eleitoral, a assumir o risco de construir um novo caminho para o país.
Em 2022 ainda se vislumbrava alguma possibilidade de uma terceira via. Hoje, essa trilha parece ainda mais estreita.
Se nada mudar, o Brasil seguirá refém dessa disputa estéril.
