A IDADE ADULTA DO HOMEM NA TERRA – GUERRAS EM CHEQUE E A QUESTÃO CLIMÁTICA –
A queda do Muro de Berlin, ocorrida em 1989 simbolizou o fim da Guerra Fria e assim pensou-se, precipitadamente, que o dilema entre as ideologias do capitalismo e do comunismo de estado estariam superadas.
Todavia, não foi isto o que aconteceu. Após um período de grande desenvolvimento do sistema capitalista e de expansão democrática alcançada por países até então dominados por ditaduras e autocracias, ideologias nacionalistas e governos com pretensões autoritárias voltaram a se manifestar.

Se naquele momento pensadores respeitados, como o filósofo, cientista político e economista nipo-americano Francis Fukuyama erraram ao concluir que o que se vislumbrava era o ‘fim da história’, acontecimentos dramáticos logo denunciariam que a conclusão era apressada.
Ataques terroristas passaram a assombrar o chamado mundo desenvolvido. Todos os benefícios e todo o conforto que o capitalismo pode proporcionar passaram a ser ameaçados.

A exploração que Europa e Estados Unidos fizeram – da África ao Oriente Médio apresentava sua fatura. O mundo muçulmano assistiu seus valores serem atacados pela cultura ocidental, e reagiu.
Temos hoje um mundo que pode ser dividido entre muçulmano – onde a população cresce aceleradamente e o chamado mundo ocidental que, baseado na liberdade individual pretende levar seus valores alhures – impondo-os por vezes.
Baseado nisto, pensadores passaram a indagar qual era, afinal, o papel adequado do Estado. Qual o limite deste ente frente a liberdade individual? Essa liberdade passou a ser um bem procurado por uma população que, nos períodos anteriores foi levada a guerra para defender interesses que muitas vezes não eram os seus. Jovens davam a vida nos campos de batalha defendendo, afinal de contas, o quê?
Se em momentos anteriores alguns pensadores, como Smedley Butler já haviam denunciado as motivações das guerras, outros pensadores, como Michael Walzer procuraram trazer uma visão menos romantizada e mais árida sobre o tema.

Para Walzer, guerras podem ser necessárias, especialmente quando apoiadas naquilo que já previra Agostinho de Hipona no séc. IV, ou Tomás de Aquino, no séc. XIII. Estes baluartes do pensamento canônico entenderam que a guerra se justificava quando procurava, em última instância, defender e garantir a paz. Mas até a escravidão, um dia, já foi justificada!
Partindo deste princípio, o pensador norte-americano refletiu sobre a ética e os limites do conflito, já que a capacidade destrutiva dos artefatos estavam se tornaram enormes. Em seu livro Guerras Justas e Injustas (1977) o autor defende a manutenção de uma forte base ética no momento de se recorrer ao conflito armado, mas ressalva que, como último recurso elas podem ser justificadas. A questão é – qual é a medida extrema quando o fim da civilização pode ser o resultado?
Estamos às voltas com a eterna questão das guerras como solucionadoras de problemas. Alguns países possuem armas atômicas, outros não. Quem é que dita quem as pode ter ou não? Os países que as têm fazem uso delas para criar um equilíbrio que flerta com o risco iminente de uma guerra final. E quanto aos demais? Ficam sujeitos às inferências dos que as possuem?
Visto assim, seria de se perguntar se as armas atômicas colaboram com a paz. Porque se não existisse o risco do fim da humanidade em uma guerra nuclear, guerras convencionais seriam mais comuns do que atualmente tem sido. Mas isso é só uma hipótese.
O pensador britânico Bertrand Russell (1872-1970) se debruçou sobre esse tema. Russell foi um pensador contumaz. Matemático, filósofo, ensaísta, historiador. Chegou a se caracterizar como de liberal a socialista – ao final, se colocou como pacifista. Negou, todavia, qualquer rótulo, ao menos no seu sentido profundo. Quanto às armas atômicas, chegou a defender a guerra atômica como forma de provocar a paz. Mas aqui também mudou de opinião.
Em 1955, juntamente com Albert Einstein (1879-1955) redigiu o Manifesto Russell-Einstein, no qual os dois expoentes alertavam para os perigos da proliferação de armas de destruição em massa.

Dois anos depois, em parceria com Józef Rotblat (1908-2005), filósofo britânico, fundou o movimento Pugwash – que faz referência ao nome da cidade canadense na qual foi fundada. Este movimento ainda luta contra a proliferação de armas nucleares. Em 1962, no fim de sua vida, Russell mediou o conflito dos mísseis de Cuba, evitando assim uma escalada que poderia resultar em ataque nuclear.
A filosofia atual tem se debruçado em assuntos que dizem respeito à liberdade individual e nas que se reportam ao futuro da humanidade. No fundo, esses pensamentos se complementam.
Seria a guerra um remédio ou um veneno para a humanidade? Ademais, estariam os homens obrigados a comparecer ao campo de batalha para defenderem algo pelo qual nem sabem bem o que é?
Também nesse ponto as guerras evoluíram e hoje tem necessitado menos homens do que das tecnologias, especialmente dos chamados países avançados. Mas isso não as deixa ainda mais covardes?
Afinal de contas, quem efetivamente manda no mundo e promove guerras? Para o filósofo norte-americano Noam Chomsky, na maioria dos países é uma minoria rica que controla as instituições sociais e políticas, garantindo que os seus interesses sejam garantidos. Tentativas de reformas nesse sistema levam necessariamente a golpes de estado que restaurariam o poder a esta elite. Para ter paz, os mais pobres simplesmente deveriam garantir a estabilidade dos mais ricos. Um sistema realmente perverso.

Chomsky vai além, ao apontar os países ricos como aqueles que forçam os subdesenvolvidos a se renderem diante de seus interesses, replicando internacionalmente o que se vê internamente entre as classes sociais nesses países. Para o linguista americano, apenas quando as diversidades forem respeitadas esse sistema tentará a arrefecer.
Isso se replica também em relação às questões climática. Afinal de contas, agora é o próprio destino do planeta que se encontra ameaçado.
O homem, no ímpeto de otimizar ganhos financeiros acabou por destruir grande parte da natureza. Isso já nos trouxe graves consequências e o futuro aponta para algo pior, se uma mudança radical não for feita imediatamente.
Se essa é uma questão imperiosa hoje em dia, ela foi, contudo, pensada por esses baluartes do futuro há um bom tempo.
Conforme temos observado, filósofos – em especial os filósofos da política – antecipam movimentos. No campo do meio ambiente a questão começou a ser suscitada na década de 1970 ou antes, portanto, ainda no século passado.
O professor da Universidade de Oslo, Arne Naess (1912-2009) pode ser considerado o fundador de um movimento que mais tarde se tornaria no termo fundante das preocupações climáticas, ainda que já no século XIX alguns pensadores como os ingleses John Ruskin e William Morris já debatessem sobre os efeitos da industrialização e seus impactos sobre a natureza.

Naess foi buscar sua inspiração em um livro escrito pela bióloga norte-americana Rachel Carson, intitulado Primavera Silenciosa (1962) para desenvolver seu pensamento. Ele propôs novas formas de se conceber a posição dos seres-humanos em sua relação com a Natureza. A Terra não é somente um recurso para ser usado pelos humanos, o homem deveria ter compaixão pelos não humanos. As pessoas deveriam aceitar a igualdade de direito à vida a todas as criaturas, criando sobre estas bases o conceito de Ecologia Profunda.
Sem uma mudança radical do comportamento do homem capitalista, danos irreparáveis à natureza estavam por vir. O equilíbrio da natureza estaria comprometido e a própria sobrevivência do homem como espécie neste planeta estaria em risco. Os seres humanos deveriam compreender que apenas habitam a Terra, mas não são donos dela.
Naess propôs o equilíbrio entre as necessidades humanas e o uso dos recursos naturais para a obtenção dos confortos que a vida moderna proporciona. O seu conceito de ecologia profunda foi, todavia, utilizado por grupos mais radicais que, a favor da preservação da natureza propõem inclusive sabotagens e atos violentos.

Já para o filósofo alemão Hans Jonas, o problema apareceu quando a natureza deixou de ser a fonte de riqueza para o ser humano para se tornar uma provedora de recursos, esse sim, produtores de riqueza. Perdeu-se assim a ligação direta entre a necessidade do ser humano em conservá-la. Isso se deu com o crescente capitalismo.
O entendimento que vem se sedimentando em relação às questões ambientais, que foram trazidas ao primeiro plano de qualquer discussão filosófica e política desde a realização da conferência da ONU – Rio-92 é a de que essas questões são supra estatais, ou seja, estão acima dos interesses nacionais e passam a ser de interesse internacional.

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Acontece que as próprias relações humanas ficaram muito diferentes naquilo que se pode entender como uma nova era – a pós-modernidade. O pensador polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) viu nessas novas relações algo de líquido, não mais firmemente palpável. Para ele, nesses novos tempos as relações “escorrem pelos dedos”.

O ser-humano deixou de valer pelo que é passou a valer pelo que tem. A própria relação de consumo se tornou secundária diante de uma nova dimensão do consumismo – não é mais o produto, mas a marca do produto que ele usa o que faz um homem ser visto como um sucesso ou um fracasso.
Nesta dinâmica, não importa o mal que o homem provoca na natureza para obter aquilo que fará dele o que ele pretende ser – ou se mostrar como. As relações entre os indivíduos tendem a ser menos frequentes e menos duradouras. O contato deixa de ser físico e passa a ser digital. O mundo real se confunde e se mistura com um mundo virtual.
O homem precisa rever esta situação. As coisas estão ficando fora de ordem. O homem precisa se reencontrar. Para tanto, o individualismo precisa ser revisto. O nacionalismo e o critério rígido das fronteiras e da soberania nacional também.
Duas dimensões que remontam ao que parece que não deu certo na história – a ganância, tanto individual quanto dos governos sempre conduziu à insensibilidade e à violência e o individualismo, que fecha os olhos do homem para as necessidades alheias. Ganância e individualismo, irmãs gêmeas do mal de todos os tempos.
É neste sentido que os pensadores atuais têm tentando trabalhar. Romper estas barreiras – do nacional e do individual para propor soluções que possam, a um só tempo, respeitar a soberania dos países e força-los a tomar medidas para preservação do meio ambiente, além de despertar no homem um olhar sensível para o seu diferente. O tempo é curto.
Assim, aí estão expostas as condições para que o ser-humano atinja a sua fase adulta neste planeta chamado Terra: entender que guerras são coisas do passado, olhar para o futuro com vistas à preservação do meio-ambiente e viver o presente sabendo dividir melhor e entender o diferente como uma face do seu mesmo igual.
Para isto, mais que nunca o homem precisa de mentes que antevejam e apresentem soluções. Para isto servem os filósofos.






























