Movimento da indústria automobilística tradicional pretendia desestimular a produção e comercialização de carro elétrico no país.
Aprovado na Câmara, texto segue para o Senado.
A maneira como a indústria automobilística é tratada no Brasil denuncia o quão condescendentes nossos governos foram — e costumam ser — com este tipo de empresa.
Foi durante o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), que o Brasil optou por priorizar a construção de rodovias, deixando as ferrovias de lado.
Essa mudança teve um impacto direto na indústria automobilística. A expansão das rodovias estimulou o crescimento da produção e a venda de automóveis, consolidando as montadoras internacionais no país.
Se as consequências incluíram o desenvolvimento econômico e industrial, também provocou o aumento dos custos logísticos, a sucateação de ferrovias e os desafios ambientais que agora se impõem, devido ao aumento das emissões de gases de efeito estufa.
Numa mudança inédita de postura, a Câmara dos Deputados votou pela taxação dos automóveis, inclusive os elétricos, com o Imposto Seletivo (IS), já conhecido como “imposto do pecado”, sob o argumento de que eles agridem o meio-ambiente.
Parece um passo correto desde que se dê o passo seguinte, que seria o de se implantar um sistema ferroviário que atenda as necessidades do país. Para isso, seria necessário sobretaxar também os caminhões a diesel, inexplicadamente fora desta tabela.
Seria também um bom momento para finalmente se priorizar a implantação de transporte público de qualidade em nossas grandes cidades, desestimulando o uso de veículos particulares.
Por outro lado, ao colocar em pé de igualdade os veículos elétricos aos veículos à combustão, a Câmara deu uma resposta sagaz à indústria tradicional automobilística, que pretendia desestimular os investimentos chineses no país.
É fácil perceber o jogo: as indústrias do chamado “mundo desenvolvido” não têm o Brasil como prioridade neste momento. Primeiro têm de suprir seus próprios mercados de carros elétricos para depois, fornecer-nos a “novidade”. Por este motivo, tentaram impingir a sobretaxa apenas aos elétricos.
Mas o mundo hoje em dia é global. Com a indústria chinesa avançando no nosso mercado, disposta a oferecer o produto a preços condizentes com a realidade do consumidor brasileiro, o jeito foi apelar para os lobbies.
Se os europeus e norte-americanos pretendiam frear os chineses, a resposta do Congresso acabou por dificultar o caminho de todos. Mas como o texto-base da Reforma ainda vai para o Senado, esta estória ainda não acabou.
“Lula muda tom, dólar recua, e Haddad anuncia corte de R$ 26 bi”. A manchete que João Ítalo deglutia junto com o café da manhã fazia-o filosofar.
Vinte e seis bilhões de reais!
Entre tragos no café sem açúcar e nacos no pão francês olhava para Maria Clara e pensava que o máximo de luxo que conseguiam era viajar em algum feriado para Bertioga ou Poços de Caldas.
De Minas, ela voltava feliz com doces de leite e queijo fresco.
“Vinte e seis bilhões. Foi isto mesmo que eu li?”, pensava atônito.
Sim, João, vinte e seis bilhões – e é só em cortes, heim… – ressoava-lhe uma voz irônica no fundo de seu ser.
Para quem vive do salário de professor em escola pública, uma dinheirama inimaginável.
Falas inapropriadas de Lula nada mais fazem do que forçar o efeito contrário ao que pretende. Banco Central independente é conquista democrática.
Lula e Haddad, durante anúncio de cortes no orçamento.
A teimosia é traço marcante de Lula (PT). Isto o tempo tem demonstrado. Porém, ao expor o mercado a suas preferências, Lula acaba por provocar o exato efeito contrário. De se pensar se o que ele pretende assim é manter acesa a chama da polarização. Então, haveria cálculo político em suas falas!
Consequência: o real é uma das moedas mais desvalorizadas diante do Dólar, isso no ano em que comemora seus 30 anos de existência. Os juros, que tinham uma tendência de estabilidade, já passou para o viés de alta.
Ao insinuar que o atual presidente do Branco Central Campos Neto dirige a política de juros no país visando a estagnação da economia, Lula trabalha pela própria estagnação, colocando seus ministros (da Economia e do Planejamento em especial) em uma situação delicada.
Causa constrangimento cada vez que o mandatário maior do país abre a boca. Despreza as cabeças que o acompanham. Depois, tem de rever suas posições e aceitar que Haddad anuncie um corte de 26 bilhões no orçamento para que se possa ao menos sonhar com uma necessária estabilidade fiscal. É assim que qualquer pai ou mãe de família faz, quando as contas são levadas à sério.
Ao insinuar que o presidente do BC trabalha contra os interesses do país, deixa subliminarmente uma mensagem de que este trabalha a favor do ex-presidente Jair Bolsonaro. Nada disto procede.
O país precisa se livrar desta armadilha Lula-Bolsonaro, mas não parece ser esta a intenção do autal nem do ex-presidente. Cabe então ao cidadão brasileiro dizer “não” a esta situação.
Em 2026, Lula estará com oitenta e um anos de idade. Sair da corrida presidencial para as próximas eleições presidenciais seria um grande serviço que ele faria ao país. Com Bolsonaro ilegível, a pista ficaria limpa para uma eleição menos politizada e mais democrática.
É disto que o país precisa — vencer finalmente esta fase.
Diferenças ideológicas entre o Congresso e o Supremo são o resultado das alternâncias radicais por que passa o Executivo, que vai da direita para a esquerda sem tempo para se refrescar no centro.
Altos escalões colaboram com radicalismo político no país.
Quando Fernando Collor de Mello caiu, seu vice Itamar Franco assumiu o comando do país e nos brindou com o “Plano Real”. Quando Dilma Rousseff foi defenestrada do cargo, Michel Temer conseguiu, em pouco tempo, acalmar o país e promover o controle sobre os gastos públicos, além de modernizar a Lei Trabalhista. Foram governos “de centro”.
Lula (PT), que sempre gostou de caminhar no terreno do embate, encontrou seu oposto ideal em Jair Bolsonaro (PL). Ambos se retroalimentam e levam consigo uma legião de fãs, que não conseguem ver a política como o caminho do consenso, tratando-a como se fosse um jogo de futebol onde, para um ganhar, o outro tem necessariamente de perder.
Nosso Congresso atual é conservador, de direita. Lula, de esquerda. O Supremo Tribunal Federal é composto por onze Ministros cujas posições têm ficado cada vez mais claras — entraram no jogo político. Acontece que a função dos ministros do Supremo é a de verificar a constitucionalidade das leis e dos atos, não a de direcionar a sociedade. Então temos um grave problema.
A discussão sobre o porte de maconha é um exemplo disto. Como o Congresso se demora em decidir, afinal o que pode e o que não pode, o Supremo decidiu (porque provocado) que o porte de maconha até determinada quantidade (40 g) não será mais punido como atualmente o é, isto é, com medidas educativas e de prestação de serviços comunitários.
Diante disto, o Congresso se insurge e promete acelerar uma PEC que criminaliza o que o Supremo acaba de descriminalizar e que atualmente é criminalizado. Nossos mais altos escalões de poder estão literalmente batendo cabeça com questões que deveriam ser decididas no âmbito de um parlamento que realmente funcionasse.
No mesmo impasse encontram-se outras problemáticas que só quem as vivenciam na pele sabem da urgência que demandam. O marco temporal da demarcação das terras indígenas e a questão do aborto legal são exemplos. Sem falar no desserviço que tem sido feito pelo Supremo no que diz respeito às decisões referentes à Lava Jato.
Estamos atingindo a marca dos quarenta anos de democracia. Nas outras ocasiões que nosso sistema ruiu, foi porque a sociedade brasileira não conseguiu se entender — e isto começa por nossas instituições.
É preciso repactuar nossa República para que a paz social de que tanto necessitamos para desenvolvermos, seja estabelecida. E isto começa com estes senhores de toga e ternos alinhados. É hora de pensar no país.
Sentado na poltrona, como todas as manhãs, João Ítalo prepara-se para o seu ritual de sarcasmo matinal. “Supremo fixa em 40 g de maconha o limite para diferenciar uso de tráfico”
Lembra dos tempos em que, na juventude, fumava maconha com os amigos em alguma esquina escura da Mooca.
Olha para a filha Emília, de 17 anos e se pergunta como ela faz para fumar maconha hoje em dia. Certamente é algo bem mais tranquilo do que antigamente.
“Antigamente, a gente tinha medo de fazer isto”, pensa com seus botões. Folheando o jornal, concorda com a roteirista Flávia Boggio, que diz que “para integrantes das classes média e alta brasileira, maconha já era legalizada”. Tem razão!
Quem vai preso por isso hoje no Brasil? Ah, pretos e pobres vão…
Em silêncio, João se levanta e direciona-se para a mesa de café com uma pergunta a ferventar-lhe os miolos. “Se o consumo é proibido, como o porte pode ser liberado?”.
Pouco antes da transformação do Brasil em República um conjunto de leis foi editado com o objetivo de manter as desigualdades sociais presentes desde nossa fundação, visando a posteridade.
Estavam ali colocadas e pensadas as normas que iriam tornar a desigualdade de nascimento uma das marcas que nos acompanham história, uma covardia atroz.
A década de 1850 é o momento em que finalmente o tráfico de negros escravos para o Brasil foi suspenso. Com isso e para suprir a necessidade de mão de obra especialmente para a lavoura, foi pensado na possibilidade de se estimular a imigração de estrangeiros europeus para o país.
Na Europa, a coisa não andava boa. Milhões de italianos, espanhóis, portugueses, alemães migravam para o novo Mundo em busca de oportunidades. Neste contexto, o Brasil passou a ser uma opção para esse pessoal, que já chegava por aqui em condições melhores do que a dos escravos que em breve seriam postos para correr das fazendas, tão logo a escravidão fosse extinta — o que se deu em 1888.
Abolida a escravidão no Brasil, os ex-escravos foram dispensados das fazendas em que viviam.
Os fazendeiros queriam se desvencilhar da carga que os ex-escravos poderiam se tornar e, ao mesmo tempo, receber uma indenização do governo para promover a soltura dos cativos. No final das contas, o governo imperial negou indenizar e, quando finalmente promoveu a abolição, o império caiu, e os negros ex-escravos não se tornaram o peso que eles rejeitaram.
Mas, para se bem compreender a desigualdade social brasileira é necessário focar na “Lei de Terras”, e não na “Eusébio de Queirós”.
Esta Lei, também de 1850, tinha como objetivo regularizar a propriedade da terra, especialmente nas regiões rurais. Na superfície ela estabelecia normas, como a obrigatoriedade do registro das terras e a concessão de títulos de propriedade. O seu espírito era outro.
Ao criar o conceito de “terras devolutas”, que se referia às terras consideradas não ocupadas, podendo as mesmas serem compradas ou concedidas pelo Estado, daria aos já enriquecidos o meio de se apossarem de mais terras, possibilitando a institucionalização do latifúndio no Brasil.
Esta norma veio, na realidade, concretizar a concentração de terras nas mãos de poucos proprietários, contribuindo e legitimando a desigualdade fundiária no país.
Muitos camponeses e comunidades foram afetados, já que não possuíam meios para comprovar a posse de suas terras e acabaram ou expulsos ou perdendo o acesso a recursos naturais. Essa lei estabelecia que somente poderia ser proprietário de terras no Brasil aqueles que herdaram títulos legais, ou seja, pessoas físicas ou jurídicas brasileiras.
Estabeleceu, assim, um mercado formal de terras, beneficiando grandes proprietários que já possuíam vastas extensões de terra, ou que delas tomaram posse ao terem mais facilidade em ‘apresentar títulos’ que comprovavam a propriedade.
E, embora a Lei de Terras tenha beneficiado principalmente os grandes proprietários rurais e contribuído para a formação de um mercado de terras formal, ela não foi diretamente benéfica para a maioria dos imigrantes europeus que chegaram ao Brasil no final do século XIX, ao menos num primeiro momento.
No entanto, políticas de colonização e iniciativas locais em algumas regiões do país proporcionaram certas oportunidades de acesso à terra para esses imigrantes, ainda que de forma limitada e desigual. Mas, nenhuma colônia de alocação de negros foi incentivada pelo governo.
O governo brasileiro incentivou a vinda de imigrantes europeus, oferecendo-lhes, enfim, a possibilidade de adquirir terras para cultivar.
Essa política tinha como objetivo suprir a demanda por mão de obra nas lavouras, substituindo o trabalho escravo que estava em declínio na época. Além disso, o governo buscava promover o povoamento e o desenvolvimento econômico do país por meio da colonização agrícola.
Os imigrantes europeus trouxeram suas culturas, conhecimentos agrícolas e emoções para a diversidade étnica e cultural do Brasil. Eles se estabeleceram principalmente nas regiões Sul e Sudeste do país, dedicando-se à agricultura, à pecuária e outras atividades rurais, mas muitos também se fixaram na cidade, fazendo evoluir metrópoles como São Paulo, por exemplo.
Apesar da Lei de Terras de 1850 ter inicialmente dificultado o acesso à terra para imigrantes europeus, políticas governamentais de incentivo à imigração e colonização no final do século XIX e início do século XX acabaram por facilitar esse acesso.
Assim, os imigrantes europeus começaram a poder comprar terras no Brasil de forma mais significativa a partir da última década do século XIX, com um aumento substancial nas décadas seguintes devido às políticas de colonização dirigidas e incentivos governamentais.
Aos poucos, os imigrantes foram adquirido as terras em que laboravam, criando colônias que se transformaram em cidades. Esta é a origem de muitas cidades, em especial no Rio Grande do Sul.
A Lei de Terras e a vinda dos imigrantes tiveram impactos influenciados na formação social e econômica do Brasil. Contribuíram para o desenvolvimento da agricultura, a diversificação das atividades vividas e a transformação das paisagens rurais. Além disso, influenciaram a composição étnica da população brasileira, tornando o país multicultural e plural.
O Morro da Providência, no Rio, é tido como a primeira favela brasileira.
Mas, por outro lado, acabou por negar aos negros qualquer possibilidade de se estabelecerem socialmente. Foram relegados ao esquecimento. Abandonados à própria sorte, sem trabalho, sem instrução e, sem qualquer assistência, passaram a ocupar os piores lugares da esfera social. Para eles, criou-se as favelas.
A Diáspora Europeia
No final do século XIX, a Europa estava imersa em profundas transformações. A Revolução Industrial, aliada a crises econômicas, perseguições políticas e religiosas, impulsionou uma massiva diáspora de europeus mundo afora. Entre as terras que se ofereciam a recebê-los, o Brasil, então sob o reinado de Dom Pedro II, surgiu como destino promissor. E, mesmo após a queda do sistema, o Brasil continuou a ser um destino atrativo.
Os europeus, aos milhões, migravam para a América. Brasil, Argentina e Estados Unidos se configuraram os principais destinos de uma gente que buscava novas oportunidades de vida.
A chegada dos imigrantes europeus ao Brasil foi marcada por expectativas e desafios. Muitos buscavam escapar da pobreza e da opressão, atraídos pelas promessas de terra e liberdade. O governo brasileiro, por sua vez, via na imigração uma oportunidade para “branquear” a população e desenvolver a economia agrária, especialmente após a abolição da escravidão.
Os imigrantes tiveram um impacto profundo na sociedade brasileira. Eles trouxeram consigo habilidades, tradições culturais e uma ética de trabalho que contribuíram significativamente para o desenvolvimento econômico do país. As colônias europeias, estabelecidas em várias regiões, tornaram-se centros de progresso agrícola e industrial.
Contudo, a influência desses imigrantes não se limitou à economia. Eles também desempenharam um papel crucial na transformação do cenário político brasileiro. A presença de ideias liberais e republicanas, comuns entre muitos imigrantes, alimentou o descontentamento com a monarquia.
Essa conjuntura contribuiu para o enfraquecimento do regime monárquico e fortaleceu os ideais republicanos que culminaram na Proclamação da República em 1889.
O governo brasileiro, ao fazer a opção pelo imigrante europeu nada mais fazia do seguir uma tendência ideológica que entendia que o europeu era o povo mais civilizado do mundo e que os demais povos deveriam se mirar na cultura deles para se desenvolverem e assim atingir um estágio evoluído.
Milhões de imigrantes europeus desembarcaram no Brasil entre o final do séc. XIX e início do XX.
Foi neste contexto que o Brasil fez a opção para chamar o europeu e deixar o africano que para cá havia sido trazido à força, de lado. Como o silvícola nacional, também o negro africano foi deixado às margens do caminho.
Assim, podemos entender que as guerras e os problemas que assolavam um continente que se dizia e entendia “superior” formam um dos sustentáculos que fundou a república brasileira, erigida para o apanágio de uma classe dominante, que se entendia europeizada e que desprezava as demais, negando-lhes oportunidades e dificultando-lhes a existência.
Consequência: A violência urbana
No Brasil, a violência urbana foi gestada durante trezentos anos de escravidão e, depois, forjada no abandono completo a que a gente preta deste país foi relegada.
Quando os negros foram libertos, não foram acolhidos por algum programa de inclusão social. O governo — de início imperial mas na sequencia, republicano — preferiu trazer mão de obra europeia para suprir as necessidades de mão-de-obra no país.
Isto é, quando o trabalho passa a ser assalariado, os negros serão colocados de lado e substituídos por uma gente que por aqui chegava atrás das ricas terras para a agricultura.
Empurrados para as favelas que logo surgiriam, órfãos de Estado, sem educação regular, sem emprego, enquanto os filhos dos europeus foram se constituindo em uma classe média, letrada e com bons empregos, os negros e seus descendentes mestiços foram sendo deixados à deriva social.
A letra da canção “Muros e Grades”, da banda Engenheiros do Hawaii retrata nossa situação, fruto de uma sociedade que insiste em não dividir.
Banda gaúcha ironiza a maneira com o qual a elite se protege da violência urbana.
“Nas grandes cidades, do pequeno dia a dia
O medo nos leva a tudo, sobretudo à fantasia
Então erguemos muros que nos dão a garantia
De que morreremos cheios de uma vida tão vazia.”
Precisamos nos repensar como Nação! Diz-se que, no Brasil, ninguém quer se ver pobre. O pobre se vê como classe média, o classe média como rico e o rico nem se vê como brasileiro. Isso se dá porque ninguém assume sua parcela de responsabilidade pela nossa desigualdade social. A culpa sempre é “do outro”. O outro são aqueles que não têm outra alternativa senão a de sobreviver.
Estes são os miseráveis — que injustamente levam a culpa pelo nosso fracasso como sociedade.
O cientista político Jessé Souza, em sua obra “A Elite do Atraso” (que tem resenha aqui no site) chama a esta classe de “ralé”.
Foi a Lei de Terras, de 1850 que deu a oportunidade para a classe dos mandantes se manter eternamente isolada das classes desfavorecidas.
Ainda não conseguimos vencer o problema da desigualdade social extrema em nosso país.
O Brasil constituiu-se em uma sociedade em que o verdadeiro preconceito é o social. Dado a grande mestiçagem que por aqui se operou, formou-se um povo diverso no qual a má distribuição de renda foi o motor de um cisão.
Então se incutiu um grande engodo no cidadão, alimentado pela nossa elite intelectual, inclusive pelas artes, nomeadamente pelo nosso cinema.
Então, se um branco é pobre, será discriminado. Se um negro é rico, será visto como de “alma branca”. Nosso problema é social e não necessariamente racial. Daí se falar em uma “democracia racial” que, na prática, não existe. O conceito de “democracia racial” é uma falácia. Não temos sequer uma “democracia social”.
Nossa elite ainda não se convenceu de que para se ter uma sociedade onde a paz social seja reinante, faz necessário dividir. Não só a terra, mas também o pão e as oportunidades.
Preferem dividir a sociedade em guetos — os ricos, nos condomínios fechados e andando em carros blindados, gastando fortunas em segurança privada, e os pobre, presos às favelas e a um futuro onde o que não existe é expectativa de melhora.
Pautas ideológicas comprometem não apenas nossa evolução como sociedade – atrapalham o próprio andamento dos assuntos de interesse do país.
2024 pode ser “ano perdido” no Congresso.
Passou o primeiro semestre e a Reforma Tributária permanece sem ser regulamentada. No segundo semestre terão lugar as eleições municipais. É provável que 2024 passe sem que o assunto evolua – isso porque, passada as eleições municipais, acontecerá a troca de comando nas Casas do parlamento, que se dará em feveriro de 2025.
A Câmara dos Deputados, liderada por Arthur Lira (PP) acabou contaminada pelo jogo que ele ali implementou com maestria. E conforme o fim do mandato de Lira se aproxima, os velhos problemas que ele tem reaparecem – e sua aura de democrata vai ficando mais opaca.
Os frutos de sua gestão aí estão. Conduzindo com mão autoritária e apoiado por deputados que foram manejados por pura conveniência política, quase nada aconteceu.
Agora, perde-se energia e capital político discutindo questões ideológicas que beiram o medievalismo. A rua, porém, se manifestou e demonstrou àqueles senhores e senhoras que o povo ainda existe. Assim, o poderoso Lira encolheu-se e lembrou de que existem as Comissões para debater temas que, apesar de ridículos, por vezes ali aportam.
Os protestos havidos contra a lei que pretende transformar meninas (na maioria das vezes abusadas) em criminosas, frearam o descalabro. É que, quando a Paulista grita, Brasília se recolhe.
A Câmara dos Deputados existe para debater as grandes questões nacionais. Falar de aborto, neste momento, não parece nada adequado. Andamos em círculos porque nos falta uma alma estadista em nossos altos escalões de governo. O que temos é uma inteligência que se volta para conduzir a sociedade não para frente, mas para o lado, quando não para trás.
A covardia é a marca histórica de nosso parlamento. Foram necessários quase quarenta anos após a Lei Eusébio de Queirós ser aprovada para que a efetiva (e, ainda assim, mal planejada) abolição da escravatura tornasse realidade.
Agora, a história se repete. Assim como os ingleses nos pressionaram a interromper com o tráfico de escravos no início do século XIX, duzentos anos depois somos pressionados a editar leis que protejam o meio ambiente. E, mais uma vez, insistimos em “leis para inglês ver” e, quando as leis existem, relaxamos na fiscalização. Não percebem nossos governantes que estamos perdendo grandes oportunidades?
Nosso país precisa de um parlamento que dê respostas adequadas às necessidades da sociedade. O problema é que esta deficiência é difícil de ser suprida.
E nada de colocar a culpa no povo que, supostamente, não sabe votar. O problema é que os partidos políticos (que oferecem o menu de opções), deveriam se esmerar melhor na escolha de candidatos. A julgar por quem preside os mesmos, estamos em maus lençóis.
Conforme a estrutura anticorrupção vai sendo desmontada, os escândalos vão reaparecendo no noticiário.
Ex-senador por Roraima mostrou o caminho para a derrocada da operação.
Um Ministro de Estado denunciado pelo pela Polícia Federal sob suspeita de corrupção. Ele nega, e diz que há “vazamentos seletivos, sem considerar os fatos objetivos”.
Uma licitação para aquisição de mantimento para uma população que sofreu um cataclisma climático. Segundo o presidente da Conab “um novo procedimento ‘mais ajustado’ será realizado”.
Estes são apenas os exemplos da semana de como, quando não há uma estrutura legal para dar resposta aos desvios de conduta dos mandatários do poder público, o que se vê é a escancarada desfaçatez.
O ministro das Comunicações Juscelino Filho (União) já vem sendo citado como responsável por diversos crimes há tempos. Lula (PT), por cálculo político, tem fingido que nada vê.
A licitação, agora cancelada, da compra de arroz para o Rio Grande do Sul espelha claramente que o governo de Lula da Silva quer trilhar sobre os mesmos trilhos erráticos do passado. Uma vergonha.
Quem viveu os momentos de glória da Operação Lava Jato não pode acreditar no que ela se transformou, muito disso, serviço do próprio STF, que sistematicamente vem derrubando toda a sua efetividade.
Transformar os agentes em réus e livrar os infratores de então é de uma sandice tão grande que só pode ser explicada pela inteligente jogada que os políticos fizeram ao criar a rivalidade entre os nacionais. Nesse sentido, o cansativo confronto esquerda/direita é o suprassumo desta estratégia bandida.
Estes casos irão frequentar as reportagens e os artigos de opinião dos jornais por algum tempo, até que outros os sobreponham. Assim, uma sujeira vai encobrindo a outra.
O trabalho desenvolvido durante a Lava Jato foi todo desfeito, temos de admitir. Mas a hora não é de lamentar, seria a de se o tentar resgatar.
O problema é que o povo prefere brigar por duas personalidades que tanto mal fazem ao país (nomeadamente: Luís Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro). Assim, se esquece de que, se há uma solução, ela não está no Planalto, nem neste Congresso irresponsável, tampouco nos pináculos de um Judiciário perdulário e que cada vez deixa mais claro as suas inclinações políticas.
A solução está nas Instituições Republicanas, tão combalidas por quem tem outros interesses, que não são necessariamente aqueles que fazem bem à sociedade, mas que servem a particulares. Aí está o verdadeiro e profundo Brasil, que políticos da estirpe de Romero Jucá (MDB) tão bem conhecem. Sim, a ordem é acabar com tudo o que pretenda fazer frente à corrupção de Estado.
Tido como uma das economias mais fechadas do planeta, o país se demora a tributar a importação de pequenas compras.
Site chinês inundou o Brasil de produtos baratos.
Se a Câmara dos Deputados confirmar e o presidente sancionar, finalmente o país vai cobrar o Imposto de Importação sobre as compras realizadas por pessoas físicas, cujo valor seja menor do que 50 dólares. Nem precisa questionar o porquê da demora. O governo não queria sofrer críticas da população que se refestelou com a aquisição de produtos pouco tributados e preferiu tapar os olhos.
O curioso é que o povo brasileiro, ao comprar produtos lá de fora, penaliza empregos e renda internamente. A população deveria exigir que o comércio interno fosse menos tributado ao invés de achar barato o produto que vem da China — aí sim a economia giraria melhor.
Já de Lula não se pode esperar algo diferente: interessado tão-somente em aumentar sua popularidade, é o populismo que lhe move as decisões, . É por isso que, para ele, o equilíbrio fiscal tem pouco valor. A ele não faz diferença se a cobrança do imposto ajudará nas contas que ele deve nos prestar.
O governo brasileiro — aqui incluído o Legislativo — , estava demorando a tratar do assunto. O comércio local, que gera empregos anda prejudicado, enfrentando uma concorrência que tem vantagens não concedidas às empresas locais — a isenção de impostos!
Sabendo que o Brasil é um país que é um dos mais difíceis e fechados do mundo para se fazer negócio, é de se admirar a demora.
Por outro lado, o socorro veio através de um jabuti, isto é, foi introduzido em outra lei que não tem ligação com o assunto. A matéria foi incluída em projeto que versa sobre um programa de descarbonização do setor automotivo — o Mover.
Verdade é que esta vergonhosa prática precisa ser abolida. Parlamentares se aproveitam de projetos que já estão com a tramitação avançada para ‘pegar uma carona‘ — e assim, reina o improviso.
Lula, que há pouco tempo tratou do assunto com ironia atroz, não deve vetar o projeto para não se complicar diante de um parlamento que já se mostrou refratário a suas posições.