Filosofia Política, FORMAÇÃO POLÍTICA

Filosofia Política – Capítulo 6

A IDADE ADULTA DO HOMEM NA TERRA – GUERRAS EM CHEQUE E A QUESTÃO CLIMÁTICA –

A queda do Muro de Berlin, ocorrida em 1989 simbolizou o fim da Guerra Fria e assim pensou-se, precipitadamente, que o dilema entre as ideologias do capitalismo e do comunismo de estado estariam superadas.

Todavia, não foi isto o que aconteceu. Após um período de grande desenvolvimento do sistema capitalista e de expansão democrática alcançada por países até então dominados por ditaduras e autocracias, ideologias nacionalistas e governos com pretensões autoritárias voltaram a se manifestar.

Francis Fukuyama errou seu diagnóstico.

Se naquele momento pensadores respeitados, como o filósofo, cientista político e economista nipo-americano Francis Fukuyama erraram ao concluir que o que se vislumbrava era o ‘fim da história’, acontecimentos dramáticos logo denunciariam que a conclusão era apressada.

Ataques terroristas passaram a assombrar o chamado mundo desenvolvido. Todos os benefícios e todo o conforto que o capitalismo pode proporcionar passaram a ser ameaçados.

Paris – alvo de ataques terroristas traumáticos.

A exploração que Europa e Estados Unidos fizeram – da África ao Oriente Médio apresentava sua fatura. O mundo muçulmano assistiu seus valores serem atacados pela cultura ocidental, e reagiu.

Temos hoje um mundo que pode ser dividido entre muçulmano – onde a população cresce aceleradamente e o chamado mundo ocidental que, baseado na liberdade individual pretende levar seus valores alhures – impondo-os por vezes.

Baseado nisto, pensadores passaram a indagar qual era, afinal, o papel adequado do Estado. Qual o limite deste ente frente a liberdade individual? Essa liberdade passou a ser um bem procurado por uma população que, nos períodos anteriores foi levada a guerra para defender interesses que muitas vezes não eram os seus. Jovens davam a vida nos campos de batalha defendendo, afinal de contas, o quê?

Se em momentos anteriores alguns pensadores, como Smedley Butler já haviam denunciado as motivações das guerras, outros pensadores, como Michael Walzer procuraram trazer uma visão menos romantizada e mais árida sobre o tema.

Walzer é autor de “Política e Paixão – Rumo a um liberalismo mais igualitário”.

Para Walzer, guerras podem ser necessárias, especialmente quando apoiadas naquilo que já previra Agostinho de Hipona no séc. IV, ou Tomás de Aquino, no séc. XIII. Estes baluartes do pensamento canônico entenderam que a guerra se justificava quando procurava, em última instância, defender e garantir a paz. Mas até a escravidão, um dia, já foi justificada!

Partindo deste princípio, o pensador norte-americano refletiu sobre a ética e os limites do conflito, já que a capacidade destrutiva dos artefatos estavam se tornaram enormes. Em seu livro Guerras Justas e Injustas (1977) o autor defende a manutenção de uma forte base ética no momento de se recorrer ao conflito armado, mas ressalva que, como último recurso elas podem ser justificadas. A questão é – qual é a medida extrema quando o fim da civilização pode ser o resultado?

Estamos às voltas com a eterna questão das guerras como solucionadoras de problemas. Alguns países possuem armas atômicas, outros não. Quem é que dita quem as pode ter ou não? Os países que as têm fazem uso delas para criar um equilíbrio que flerta com o risco iminente de uma guerra final. E quanto aos demais? Ficam sujeitos às inferências dos que as possuem?

Visto assim, seria de se perguntar se as armas atômicas colaboram com a paz. Porque se não existisse o risco do fim da humanidade em uma guerra nuclear, guerras convencionais seriam mais comuns do que atualmente tem sido. Mas isso é só uma hipótese.

O pensador britânico Bertrand Russell (1872-1970) se debruçou sobre esse tema. Russell foi um pensador contumaz. Matemático, filósofo, ensaísta, historiador. Chegou a se caracterizar como de liberal a socialista – ao  final, se colocou como pacifista. Negou, todavia, qualquer rótulo, ao menos no seu sentido profundo. Quanto às armas atômicas, chegou a defender a guerra atômica como forma de provocar a paz. Mas aqui também mudou de opinião.

Em 1955, juntamente com Albert Einstein (1879-1955) redigiu o Manifesto Russell-Einstein, no qual os dois expoentes alertavam para os perigos da proliferação de armas de destruição em massa.

Conferência do Movimento Pugwash, cujo foco é a extinção das armas nucleares.

Dois anos depois, em parceria com Józef Rotblat (1908-2005), filósofo britânico, fundou o movimento Pugwash – que faz referência ao nome da cidade canadense na qual foi fundada. Este movimento ainda luta contra a proliferação de armas nucleares. Em 1962, no fim de sua vida, Russell mediou o conflito dos mísseis de Cuba, evitando assim uma escalada que poderia resultar em ataque nuclear.

A filosofia atual tem se debruçado em assuntos que dizem respeito à liberdade individual e nas que se reportam ao futuro da humanidade. No fundo, esses pensamentos se complementam.

Seria a guerra um remédio ou um veneno para a humanidade? Ademais, estariam os homens obrigados a comparecer ao campo de batalha para defenderem algo pelo qual nem sabem bem o que é?

Também nesse ponto as guerras evoluíram e hoje tem necessitado menos homens do que das tecnologias, especialmente dos chamados países avançados. Mas isso não as deixa ainda mais covardes?

Afinal de contas, quem efetivamente manda no mundo e promove guerras? Para o filósofo norte-americano Noam Chomsky, na maioria dos países é uma minoria rica que controla as instituições sociais e políticas, garantindo que os seus interesses sejam garantidos. Tentativas de reformas nesse sistema levam necessariamente a golpes de estado que restaurariam o poder a esta elite. Para ter paz, os mais pobres simplesmente deveriam garantir a estabilidade dos mais ricos. Um sistema realmente perverso.

Chomsky enxergou na relação entre os países a mesma relação que se dá entre ricos e pobres de uma sociedade.

Chomsky vai além, ao apontar os países ricos como aqueles que forçam os subdesenvolvidos a se renderem diante de seus interesses, replicando internacionalmente o que se vê internamente entre as classes sociais nesses países. Para o linguista americano, apenas quando as diversidades forem respeitadas esse sistema tentará a arrefecer.

Isso se replica também em relação às questões climática. Afinal de contas, agora é o próprio destino do planeta que se encontra ameaçado.

O homem, no ímpeto de otimizar ganhos financeiros acabou por destruir grande parte da natureza. Isso já nos trouxe graves consequências e o futuro aponta para algo pior, se uma mudança radical não for feita imediatamente.

Se essa é uma questão imperiosa hoje em dia, ela foi, contudo, pensada por esses baluartes do futuro há um bom tempo.

Conforme temos observado, filósofos – em especial os filósofos da política – antecipam movimentos. No campo do meio ambiente a questão começou a ser suscitada na década de 1970 ou antes, portanto, ainda no século passado.

O professor da Universidade de Oslo, Arne Naess (1912-2009) pode ser considerado o fundador de um movimento que mais tarde se tornaria no termo fundante das preocupações climáticas, ainda que já no século XIX alguns pensadores como os ingleses John Ruskin e William Morris já debatessem sobre os efeitos da industrialização e seus impactos sobre a natureza.

Rachel Carson (1907-1964) e seu influente trabalho “Primavera Silenciosa”.

Naess foi buscar sua inspiração em um livro escrito pela bióloga norte-americana Rachel Carson, intitulado Primavera Silenciosa (1962) para desenvolver seu pensamento. Ele propôs novas formas de se conceber a posição dos seres-humanos em sua relação com a Natureza. A Terra não é somente um recurso para ser usado pelos humanos, o homem deveria ter compaixão pelos não humanos. As pessoas deveriam aceitar a igualdade de direito à vida a todas as criaturas, criando sobre estas bases o conceito de Ecologia Profunda.

Sem uma mudança radical do comportamento do homem capitalista, danos irreparáveis à natureza estavam por vir. O equilíbrio da natureza estaria comprometido e a própria sobrevivência do homem como espécie neste planeta estaria em risco. Os seres humanos deveriam compreender que apenas habitam a Terra, mas não são donos dela.

Naess propôs o equilíbrio entre as necessidades humanas e o uso dos recursos naturais para a obtenção dos confortos que a vida moderna proporciona. O seu conceito de ecologia profunda foi, todavia, utilizado por grupos mais radicais que, a favor da preservação da natureza propõem inclusive sabotagens e atos violentos.

Hans Jonas (1903-1993)

Já para o filósofo alemão Hans Jonas, o problema apareceu quando a natureza deixou de ser a fonte de riqueza para o ser humano para se tornar uma provedora de recursos, esse sim, produtores de riqueza. Perdeu-se assim a ligação direta entre a necessidade do ser humano em conservá-la. Isso se deu com o crescente capitalismo.

O entendimento que vem se sedimentando em relação às questões ambientais, que foram trazidas ao primeiro plano de qualquer discussão filosófica e política desde a realização da conferência da ONU – Rio-92 é a de que essas questões são supra estatais, ou seja, estão acima dos interesses nacionais e passam a ser de interesse internacional.

Conferência da ONU foi realizada no Brasil, em 1992.

* * *

Acontece que as próprias relações humanas ficaram muito diferentes naquilo que se pode entender como uma nova era – a pós-modernidade. O pensador polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) viu nessas novas relações algo de líquido, não mais firmemente palpável. Para ele, nesses novos tempos as relações “escorrem pelos dedos”.

Para Bauman, nossas relações são cada vez mais fluidas e insólitas.

O ser-humano deixou de valer pelo que é passou a valer pelo que tem. A própria relação de consumo se tornou secundária diante de uma nova dimensão do consumismo – não é mais o produto, mas a marca do produto que ele usa o que faz um homem ser visto como um sucesso ou um fracasso.

Nesta dinâmica, não importa o mal que o homem provoca na natureza para obter aquilo que fará dele o que ele pretende ser – ou se mostrar como. As relações entre os indivíduos tendem a ser menos frequentes e menos duradouras. O contato deixa de ser físico e passa a ser digital. O mundo real se confunde e se mistura com um mundo virtual.

O homem precisa rever esta situação. As coisas estão ficando fora de ordem. O homem precisa se reencontrar. Para tanto, o individualismo precisa ser revisto. O nacionalismo e o critério rígido das fronteiras e da soberania nacional também.

Duas dimensões que remontam ao que parece que não deu certo na história – a ganância, tanto individual quanto dos governos sempre conduziu à insensibilidade e à violência e o individualismo, que fecha os olhos do homem para as necessidades alheias. Ganância e individualismo, irmãs gêmeas do mal de todos os tempos.

É neste sentido que os pensadores atuais têm tentando trabalhar. Romper estas barreiras – do nacional e do individual para propor soluções que possam, a um só tempo, respeitar a soberania dos países e força-los a tomar medidas para preservação do meio ambiente, além de despertar no homem um olhar sensível para o seu diferente. O tempo é curto.

Assim, aí estão expostas as condições para que o ser-humano atinja a sua fase adulta neste planeta chamado Terra: entender que guerras são coisas do passado, olhar para o futuro com vistas à preservação do meio-ambiente e viver o presente sabendo dividir melhor e entender o diferente como uma face do seu mesmo igual.

Para isto, mais que nunca o homem precisa de mentes que antevejam e apresentem soluções. Para isto servem os filósofos.

Filosofia Política, FORMAÇÃO POLÍTICA

Filosofia Política – Capítulo 5

IDEOLOGIAS – DO ASSASSINATO DO ARQUEDUQUE ÀS BOMBAS SOBRE O JAPÃO

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1ª Guerra: Concebida para ser uma guerra de curta duração, o conflito se estendeu de 1914 até 1918.

O assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do império Austro-Húngaro é tido como o estopim da Primeira Guerra Mundial. A guerra aconteceu, todavia, devido ao rearranjo político pelo qual a Europa atravessava naquele momento.

A África estava partilhada entre as potências europeias.

A instabilidade política provocada pela erosão das antigas potências imperiais havia abalado as estruturas então vigentes. Além do mais, alguns países como a Alemanha e Itália estavam atrasados no processo do imperialismo, pelo qual porções – e riquezas – da África principalmente, estavam nas mãos das potências europeias. Estes países que se atrasaram se uniram em uma aliança e a partir daí passaram a tentar se projetar neste processo, despertando a reação dos países que já estavam estabelecidos, como França e Inglaterra – e o continente europeu se armou.

Portanto, o que causou a Primeira grande guerra – e consequentemente a Segunda, que pode ser vista como uma má resolução da Primeira – não foram as revoluções que pretendiam dar mais liberdade individual e direitos sociais ao homem, mas a resistência que uma ordem posta e vigente oferecia a esta nova configuração da sociedade.

Veja: quando o homem comum, reprimido por um governo que lhe sugava a essência da vida se rebelou contra esta ordem, utilizou-se das revoluções, na busca por dignidade. Quando essa ordem finalmente ruiu, a monarquia, tal e qual era concebida levou todo o continente europeu – e grande parte do mundo – à guerra.

Estimam-se dezessete milhões de mortos na primeira guerra mundial e outros 50 a 55 milhões na segunda guerra. A dimensão disto é a seguinte – em 1940 o Brasil tinha pouco mais de quarenta milhões de habitantes – foram mortos nas duas grandes guerras algo em torno de setenta milhões de pessoas!

Este conflito teve o poder de fazer o homem se ver de uma nova maneira – e filósofos são faróis nesse sentido.

Uma das potências imperialistas de então, a Inglaterra, se gabava em dizer que o sol nunca se punha em seu império – mas seus súditos queriam se desvincular deste privilégio. A Índia, antiga colônia inglesa, conquistou sua independência baseada nos princípios de não violência defendidos por Mahatma Gandhi (1869-1948).

Gandhi promoveu o nacionalismo anticolonial fundado na resistência não-violenta.

Ele foi um filósofo prático porque colocou em uso suas ideias, sofrendo as consequências disto. Iniciou suas experiências de usar a paz contra o poder de uma potência como a Inglaterra ainda na África do Sul, onde se formou em Direito.  Mas foi na sua terra – a Índia – o lugar em que levou às últimas consequências os seus ideais. Percebeu o poder da imprensa e passou a se utilizar do destaque que ela oferecia para tornar-se cada vez mais aguerrido na desobediência civil que, enfim, forçou os britânicos a conceder a independência à Índia, em 1947.

Mais tarde, Martin Luther King (1929-1968) irá se utilizar destes métodos para promover movimentos de resistência pacífica às leis racistas nos Estados Unidos, durante os anos 1950 e 1960. Certa vez, ele disse que “Cristo deu-nos as metas, e Mahatma Gandhi, as táticas”.

Então, após os horrores das grandes guerras, momento em que se percebe que o mundo passou a ser um lugar que é de todos e cujos fatos e ações acontecidas em determinado lugar acabam por irradiar por todo o planeta, a Filosofia inicia um movimento de pensar na paz em detrimento da guerra, e sua preocupação principal se voltou para a busca de um modelo de vida em que a exploração do homem pelo homem deixe de existir.

Roy pregou a resistência armada contra o imperialismo inglês.

Mas pensamentos são tendências, não unanimidades. Se o processo de independência da Índia teve o sempre destacado papel de Gandhi, que pregou a paz, teve também a colaboração de outros personagens que não pensavam assim. Um deles foi o pensador e ativista Manabendra Nath Roy (1817-1854) que, ao contrário do primeiro, pregava a insubordinação armada contra o poderio britânico. Legitimava o uso da força para defender as massas empobrecidas do seu país contra o despotismo dos ingleses.

No final de sua vida, M. N. Roy, em meados dos anos 1950, dedicou-se ao que ele chamou de Humanismo Radical – estava desiludido tanto com a democracia burguesa quanto com o comunismo e procurava uma via alternativa – via esta que vem sendo buscada pelos pensadores desde que o capitalismo se confrontou com o comunismo, mas que ambos, por extremismo ou exclusão do outro, não conseguem encontrar.

Isso demonstra como as filosofias do período são, por excelência, excludentes e radicais. Gandhi foi um radical contra a guerra. Roy um radical a favor da luta armada.

Os pensadores daquele momento estão quase sempre engajados nos acontecimentos políticos que chacoalharam o período. Muitos deles assumiram postos de comando em seus países e levaram à morte muita gente. Da Revolução Russa, por exemplo, temos Vladmir Lênin (1870-1824), Joseph Stalin (1878-1953), Léon Tróstki (1879-1940) que nada mais fizeram do que tentar colocar em prática um comunismo de estado, mas que fracassaram.

Antes mesmo da Primeira Guerra, Emiliano Zapatta (1879-1919), no México, tentou implantar um estado comunista e na Alemanha Rosa Luxemburgo (1871-1919) também foi a campo defender os ideais de uma sociedade mais justa e igualitária.

Zapatta e Rosa Luxemburgo morreram no mesmo ano – 1919 – imediatamente após o final da Primeira Guerra (1918). De fato, o mundo que viu terminar a Primeira guerra já se preparava para a Segunda.

Olhar a vida e as ideias destas personagens nos leva a indagar: seriam eles filósofos?

Sim, foram filósofos que além de defender ideias colocaram a vida em jogo. Causaram muitas mortes e muitos morreram por suas causas – foram filósofos radicais.

Winston Churchill (1875-1965), Primeiro-ministro britânico durante os horrores da Segunda Guerra mundial foi muita coisa – esplêndido orador, historiador, escritor e até artista. Mas não podemos dar a ele o nome de filósofo, a não ser pela frase que lhe eternizou: “A democracia é o pior dos regimes, à exceção de todos os demais”. Quis com isso afirmar que se é difícil viver em democracia – especialmente governar em um regime democrático – pior é viver em outros, como o autoritarismo ou o fascismo/nazismo, que levou o mundo à Segunda Guerra, filhos mal concebidos do nacionalismo extremado.

Uma pensadora que sofreu muito os traumas da guerra foi Hannah Arendt (1906-1975). Foi obrigada a migrar da Alemanha para os Estados Unidos por ser judia. Viu-se reduzida à condição de apátrida até conseguir a nacionalidade americana, em 1951. Foi então uma fervorosa defensora do pluralismo – é necessário incluir o “outro”.

Arendt enxergou a manipulação da realidade como um perigo real a qualquer espécie de governo.

Arendt pensou em uma democracia para além daquela pela qual Churchill deixou sua crítica-elogio. Queria uma democracia para além da representativa – uma forma de democracia direta, concebida através de conselhos.

Para combater o que ocorreu na Europa, durante a Segunda Guerra deixou o conceito do Totalitarismo – que é algo que vai para além do mero autoritarismo. O totalitarismo age na alma das pessoas, transformando-as em robôs cegos e obedientes as ordem de um líder.

Ao participar de guerras, Butler denunciou que se sentia um gangster a favor das industrias de seu país.

Mas a marca do período é em suma, a filosofia da não guerra. Smedley Butler (1881-1940) foi um general dos marines americano que escreveu sobre o seu sentimento ao participar de guerras. Devido à industrialização do mundo Butler se sentia, após anos de luta, como um gangster para o capitalismo. Para ele, a guerra só deveria ser aceita quando servisse para a autodefesa de uma nação e para a proteção dos direitos civis dos cidadãos – mas não era isso o que ele via! Pelo contrário, para ele, a guerra nada mais era do que o extremo utilizado pelo Estado para garantir os interesses que as empresas (nomeadamente as americanas, no caso) tinham no exterior.

Se Arendt resume o período ao oferecer o conceito do totalitarismo e Butler enxergava na guerra um meio de empresas atingirem seus interesses no exterior, Antonio Gramsci (1891-1937) vai fazer a ponte entre os horrores da guerra – que ele também sofreu – com a saída encontrada pelo que se pode imaginar como uma ‘elite global’ que sempre encontra um modo de continuar a manter o povo em estado de submissão – essa elite que comanda as grandes corporações.

Não perdemos o fio da meada – primeiro a revolução perpetrada pelo povo para se vir livre de uma escravidão disfarçada conseguiu derrubar o absolutismo – que nada mais era do que uma elite investindo um homem com poderes absolutos e o mantendo no poder para que atendesse suas exigências. Depois essa elite vai levar os governos parlamentares a fazer guerra se preciso for, para manter os seus interesses inalterados.

Então, quando a guerra saiu do controle desta elite e ela viu suas propriedades arrasadas e seus mercados destruídos, ela partiu para um novo e sutil modelo de dominação. Mas, existem os filósofos para denunciá-los!

E foi assim que Gramsci percebeu e criou o conceito de “hegemonia cultural”. É através desta hegemonia que a elite global mantém o controle sobre a classe trabalhadora (escrava!?) não mais através da coerção, mas através do controle ideológico – reforçando o poder dos poderosos sobre essa massa trabalhadora com o consentimento desta mesma massa trabalhadora!

Gramsci nos ensinou que a hegemonia cultural é a mais sutil forma de dominação social.

Isso se daria através da imprensa, da propaganda, do esporte, do cinema. Para se livrar disto a população deveria ser educada. Não que a arte seja ruim – aliás, ela é modo de se livrar desta hegemonia! Mas, é necessário saber escolher.

O cinema tanto pode alienar como libertar – assim também o esporte, que tanto pode prender o assalariado fanatizado por uma seleção ou por um time de futebol como pode libertar o jovem da droga através de uma sadia convicência com outros jovens.

Arendt denunciou a manipulação da história para atender a interesses imediatos e, se isso é claro e evidente em sistemas totalitários e autoritários, também pode se dar mesmo em uma democracia liberal quando visa atender aos interesses dos poderosos. Por isso Gramsci alertou para a hegemonia cultural, que prende o escravo moderno a um sistema que ele mesmo defende. Tudo isto é muito sutil.

As bombas que caíram sobre Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945 foram, para os historiadores, as últimas da Segunda Guerra Mundial e as primeiras da Guerra Fria.

O período abraçou as ideias de alguns que ainda pregavam a revolução para a destituição do poder constituído e ainda tem os resquícios da guerra como solução dos problemas, mas deixa claro que a luta armada não era mais a solução adequada.

Foi a partir daí que fóruns internacionais foram – e continuam a ser pensado como forma de segurar o ímpeto da força que por vezes o ser humano se vê tentado a utilizar.

Compreender como agem os poderosos, que se utilizam do estado para atingir seus objetivos é ponto crucial para a verdadeira libertação do homem. A filosofia denuncia e procura clarear o caminho. E, afinal, a verdadeira libertação do homem parece ser o grande objetivo da filosofia política!

Logo os pensadores perceberiam que para além da guerra – que é explícita e atenta contra a vida humana – outras questões também deveriam ser enfrentadas. O mundo atual estava em gestação – o feminismo e o direito das minorias bem como as preocupações com o meio ambiente entraram em pauta.

Falaremos também disso no próximo capítulo.

Filosofia Política, FORMAÇÃO POLÍTICA

Filosofia Política – Capítulo 4

APÓS A REVOLTA, A REVOLUÇÃO – AS MASSAS BUSCAM TER VEZ E VOZ

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Terminamos o capítulo anterior afirmando que Hegel apresentou a forma da opressão que o mais forte exerce contra o mais fraco de maneira teórica. Karl Marx quis enfrentar o problema demonstrando como o mesmo acontece na prática. Aliou-se a Friedrich Engels e juntos publicaram em 1848 o Manifesto Comunista.

Karl Marx se valeu da teoria de Hegel para propor uma abordagem prática ao problema.

Para Marx (1818-1883) somente o comunismo seria capaz de resolver um problema que estava implícito ao capitalismo – a organização do trabalho. Ao deter os meios de produção através da propriedade privada o capitalista subjuga o proletariado, que nada possui além da força de seu trabalho e da capacidade de constituir uma prole – daí o termo – que iria continuar o processo. Um fornecia os meios de produção (o capitalista) e outro os braços para o trabalho (o proletariado). Um trabalho assim era um trabalho alienado, uma atividade forçada – o trabalho se transforma em uma relação de confronto e, para Marx, a raiz deste mal era a propriedade privada.

As ideias de Marx revolucionaram o mundo. O socialismo – para ele, uma fase anterior ao comunismo – tornou-se ideologia política e foi implantado em alguns países. O mais importante exemplo é o regime soviético que aflorou após a Revolução de 1917 na Rússia. Durante a Guerra Fria, que pode-se dizer, foi uma extensão da Segunda Guerra Mundial os regimes capitalistas e socialistas confrontaram o mundo em dois grandes blocos – socialistas e capitalistas.

E seguindo a tradição do pensamento de Karl Marx toda uma teoria foi construída a partir dos princípios trazidos por ele. Assim, para além das ideias de Marx surgiu uma corrente ideológica que foi denominada de marxista.

Nem todas as propostas marxistas foram pensadas por Marx.

Desta maneira, as ideias genuinamente advindas de Marx podem ser chamadas de “pensamento marxiano”, mas, aquelas advindas de toda uma corrente ideológica que dela se formou são chamadas marxistas. Portanto, nem tudo o que é marxista necessariamente foi proposto por Marx. O marxismo é fruto do pensamento dos intérpretes de Marx.

O marxismo acabou por espraiar sua influência em diversas áreas do saber humano, oferecendo uma mensagem de transformação e libertação – nas artes, na economia e na maneira de se enxergar a história, por exemplo.

Apesar desta maneira de enxergar a vida e a sociedade não ter funcionado adequadamente na prática – haja vista o fim da União Soviética com a queda do muro de Berlim e o fracasso de outras sociedade comunistas, como Cuba – continua a existir, através do ideal comunista um movimento que pretende socializar a humanidade. Aos fracassos se atribui as ambições das pessoas que se apoderaram do poder e não a ideologia em si, que continua a embalar o ideário de muita gente bem intencionada por aí.

Sim, o que Hegel demonstrou na teoria e Marx pretendeu implementar na prática continua a ser um divisor de mentes e corações da humanidade.

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No livro “A democracia na América” Tocqueville contrapõe o Velho ao Novo mundo.

O contraponto do socialismo é o liberalismo. Na França de então, Alex de Tocqueville (1805-1859) criticava as pretensões de Marx. Argumentava que o sistema jogava contra as paixões materiais do homem, minando o princípio da propriedade privada, além de desprezar o indivíduo. Tocqueville acreditava que este tipo de Estado sufocaria a iniciativa individual através de um Estado dominador que terminaria por se tornar o “senhor de cada homem”.

Mesmo assim, em 1871 é proclamada a Comuna de Paris, fruto de um longo processo revolucionário que se desenvolvia na França desde 1848. A Comuna a primeira experiência de um governo de trabalhadores, que na visão de Marx devia ser “composta de conselheiros municipais eleitos por sufrágio universal nos diversos distritos da cidade, responsáveis e substituíveis a qualquer momento. A Comuna devia ser não um órgão parlamentar, mas uma corporação de trabalho, executiva e legislativa ao mesmo tempo”.

Quem deu as bases teóricas para o acontecimento foi Proudhon (1806-1865) com a publicação em 1840 de “O que é a propriedade“.  Outro pilar ideológico do movimento foi o  “Manifesto Comunista” de Marx e Engels. Na verdade, a tendência crescente de um avanço do socialismo na classe operária internacional já vinha sendo impulsionada desde a década de 1830. Também Mikhail Bakunin (1814-1876), um dos fundadores do sindicalismo revolucionário e severo contestador da autoridade religiosa, teve participação importante em vários levantes populares na França entre 1870 e 1871. Bakunin se jactava em afirmar que o movimento era fruto do socialismo revolucionário que acabava de promover uma primeira manifestação brilhante e prática – a Comuna de Paris.

A “Comuna de Paris” pretendeu que o povo governasse o próprio povo, sem o domínio político das ‘elites’.

Todavia, o projeto da Comuna fracassou porque foi derrotado pelo exército regular da França que num primeiro momento havia se deslocado para o interior. Também houve o apoio da Prússia, que se organizava pela unificação da Alemanha e percebia no movimento um grave perigo para o seu processo. Coincide também com o movimento de unificação da Itália. Era uma Europa em profunda mudança.

Em 1873 uma severa crise financeira assolou tanto Europa quanto os Estados Unidos, que não fazia muito tempo havia saído de uma sangrenta e traumática guerra civil (finalizada em 1865). Esta grave crise gera uma longa depressão. Em 1889 assistimos a Segunda Internacional, organização de partidos socialistas e trabalhistas fundada em Paris, dando sobrevida ao movimento das massas que reivindicavam um lugar ao sol.

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Por outro lado, o argumento dos liberais, como John Stuart Mill (1806-1873) era o de que “a individualidade é o alicerce de uma sociedade saudável” – e procurava encontrar um equilíbrio entre a liberdade do indivíduo e o controle social. Para Mill, o instituto das eleições regulares teria o poder de alinhar o interesse das massas com os do Estado. Mas havia certamente um problema já detectado por Tocqueville – a tirania das maiorias. Tão danosa quanto o governo de um tirano poderia a opinião pública majoritária se tornar porque as opiniões do povo estavam arraigadas no próprio interesse e preferências pessoais, sem conseguir alcançar o bem da coletividade – além de poder ser manipulada! Então Mill trabalhou por encontrar um equilíbrio entre a autonomia individual e a interferência do Estado. O Estado só poderia intervir na liberdade do indivíduo quando esta mesma liberdade causasse danos aos demais. Sendo assim, enquanto no campo das ideias, nenhuma forma de pensamento devia ser oprimida, pois, ao oprimi-la, poderia estar tolhendo a sociedade de novas maneiras de se desenvolver. Isto é, as minorias também deveriam ter a oportunidade de se manifestar.

Stuart Mill escreveu “Sobre a Liberdade” no qual pensou no equilíbrio entre a liberdade individual e o controle social.

Mill escreveu sua principal obra “Sobre a Liberdade”, baseado no contexto do sistema filosófico do utilitarismo, para o qual as ações deveriam ser julgadas de acordo com o alcance da contribuição para a soma total da felicidade humana. Vejam, uma ação livre e individual, mas que deveria estar em consonância com a felicidade geral de todos.

O pensamento de Mill deu base ao desenvolvimento das democracias liberais ao redor do mundo. Assim, nas democracias liberais modernas, o princípio da liberdade individual e as considerações acerca do utilitarismo que ele defendia e que foram propostas antes por Jeremy Bentham formam o sustentáculo das discussões sobre os debates acerca de comportamento social, tais como o homossexualismo, o tema do aborto e mesmo o comportamento do governo em relação à economia.

Já Friedrich Nietzsche (1844-1900) enxergava no utilitarismo a expressão corrompida do pensamento da burguesia inglesa, que, para o pensador, era feliz, mas totalmente ignorante. Nietzsche não se debruçou muito na questão do Estado e de seu poder sobre o indivíduo. Preocupou-se mais com o sentido de se pertencer a ela – e a esquemas religiosos – falou de “vontade de poder”. Para o filósofo prussiano, a vontade de poder é maior do que a própria vontade de viver – uma luta sem fim pelos objetivos e as conquistas mais elevadas da vida. Ele não escreveu sobre movimentos nem organizações, seu foco sempre foi o indivíduo, porém seus escritos influenciaram pensadores políticos – de direita e de esquerda.

Nietzsche não tinha a política em si como sua principal preocupação, mas o que disse foi essencial.

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Max Weber entrega seu “A ética protestante e o espírito do capitalismo” em 1905, mesmo ano em que uma ameaça de revolução é extinta na Rússia, revolta esta que seria o embrião da Revolução de 1917. Weber se baseou em uma ciência que surgia, a sociologia, para expor uma nova maneira de explicar a sociedade. A sociedade deveria ser compreendida a partir de sua base – os indivíduos. O comportamento dos indivíduos seria definido em conformidade com sua visão de mundo – um entendimento coletivo. Sistemas religiosos e políticos conduziam a esse entendimento. Na obra de 1905 ele propôs que o espírito do protestantismo individualista conduziria a sociedade a desenvolver uma sociedade de mercado. Aliás, está aqui o cerne de um entendimento que reza que os Estados Unidos se desenvolveram porque a religião protestante induziu aquele povo a trabalhar e a evitar o consumo, gerando poupança e fomentando o capitalismo enquanto a América Latina católica não desenvolveu o mesmo entendimento. O católico estaria mais afeto a uma vida de privações e sacrifício, aguardando a recompensa no além. Bem, quando se fala em consumo excessivo que povo vem à mente – o norte americano não é?

Weber é tido como um dos pais da moderna Sociologia.

Cuida-se, na verdade, do embate de forças que historicamente se enfrentam tentando conduzir finalmente à liberdade do homem. Este movimento de liberdade é sempre refreado por aqueles que pretendem manter as coisas como estão porque sua posição é privilegiada. O próximo salto civilizatório da humanidade se dará quando as ideologias, agora claras e bem definidas passam ao centro do debate. O período vai até o final da Segunda Guerra, mas será ao final dela, que as duas ideologias principais – capitalismo e socialismo – irão se acomodar em dois grandes blocos, dando início a um período de disputas ideológicas, onde pensadores seriam fundamentais para esclarecer o momento.

É o que veremos no próximo capítulo.

Filosofia Política, FORMAÇÃO POLÍTICA

Filosofia Política – Capítulo 3

APÓS A OPRESSÃO, A REVOLTA E A BUSCA PELA AUTODETERMINAÇÃO DOS POVOS

Já vimos como pensadores ajudaram o homem a se livrar das amarras que tanto a política como a religião lhe impunham. Esta liberdade continua a ser buscada. Se o Estado é importante para organizar a sociedade e a religião é fundamental para promover o encontro entre o humano e o divino que existe em cada um de nós, as instituições que lhes representam não podem se utilizar desta prerrogativa para fazer do homem um escravo – pensadores enxergam isso claramente e através de seus escritos procuram denunciar esta situação.

Interessante perceber esta característica humana: quanto mais poder se tem mais se quer ter. Mas, em contrapartida, quando o homem se vê oprimido, procura se livrar das amarras que o prendem. Por vezes é difícil perceber a sutileza da prisão, mas para isto existem os filósofos para denunciá-las. (neste sentido, profetas?)

Filósofos percebem movimentos de antemão e
passam a fornecer a base de um novo pensamento.

Sendo assim, parece natural que, após tanta opressão, surja a revolta. E foi o que aconteceu. Chegara ao homem, conduzido pelo pensamento filosófico, o momento de se rebelar.

Neste estágio da evolução social humana, o domínio das metrópoles coloniais europeias sobre as colônias – especialmente da América, era uma característica marcante. Mas também na Europa – centro da civilização e modelo de Estado – as brutais diferenças entre as classes sociais geravam muito questionamentos. A proposta Iluminista de racionalizar a estrutura social não dera os efeitos desejados. Então, outros pensadores passaram a atuar no sentido de questionar aquela situação. São pensadores que, a despeito de não deixar de serem Iluministas, passaram a mudar o foco das preocupações.

Rousseau é tido como um pensador que inspirou os revolucionários franceses

Rousseau (1712-1778) já havia denunciado o mal que a propriedade privada poderia causar. Para ele, era a propriedade privada que dava origem às disputas entre os homens e esse era o principal motivo pelo qual a desigualdade que grassava, por exemplo, na França pré-revolucionária. Segundo Rousseau o contrato social imaginado por Hobbes no seu livro “O Leviatã”, de 1651 seria uma armadilha que os ricos armaram contra os pobres.   Rousseau dizia que as leis deveriam corrigir distorções, e não fomentá-las. Por isso, ele é tido como um dos influenciadores ideológicos da Revolução Francesa.

Mas o resultado prático de tudo isso veio primeiramente na América – afinal de contas, era lá o “Novo Mundo” e depois, violentamente, na França. A Revolução Americana de 1776 e a Revolução Francesa, iniciada em 1789 – uma combatendo o poder colonial e a outra o absolutismo – ambas apontando para o republicanismo iriam mudar a cara do mundo.

Thomas Paine criticava o caráter hereditário das monarquias

Thomas Paine (1737-1809) foi um pensador inglês que, migrado para os Estados Unidos, colaborou com a independência daquele país porque entendia que a monarquia – especialmente por causa de seu caráter hereditário – jamais seria capaz de dar ao povo da América uma vida digna e livre. Paine ajudou os americanos a se financiarem junto à França para promoverem a guerra da independência contra a sua própria nação, a Inglaterra. Este pensador se preocupava com o direito ao voto – este deveria ser universal (apesar de apenas masculino – lembre-se de que estamos no século XVIII) e não vinculado à propriedade.

Thomas Jefferson (1742-1826) foi um dos fundadores dos Estados Unidos e seu terceiro presidente. Fez incluir na Constituição daquele país a preocupação com a vida, com a liberdade e com a busca da felicidade para todos – em resumo – preocupação com uma vida digna.

É o povo carregando a nobreza
nas costas!

Já a Europa vai enfrentar a Revolução Francesa e é bom destacar que um dos gatilhos desta enorme revolta popular foi exatamente o fato de a França ter financiado a guerra dos Estados Unidos contra a Inglaterra – sua antiga rival europeia. Ora, com o povo passando por sérias dificuldades, inclusive alimentar, e com uma corte perdulária, o sacrifício pela ajuda à antiga colônia inglesa foi suportado pelos pobres e miseráveis que passava por insuportáveis dificuldades naquela França quase bárbara.

Burke ressaltou o reformismo ante a revolução.

Porém, as atrocidades que a Revolução Francesa criou fizeram com que Edmund Burke (1729-1797) passasse a denunciar a violência. Para Burke, o governo era como um ser vivo que podia ir mudando seu modo de ver e de trabalhar, mas que não podia ser “morto” para depois tornar a viver de outra forma. Portanto, uma revolução que se dispusesse a matar o estado para depois constituir outro em seu lugar não poderia funcionar. As partes do mesmo iriam se digladiar de tal maneira que o resultado não seria mais o mesmo Estado inicial, mas outro completamente esfacelado até porque dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço. Ideia que ia diametralmente oposto à de Rousseau. Enquanto Rousseau pensava ser possível reconstruir a sociedade, para Burke isto era impossível. Burke enxergava na propriedade privada e na sua transmissibilidade hereditária exatamente o que conferia estabilidade à sociedade. Ou seja, o que para Rousseau era o problema maior para Burke era a solução definitiva.

Mas as agitações na sociedade francesa agitavam também a mente de outro pesador de peso –  um germânico que jamais deixou as proximidades de onde nasceu – Immanuel Kant (1724-1804). Ele propôs que os julgamentos, tanto os morais como os políticos deveriam ser regidos pela razão – e não pela emoção que dilacerava a França.

para Kant, a emoção muitas vezes é inimiga da razão

Porque, sendo a felicidade percebida pelas pessoas de maneira diferente, ela não deveria ser o critério para um governo tomar suas decisões – o Estado deveria concentrar seus esforços para oferecer uma Constituição forte, onde o papel do mesmo restaria claramente resumido. Em suma: o Estado deveria ser o garantidor das liberdades e, de posse desta liberdade, as pessoas poderiam perseguir a sua própria felicidade.

Kant disse também que o governante precisava de legitimidade para governar. Ora, se é assim, como justificar o governo que as metrópoles coloniais exerciam sobre as colônias? Desta maneira, o pensador acusava as metrópoles de exercerem um governo ilegítimo nas colônias!

Portanto, foi a Revolução Americana e a Revolução Francesa que forneceram as bases para a autodeterminação dos povos. O produto acabado da Revolução Francesa foi Napoleão Bonaparte. O da Revolução Americana foi a Constituição Republicana. Ambos ajudaram as colônias da América a promover o processo de independência diante das metrópoles europeias.

Bonaparte, sem prever forçou a vinda da corte portuguesa para o Brasil dando início ao processo de emancipação do gigante americano em relação ao pequeno Portugal. O mesmo Bonaparte, ao usurpar o trono espanhol em favor de seu irmão José, deixou as elites coloniais espanholas livres para promoverem as suas respectivas independências. Elas se organizaram em tantos países quanto foi de interesse destas elites crioulas.

doutrina Monroe: autodeteminação dos povos americanos ou imperialismo norte-americano?

A revolução Americana ia mostrando o caminho republicano a seguir – salvo o Brasil que se tornou uma monarquia exatamente porque a corte aqui se instalou e o México, por curto período (entre 1822 e 1823 e com nova tentativa entre 1864 e 1867), as demais nações que surgiram neste contexto optaram pelo modelo republicano, seguindo o exemplo dos Estados Unidos que já se sentia forte o suficiente para, em 1823 dizer aos europeus que não aceitaria qualquer tentativa de retomada das antigas colônias – “a América para os americanos”, nos dizeres de James Monroe, presidente americano. O problema é que esta mesma frase é a origem daquilo que mais tarde ficaria externado como o Imperialismo norte-americano sobre a América Latina – uma questão de interpretação.

Napoleão também fez dissolver o Sacro Império Romano em 1806 e, quando derrotado na batalha de Waterloo, em 1815, o mundo era outro.

Foi deste caldo que Hegel (1770-1831) extraiu o conceito de que a liberdade deriva de complexos arranjos sociais – especialmente mentais.

“Se amas mais a vida do que a liberdade serás escravo.” – Hegel. Porém, isto também vale para as classes sociais e para os países.

Para ele, havia entre as pessoas uma relação senhor-escravo em que uma mente sempre procura necessária e mesmo que inconscientemente fazer-se superior à outra, em um processo de auto reconhecimento. Isto vale para as pessoas, mas também pode ser levado à sociedade – através das classes sociais em que uma tenta se auto reconhecer perante as demais e, enfim, entre os diversos Estados nacionais.

Assim, ao se defrontarem – pessoas, classes sociais ou países, um tenta se sobrepor ao outro, até para se justificar.

Para Hegel, aquele que ama mais a vida do que a liberdade irá ser subjugado por aquele que ama mais a liberdade do que a vida e para que se possa quebrar esta relação será necessário que o escravo se revolte e faça valer também as sua vontade/necessidade.

É neste ponto que Marx irá beber da filosofia de Hegel. Apenas que Hegel tratou do assunto de maneira ideológica enquanto Marx irá enfrentar a situação do ponto de vista prático – Marx foi mais materialista, portanto.

Se a base revolucionária estava pronta, chegara a hora da ação. As massas haviam ganhado voz e base teórica para agir.

Filosofia Política, FORMAÇÃO POLÍTICA

Filosofia Política – Capítulo 2

Nossa forma de enxergar a política foi moldada por pensadores que talharam a civilização ocidental. No que diz respeito à cultura, podemos dizer que essa maneira de conceber a vida e o mundo foi construída sobre o tripé da Filosofia grega, do Direito romano e da religião Cristã.

O individualismo torna o homem egoista e cioso apenas de si.

Depois o Estado ocidental foi fortemente influenciado pelos cânones do Racionalismo e do Iluminismo – o que pedia a prevalência do racional e do laico, enfim, uma diminuição do poder da religião e o aumento do poder de um governo de Estado. O passo seguinte foi o de incrementá-lo através da ascensão do pensamento liberal. Ao se afastar do pensamento religioso como o fundamento da organização social, o homem foi tornando-se, enfim, mais individualista. Agora está legitimado o direito à propriedade e está incutida a ideia de que no âmbito pessoal tudo se pode fazer, desde que nada se faça que a lei não proíba.

Somente bem mais tarde e especialmente após algumas grandes tragédias humanas o direito social irá ganhar fôlego, através do estado de bem estar social – welfare state.

Porém, o momento de que aqui nos ocupamos é anterior a isso. O que impulsionava o motor da história era principalmente atenção às demandas da classe burguesa, que se estabeleceu nas periferias do estado monárquico e que passou a questionar o direito hereditário, ou seja, o acesso a privilégios pelo sangue, invalidando os esforços ao negar ascensão social por meio dos méritos de cada um.

* * *

O doutrinamento cristão dominou o pensamento político por um milênio – a Idade Média. O Cristianismo foi institucionalizado por Roma e sobreviveu à sua queda. A crise do Império Romano transformou-se em terreno fértil para ideias metafísicas, já que as instituições racionais do Império ruíram. Daí em diante, o trabalho da Igreja foi cristianizar os bárbaros, depois aproximar o clero da nobreza feudal e, enfim, já durante a baixa Idade Média (aprox. 1250-1500) criar, com o pensamento de São Tomás de Aquino (1225-1274) o conceito da Escolástica – um entendimento de que a razão não seria mais incompatível com a fé ainda que a filosofia se deparasse com os limites que a teologia lhe impunha.

Roger Bacon viveu entre os anos de 1214 e 1294

A filosofia, todavia, rompeu com esse limite imposto pela teologia através do pensamento de um padre e filósofo, Roger Bacon que diferenciou o que era pura teologia do que podia ser comprovado através da experimentação – a base do pensamento científico. Nessa mesma linha de pensamento está René Descartes (1596-1650) para quem ‘não se deve considerar como verdade científica aquilo que não for comprovado clara e distintamente’. Para Spinoza (1632-1677) ‘Deus e a natureza são o mesmo elemento’. Mas foi Nicolau Copérnico (1473-1543) quem primeiro rompeu com o pensamento ptolomaico pelo qual a Terra estava no centro do Universo.

Copérnico coloca o Sol no centro do Universo e enfrenta a resistência da Igreja.

Isso coloca Deus em uma fronteira além e o homem como principal objeto da ocupação de um estado laico – estão dadas as condições para o surgimento do antropocentrismo.  Agora, Deus cede lugar ao homem na principal preocupação do pensamento filosófico.

O livro de Copernico, “Das revoluções das esferas celestes” marca na verdade uma revolução científica!

Assim, ancorados pela releitura dos pensadores da antiguidade, vários estados-nação passaram a questionar o poder da igreja e entraram em conflito com o poder do Papa, de modo que a autoridade da Igreja passou a perder relevância quando os assuntos eram terrenos.

O final da Idade Média é marcado por uma época de questionamentos. Do mesmo modo que monarcas questionavam o poder da Igreja nos assuntos de Estado, esses mesmos monarcas passaram a ser questionados pelo povo sobre a amplitude do poder que exerciam sobre a vida dos habitantes do reino. Toda uma ordem se ruía.

O protestantismo surge com força, portanto, nesse momento e ideias de pensadores como de Martinho Lutero (1483-1546) principalmente ganham o respaldo de monarcas que pretendiam se desvencilhar do poder papal. A intensão é separar o poder secular do poder espiritual.

Temos, assim, claramente definida uma linha filosófica que foi se aprimorando com o correr da Idade Média: do pensamento metafísico para o pensamento racional, este último fundado na evidência científica. Do poder absoluto de um monarca para o poder representativo em assembleias – o parlamento.

A evolução do pensamento do
homem o conduziu do misticismo
ao racionalismo e iluminismo.

As consequências disto para a política são várias e profundas. Primeiramente, vê-se que se de início a Igreja, que havia se apoderado do poder do Estado ditou suas normas baseadas no místico, este deixou de ter relevância conforme a ciência evoluía. O monarca sairá vencedor deste embate, trazendo para si o controle do estado-nação – uma organização que detém o monopólio do poder terreno, secular. São os racionalistas que irão dominar este período cuja principal feito político foi precisamente o da elaboração do estado nacional, momento em que o Poder é deslocado da figura do Papa para a figura do Monarca.

Depois surgirá o movimento Iluminista. Agora, o estado nacional, cuja principal modelo de poder era desenvolvido pelo monarca absoluto será transferido para a República, dando premência ao liberalismo e ao individualismo. O povo passa a ser representado pelo parlamento – a “casa do povo” e é ali a arena onde as demandas devem ser debatidas e aprovadas.

Enfim, fica clara uma linha histórico-filosófica que pode ser traçada desde a queda do Império Romano até o surgimento do republicanismo:

1 – A Igreja Católica emerge das ruínas do Império Romano como instituição de Estado, cujo poder supremo era exercido pelo Papa.

2 – Esse poder será contestado pelos monarcas que estavam organizando o estado nacional característico da idade moderna, apoiados pelo pensamento dos racionalistas.

3 – Depois de conquistar o poder absoluto esses monarcas serão questionados pelos iluministas, que darão as bases filosóficas sobre as quais será erigido o Estado republicano, esse sim liberto do poder do Papa e do poder de um Rei absoluto.

Filosofia Política, FORMAÇÃO POLÍTICA

Filosofia Política – Capítulo 1

Questionando…

Foi assim que a vida em sociedade foi se organizando. Através da busca de um modelo que consiga promover justiça às pessoas, o homem vem perfazendo sua longa trajetória neste nosso planeta Terra.

Novos questionamentos surgem enquanto algumas velhas preocupações se encontram superadas. Novas demandas e preocupações trazem sempre a rubrica da própria época.

Foi assim que os reis deixaram de ter poder sobre a vida e a morte de seus súditos. Foi assim que a escravidão passou a ser vista como uma aberração aos direitos humanos. É assim que a degradação do meio ambiente tem sido fortemente combatida nos nossos dias.

Mas sempre, em qualquer época, essas questões, que de início se apresentam de maneira ofuscada para a grande maioria das pessoas, são trazidas à luz por pensadores. Então se destacam aqueles que conseguem discernir através dessa névoa um novo caminho que o seu tempo demanda para então nos chamar a atenção para fatos que precisam ser objeto de reflexão, tal e qual um profeta do seu próprio tempo.

Em regra, isso se dá através de livros. Assim, obras instigantes e incômodas surgem de quando em quando, expondo o homem aos seus equívocos, trazendo à luz qual o próximo passo a ser dado em busca daquela sociedade “ideal”.

Sabemos que essa sociedade ideal não existe – uma Utopia, como nos ensinou Thomas More existe somente no campo imaginativo, mas a busca por algo que se aproxime dela é missão dos pensadores que durante gerações buscaram – e buscam – a realização desse sonho: o sonho de uma humanidade enfim justa e equilibrada.

Esses pensadores se preocuparam muito com a forma com que a sociedade é conduzida pelos seus governantes – daí a filosofia política! Afinal de contas, se é através do poder de quem governa que os cidadãos se vêm presos ao destino que os governantes pretendem lhes impor, é através dos filósofos que essas amarras são combatidas e desatadas.

De início, um governante podia se utilizar do argumento de que o seu poder incontestável estava baseado na proteção da sociedade da qual ele era o patriarca. Houve um tempo em que o Poder tinha sua justificativa no próprio Deus – o Todo Poderoso criador do Universo simplesmente delegava o poder a este ou aquele afortunado e, assim estava tudo justificado! Hoje em dia não é mais assim. Mas, voltemos no tempo…

A China, lá pelos anos 700 a.C. iniciou essa jornada em um período que ficou conhecido como “Primavera e Outono”, um momento de prosperidade em que dinastias governavam seus reinos de maneira pacífica e, assim, tiveram condições de cultivar a erudição. Confúcio combinou moral e filosofia política propondo a manutenção de valores morais através de um governo virtuoso, em contraponto a um governo corrupto e despótico.

Mas a harmonia foi derrubada no século III a.C. quando alguns reinos tentaram conquistar à força outros reinos vizinhos na ambição de unificar o território para constituir um grande Império. É nesse contexto que táticas de guerra passaram a ser consideradas como importantes ferramentas para a política – a base destas ideias foi descritas no livro A arte da guerra, escrito pelo general chinês Sun Tzu.  E enquanto Confúcio propunha seu sistema de governo baseado em valores tradicionais no Império Chinês, na Grécia a Democracia era gestada.

Foto por Josiah Lewis em Pexels.com Foi na Grécia antiga que a Democracia foi gestada

Atenas, uma das várias cidades-estados da Grécia estabeleceu um sistema de governo sob uma constituição apresentada por Sólon em 594 a.C. pela qual a democracia era proposta – um sistema em que os cidadãos gregos (não toda a população, portanto) era chamada a decidir sobre as grandes questões de Estado.

Mais uma vez, a prosperidade e estabilidade política permitiu o surgimento de uma classe de pensadores que refletiam sobre o Estado e sobre o governo do Estado. Platão defendeu um governo formado por ‘reis-filósofos’ – somente sábios estariam aptos a conduzir os destinos de uma sociedade e Aristóteles comparou as várias formas de governo possíveis, trazendo tanto suas vantagens como desvantagens – seus vícios.

Ainda nesse mesmo século, em 510 a.C. a República é estabelecida em Roma e uma forma semelhante de democracia ateniense é ali estabelecida. A expansão de Roma, cujo poder era partilhado entre cônsules e o Senado durante esse período foi grandiosa, mas, no século I a.C., conflitos políticos surgiram e atingiram seu ápice e em 48 a.C. quando Júlio Cesar  derruba o antigo sistema e instala um Império que irá se desenvolver de forma vigorosa pelos próximos quinhentos anos – o Império Romano.

O que vem a seguir é o surgimento do cristianismo e, após ele, o islamismo – duas religiões que filosoficamente irão ditar os rumos da humanidade para muito além daquele determinado período da história do continente europeu. Isso se deu conforme o Império Romano se esfacelava e a Idade Média surgia.

Foto por Joe em Pexels.com A religião exerceu forte influência sobre a política durante a Idade Média

Primeiramente o pensamento político foi moldado por uma Igreja que impôs uma teologia cristã. Mais tarde, no séc. VII o islã conquista importante espaço no próprio mundo europeu. Nesse momento são as doutrinas religiosas que se impõem.

Santo Agostinho procurou encaixar a fé cristã às ideias do velho Platão, dando especial destaque à diferença entre as leis divinas e as leis humanas.  Por outro lado, a região Islâmica inaugurada por Maomé tinha propósitos imperialistas e, enquanto a Igreja Cristã procurava se desvencilhar da Antiguidade Clássica, o Islamismo estava aberto ao pensamento político que vinha dos pensadores daquele momento e também da antiguidade clássica.

Assim a estrutura da sociedade da Europa medieval foi definida pela Igreja e a influência islâmica traria novas ideias a essa Europa que se encontrava fechada em um sistema de feudos e de estamentos. Era na Espanha, todavia, as duas fés coexistiam.

Foi Tomás de Aquino quem se preocupou em conciliar Aristóteles à teologia cristã.  É também nesse momento que o Estado-Nação se irrompe contra o poder absoluto do Papa. Então, o poder dos monarcas torna-se forte a ponto de ser exercido com impetuosidade. O povo, por fim passará a questionar esse sistema especialmente quando pensadores como Maquiavel, Jean Bodin, Thomas Hobbes, John Locke, Montesquieu e, enfim Jean-Jacques Rousseau deram para a humanidade suas obras. Aqui já estamos nos aproximando do século XVIII e ainda havia muita novidade para aparecer.

Procuramos demonstrar nesse texto como livros foram importantes para a consolidação do poder político em cada época, ainda que por vezes esse poder político tenha sido influenciado fortemente pela religião – mas, afinal de contas, quando a religião se imiscui em assuntos de Estado acaba por se tornar uma religião política, não é verdade?

Continuaremos nossa viagem filosófica pela política em novos textos que pretendem tratar de vários pensadores e de como eles moldaram a forma com a sociedade foi se configurando naquilo que hoje conhecemos por Estado.