Quando a situação exige, políticos de bandeiras opostas se unem para o abafa.

A polarização política costuma ser apresentada como um abismo intransponível. Mas basta que uma investigação se aproxime demais do poder para que adversários históricos descubram, subitamente, pontos em comum.
A articulação para barrar a CPI do INSS é mais um desses momentos reveladores. Quando a apuração deixa de ser instrumento de ataque e passa a ser risco real, o discurso inflamado dá lugar ao cálculo.
Essa CPI já não ameaça um grupo específico. Ela pode jogar luz sobre o funcionamento de um sistema que opera nas sombras e que, quando exposto, revela o grau de deterioração das instituições. Aliada a outros episódios recentes e a movimentações ainda em curso, o cenário reforça a sensação de instabilidade institucional.
Esse é o fruto amargo do que foi plantado com o fim melancólico da Lava Jato. Estávamos no caminho. Permitimos que os poderosos manipulassem a sociedade. Abriram-se as portas para lideranças de perfil radicalizado, como Jair Bolsonaro, e acabamos presos a uma polarização que não nos permite avançar. Lula pretende um quarto mandato quando não disse a que veio no terceiro.
Não surpreende, portanto, que, quando o caso chega aos limites do tolerável, petismo e bolsonarismo se encontrem para impedir que a verdade venha à tona. Quando a verdade ameaça emergir, deixam de ser adversários e passam a ser cúmplices.
