Blog – Formação Política

FORMAÇÃO POLÍTICA

Sob fogo cruzado 

Decano do STF volta atrás de decisão polêmica.

Passado o susto da tentativa de golpe de Estado que pretendia retirar-nos, mais uma vez, a ordem democrática, era de se esperar que o clima se estabilizasse e que o país encontrasse serenidade política para repensar o seu crescimento, não apenas econômico, mas como Nação. 

Porém, a força que a própria democracia oferece a quem está no poder leva os seus próprios representantes a se envolverem em vergonhosas contendas, onde o que menos interessa é o cidadão. 

Com medo do que as urnas preparam para 2026, o STF, através de uma decisão monocrática decidiu sufocar as possibilidades de pedido de impeachment a um de seus quadros — movimento que gerou forte reação do Senado. O posterior recuo do ministro Gilmar Mendes sinalizou que até eles sabem até onde podem ir. 

Mas ato contínuo, o ministro Alexandre de Moraes anulou a decisão da Câmara que havia livrado a deputada Carla Zambelli da cassação e determinou que o suplente fosse empossado em 48 horas. Não lhe falta razão e, neste caso é a Câmara que oferece a oportunidade da manutenção do confronto. 

Por outro lado, o Senado, sob um comando nada republicano, trava com o Judiciário — e com o Executivo — uma queda de braços porque deseja levar ao STF o ex-presidente da Casa, Rodrigo Pacheco. Curioso porque cabe ao Senado aprovar (ou não) o nome indicado pelo presidente. Neste caso, bastaria não validar o nome quando da sabatina a que o candidato deve se submeter. 

A ciência política nos ensina que, se à Câmara dos Deputados cabe lidar com a dinâmica da sociedade, é do Senado que se espera o cuidado com a tradição e com as instituições. Além disso, do STF se espera a proteção da Constituição Federal e é dentro destas linhas que ele deve trabalhar. 

O fato é que nosso momento político é terrível. Que nossa democracia resista a tanto acinte. 

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Não é bem assim

Valor da festejada isenção pode se deteriorar com o tempo.

Promessa de campanha, o governo ampliou a isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) para salários de até 5 mil reais, além de diminuir o imposto aos que ficam na faixa dos R$ 5.000 até R$ 7.350 mensais. Todavia, o presidente omite que, na prática, o benefício pode se deteriorar com o tempo.  

É que a lei resultante não vincula esse patamar a nada. Em outras palavras, trata-se de um valor fixo, sujeito à “boa vontade” política e não a uma atualização automática. Aliás, a questão da tabela de deduções do Imposto de Renda — especialmente no item educação — que está desatualizada desde 1995, mostra o que isto representa: um aumento indireto do imposto a cada ano.  

Desta maneira, ao propalar benevolência, o que faz Lula é valer-se de uma estratagema. A rigor, este valor de 5 mil (que, diante da previsão para 2026 equivale a 3,07 salários-mínimos) pode ficar congelado por anos, como é o caso da tabela de descontos. Neste caso, pode-se concluir que, na prática, a isenção passou de 2 para 3 salários mínimos, mas isso não está garantido.

Mais honesto seria vincular a isenção a 3 salários-mínimos, mas o poder de ajudar (ou não) o cidadão, esse o governo não quer largar. 

Portanto, ao contrário de um “presente permanente”, o que se vê é uma medida modesta — útil para alguns agora, mas incapaz de garantir proteção estrutural aos contribuintes no futuro. Esse “presente” tem prazo e condições. Ele depende da generosidade de quem detém o poder, não de um critério de justiça fiscal e social. 

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O preço da teimosia 

Correios: problema sem solução aparente.

A recusa em discutir a modernização — ou mesmo a privatização — da estatal custou caro não só em dinheiro, mas também em competitividade e inovação. 

A crise dos Correios é evidente. Ao propor que o Tesouro Nacional garanta novos empréstimos, o governo transfere o risco para o contribuinte. Trata-se de uma escolha, no mínimo, questionável. 

O problema vai além das finanças: é a insistência numa visão romântica das estatais que impediu o país de aproveitar uma oportunidade histórica. Amazon, Mercado Livre, Alibaba e Shein poderiam ter disputado, em leilão, a infraestrutura logística dos Correios — investimento, modernização e eficiência garantidos. Mas o governo ficou paralisado por convicções ideológicas. 

As gigantes globais não esperaram. Construíram suas próprias redes: centros de distribuição modernos, frotas, sistemas de rastreamento e tecnologias avançadas. Hoje, conectam o país com mais eficiência do que a estatal que deveria liderar o setor. 

A ironia é evidente: ao rejeitar a privatização para “proteger o patrimônio público”, o governo permitiu uma privatização silenciosa. Sem licitação, sem arrecadação e sem contrapartidas. O mercado simplesmente contornou a ineficiência estatal, enquanto os Correios ficaram para trás. 

O Brasil perdeu a chance de realizar um dos maiores leilões da história e de transformar sua logística em um motor de desenvolvimento. Ficou com o pior cenário: um Estado que insiste em administrar uma estrutura obsoleta e um setor privado que já não depende dela. 

Não se nega a importância dos Correios na distribuição de vacinas ou provas do Enem. O problema é que a conta está muito alta diante do benefício.

A pergunta afinal deixou de ser “privatizar ou não”. A oportunidade passou. Repensar os Correios, aproveitando o que ele tem de melhor para atender a demandas específicas parece ser o que restou a fazer.

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Não foi uma gafe

Político alemão é famoso por frases preconceituosas.

Ao se explicar a empresários de seu país o porquê de ter ficado tão pouco na COP-30, o chanceler alemão Friederich Merz alegou que este era o desejo, inclusive, dos jornalistas que o acompanhavam. A justificativa soa confortável demais para um encontro que reuniu dezenas de chefes de Estado em torno do maior desafio da nossa época: o colapso climático e a preservação das florestas tropicais. 

A permanência de apenas algumas horas em Belém pode não ser apenas um detalhe de agenda — pode ser um sintoma.

Desde o anúncio do Tropical Forests Forever Facility (TFFF), o novo mecanismo internacional criado para financiar proteção e recuperação das florestas, muito se falou sobre o apoio político dos países ricos. Mas, quando se passa do discurso para os números, a disposição muda de tom. A Noruega logo se comprometeu mas a Alemanha, de início, se esquivou. 

Não é difícil ver um elo entre a “visita-relâmpago” e a hesitação alemã em assumir compromissos financeiros concretos. O TFFF exige aportes bilionários para que o mundo possa, de fato, virar a chave. No entanto, como sempre ocorre, quando a conversa chega às responsabilidades históricas — emissões acumuladas, industrialização baseada em carvão, riqueza construída à custa de recursos naturais do Sul Global — instala-se um súbito mal-estar diplomático. 

A pressa de Merz talvez revele mais que sua explicação. O desconforto em permanecer em Belém pode ter sido o desconforto de encarar uma demanda legítima: a de que quem poluiu mais e lucrou mais também deve contribuir mais. Uma verdade simples, porém incômoda para quem há décadas administra as vantagens da posição geopolítica privilegiada. 

Mas como de tudo se pode tirar algo de positivo, o dinheiro enfim saiu. Por certo, como forma de minorar o mal jeito.

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A qual paz Lula se refere? 

Trump aumenta pressão militar sobre Venezuela de Maduro

Em recente pronunciamento, tentando atingir os EUA, nosso presidente disse que a região da qual ele comanda o principal país é uma região afeta à paz. Algo como dizer que a presença dos Estados Unidos por aqui é sinal de guerra.  

Mas paz verdadeira não é apenas ausência de guerras entre países, mas a presença de justiça, dignidade e oportunidades — bens que sustentam uma vida em paz. 

Ao se curvar aos interesses das elites globais, a América Latina e o Caribe se mantiveram longe de intervenções diretas dos países centrais, mas isso teve um preço alto: a dependência econômica e a entrega de suas riquezas naturais e humanas. Assim, nações que poderiam exercer protagonismo internacional — como Brasil, Argentina e México — continuam relegadas à condição de periferia na geopolítica mundial. Somos os “pobres úteis”.

É legítimo, portanto, perguntar a qual “paz” Lula se refere. A paz das estatísticas diplomáticas ou a paz concreta que falta nas ruas do Rio de Janeiro e outras grandes cidades do Brasil. O Rio, nossa principal vitrine, foi palco recentemente de cenas que envergonham o país diante do mundo. 

A verdadeira paz não se constrói com discursos, mas com políticas públicas que enfrentem a desigualdade estrutural, garantam segurança cotidiana e promovam justiça social. Enquanto essas feridas permanecerem abertas, afirmar que vivemos em uma “região da paz” é mais fantasia retórica do que realidade palpável. 

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Voto distrital

Com o voto distrital, cada área do país terá seu próprio representante eleito pela comunidade local.

Quando queremos medir o grau de politização de alguém, um dos recursos é perguntar em quem votou nas últimas eleições para deputado, seja federal, seja estadual. A maioria não se lembra. Isso ocorre porque há grande distância entre o eleito e o eleitor — tanto física quanto simbólica — e porque o atual sistema proporcional dilui ainda mais esse vínculo. 

Nossos estados são extensos e contam com dezenas de partidos. É comum que um deputado eleito represente uma região distante daquela onde obteve votação expressiva, sem conhecer seus problemas e suas demandas. Quando o eleitor sequer sabe se seu candidato foi eleito, a capacidade de cobrança se perde completamente. 

A proposta de adoção do voto distrital misto busca corrigir esse distanciamento. Pelo modelo, metade dos parlamentares continuaria sendo escolhida pelo sistema proporcional, preservando diversidade política; a outra metade seria eleita por distritos, aproximando o mandatário da realidade local e permitindo ao cidadão identificar com clareza quem o representa — algo semelhante ao que ocorre nas eleições para prefeito. 

Essa mudança se soma a outras já em curso. O fim das coligações proporcionais e a cláusula de desempenho vêm reduzindo o número de partidos, melhorando a transparência e a governabilidade. A reforma distrital segue esse caminho ao fortalecer o vínculo entre sociedade e Parlamento. 

Caso aprovada, a regra só valerá a partir das eleições de 2030, coincidindo com o fim do ciclo de transição que vem redesenhando o sistema político e o acesso aos fundos partidário e eleitoral. 

Há, claro, desafios. Será preciso definir os distritos com critérios técnicos para evitar manipulação geográfica (gerrymandering), e garantir que o sistema não exclua minorias políticas. Ainda assim, trata-se de um avanço institucional significativo. 

A proposta está nas mãos do presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos) que a vê com bons olhos. É um processo longo, mas necessário. Fortalecer a representatividade é fortalecer a democracia. 

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Sem segurança não há Estado 

Resposta do crime a ação policial cria cenário de guerra no Rio.

O Brasil vive uma crise de segurança pública que ameaça o próprio sentido de Estado. Facções dominam presídios, o tráfico controla fronteiras e milhões de cidadãos convivem diariamente com o medo. 

O fator fundante do Estado é a segurança. Quando o homem aceitou abrir mão de parte de sua liberdade em troca de proteção, estava firmando o pacto que deu origem à vida em sociedade organizada. Só depois vieram os demais direitos — saúde, educação, previdência. 

Hoje, porém, o Estado brasileiro não cumpre sequer sua função mais básica: garantir a segurança do cidadão e a integridade do território. A falta de coordenação entre governos, a corrupção e a omissão política abriram espaço para o avanço do crime organizado, que já se infiltra em empresas, partidos e instituições públicas. 

Se o Estado não combater o crime, o crime tomará o lugar do Estado. Não há vácuo no poder. É urgente que o governo federal, os estados e o Congresso tratem a segurança pública como prioridade absoluta — com planejamento, recursos e coragem. Sem segurança, não há Estado. E sem Estado, não há sociedade possível. 

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Cadeira vaga no Supremo

Um nome lembrado para a vaga é o de Vera Lúcia Santana Araújo.

Quando Lula escolheu Joaquim Barbosa para ocupar uma cadeira no STF o fato foi comemorado porque um negro finalmente fora escolhido para um posto cujo colegiado só tem pessoas brancas.

A atuação de Joaquim Barbosa, na condução do caso que ficou conhecido como “mensalão” assustou Lula. O ministro simplesmente tomou decisões fundamentais para o país, mas contra os interesses de quem o havia indicado para o cargo. 

Mais tarde, quando Lula estava prestes a ter sua prisão decretada, a então presidente Dilma Rousseff tentou garantir-lhe um “salvo-conduto” por meio de uma nomeação ministerial, que lhe conferiria foro privilegiado e, portanto, imunidade temporária. O plano, porém, naufragou após a interceptação e divulgação de uma conversa telefônica entre os dois, na qual Dilma informava que enviaria o termo de posse para ser usado “em caso de necessidade”. O episódio, à época, causou enorme escândalo e expôs de forma contundente os limites entre lealdade política e afronta às instituições.

Agora, Lula está propenso a indicar para o Supremo o atual AGU Jorge Messias, por acaso a mesma pessoa designada para socorrer Lula naquela ocasião. Quem não se lembrado “Bessias”? 

Um presidente que se diz amante da diversidade deveria escutar mais o clamor do povo por uma mulher negra no Supremo. Isso que acabou de acontecer na Academia Brasileira de Letras, poderia se repetir na Corte maior do país. Nossa Nação é multifacetada e a representatividade é um dos maiores bens da democracia.  

Um bom nome poderia ser o da advogada Vera Lúcia Santana Araújo, com trajetória reconhecida na promoção de direitos humanos e igualdade racial, e que desde 2023 ocupa cargo de ministra-substituta no Tribunal Superior Eleitoral.  

Lula passa longe disso, mas deveria repensar sua posição. Isso porque existe um risco no caminho de Messias. Quem indica um nome para o Supremo é o presidente, mas quem o ratifica é o Senado e ali, a preferência é por Rodrigo Pacheco. Um nome fora da órbita política e que atenda a uma demanda social cairia melhor. Mas Lula não parece se sensibilizar com isso. 

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Reforma necessária

Sindicatos fazem campanhas contra a reforma nas redes sociais.

O presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos) prometeu colocar em prioridade o projeto que prevê a reforma administrativa. O foco da reforma seria o de avaliar o desempenho dos servidores, disciplinar os supersalários e padronizar carreiras/salários. 

O serviço público brasileiro convive com um paradoxo: há servidores que recebem salários modestos e enfrentam o julgamento negativo da população por um desempenho que, muitas vezes, não reflete falta de dedicação, mas sim as condições precárias de trabalho. São profissionais que lidam diretamente com o cidadão — em escolas, postos de saúde, repartições administrativas — e que carregam o peso de uma estrutura ineficiente e mal gerida. Sem recursos, com metas inalcançáveis e pressionados por uma burocracia lenta, acabam sendo o rosto visível das falhas do Estado, quando, na verdade, são suas maiores vítimas. 

Em contrapartida, existe uma elite do funcionalismo que vive em uma realidade completamente distinta. Recebem supersalários, acumulam benefícios e, em geral, estão afastados do contato direto com a população. São servidores de altos cargos, muitas vezes com remuneração acima do teto constitucional, que desfrutam de privilégios corporativos enquanto a base do serviço público é responsabilizada pela má qualidade do atendimento.  

Essa divisão cria um abismo dentro do próprio Estado: de um lado, o servidor que trabalha muito e ganha pouco; de outro, o que ganha muito e pouco entrega. A verdadeira reforma administrativa precisa enfrentar essa desigualdade interna — e não punir o servidor comum, que carrega nas costas o peso do sistema. 

Por isso, é urgente que o Brasil avance com uma reforma administrativa verdadeira — uma que vá além do discurso fácil de “cortar gastos” e enfrente, de fato, as distorções internas do serviço público.  

O país precisa valorizar o servidor que está na linha de frente, garantir condições adequadas de trabalho e eliminar privilégios injustificáveis que corroem a confiança da população nas instituições.  

Não se trata de punir o funcionalismo, mas de reorganizá-lo, torná-lo mais justo, eficiente e conectado com as necessidades do cidadão. Adiar esse debate é perpetuar um sistema desigual e ineficiente, que penaliza quem trabalha e recompensa quem se beneficia das brechas. Cabe ao presidente da Câmara cumprir sua promessa e fazer a reforma andar. 

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Uma janela à direita

Principal aposta da direita, Tarcísio (Republicanos) erra ao radicalizar

Pesquisa recentemente divulgada dá conta de que 43% dos brasileiros atualmente se posicionam à direita e 39%, o centro do espectro político. Isso significa que uma coligação que não represente uma direita radical tem ampla maioria das intensões de voto para as próximas eleições. O caso é definir quem vai. 

Enquanto parte da direita permanecer aficionada no radicalismo bolsonarista, a esquerda agradece. 

Isso trouxe, aliás, alívio para o governo. O bom momento vivido por Lula tem mais a ver com a incompetência da direita do que com bons resultados entregues pela atual gestão. Dessa forma, neste momento, estamos mais para ter um novo governo de Lula do que algo diferente, a despeito da janela que pode se abrir. 

Para que esta janela se abra é necessário que a direita deixe a ficção bolsonarista e caia na realidade. A realidade é que o brasileiro busca um governo de direita mas que não seja radical. 

Faz parte do jogo democrático oscilar no tempo entre a esquerda e a direita, desde que ancorados pela segurança institucional que só o centro democrático é capaz de proporcionar. 

O que poderia se esperar de um eventual candidato é o de que seja uma liderança sem radicalismos, que ofereça um programa de governo simples e verificável e que mantenha um tom moderado nas negociações políticas porque política é negociação. 

Enquanto prevalecer esta lógica dos direitistas de tentar defender o indefensável (leia-se, Bolsonaro), Lula agradece.