Blog – Formação Política

FORMAÇÃO POLÍTICA

O teatro dos ‘patriotas’

Uma imagem inacreditável, mas real

No dia da Independência do Brasil, a cena de uma bandeira americana tremulando em plena Avenida Paulista chocou — ou deveria chocar. A imagem, impensável em qualquer país que se respeite, não é um simples ato de provocação: é o reflexo de uma política dominada por personalismos, radicalismo e culto a figuras, seja locais ou estrangeiras. 

É uma parte do Brasil rendendo homenagens aos EUA de Trump, mesmo diante do roubo de empregos e riqueza, concretizado pelo tarifaço de 50% imposto a todos nós. A pátria dos “patriotas” agora celebra símbolos que não são seus — justamente no dia em que se comemora a ruptura com a dominação externa. Um contrassenso alimentado por uma gente que confunde soberania com submissão, democracia com idolatria. 

Esse tipo de manifestação revela uma crença perigosa: a de que o Brasil não pode caminhar com as próprias pernas. Uns, por complexo de inferioridade, acreditam que só os estrangeiros sabem o que fazer. Outros, mais cínicos, instrumentalizam esse discurso para abrir caminho à entrega dos nossos recursos — econômicos, simbólicos e políticos. Isso vem de longa data. 

A bandeira na Paulista, portanto, não é só um tecido ao vento. É um alerta. Há quem esteja disposto a negociar até o sentido de pátria para manter o próprio projeto de poder. E, diante disso, cabe ao verdadeiro patriota fazer a pergunta essencial: a que serve esse teatro? 

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Tarcísio escorrega

Por espólio, Tarcísio manda sinais a Bolsonaro.

Se há uma coisa que Lula parece não entender, é que sua vitória em 2022 não se deu por aclamação popular, mas por rejeição a Bolsonaro. O eleitor preferiu arriscar-se com um passado já conhecido do que insistir no presente autoritário do então presidente.

Tarcísio de Freitas (Republicanos) poderia se assenhorar de um eleitorado que anda em busca de uma opção menos estridente mas, ao tentar se posicionar como herdeiro do bolsonarismo, corre o risco de naufragar. Ao prometer indulto a Bolsonaro como “primeiro ato de governo”, Tarcísio não só joga com os extremos, como desconsidera o que a maioria do eleitorado brasileiro sinalizou nas urnas: não há espaço para aventuras autoritárias.

O barulho da militância radical nas redes sociais não é sinônimo de capital eleitoral. O Brasil real, que paga imposto, enfrenta filas na saúde e deseja estabilidade institucional, tem outras prioridades. Tentar agradar um nicho pode custar caro para quem almeja governar o país.

Tarcísio governa o maior estado do Brasil. Tem, nas mãos, a oportunidade de construir uma imagem de gestor técnico e moderado — o oposto do ruído ideológico que marcou os últimos anos da política nacional. Exibir resultados, investir em diálogo e buscar o centro político são estratégias mais eficazes do que repetir gestos que já fracassaram.

Há, no eleitorado, muitos decepcionados com o governo Lula. Mas decepção ainda é diferente de risco. E o risco à democracia ainda pesa muito na balança do voto.

Tarcísio ainda tem tempo de corrigir o rumo. Basta deixar de mirar no espelho retrovisor — e começar a olhar para a frente.

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Reformas

Presidente da Câmara promete Reforma Administrativa.

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), sinaliza que pretende enfrentar o desafio de aprovar a Reforma Administrativa. O objetivo é claro: mais eficiência e menos custos. O problema é que, para economizar, será necessário enfrentar uma elite do funcionalismo público que não quer — e nunca quis — abrir mão de privilégios.

E o pior: essa elite, além de resistente, é perversa. Há uma infinidade de bons servidores, dedicados e eficientes, que não desfrutam dos privilégios que certos grupos tentam preservar. Mas essa casta prefere difundir a ideia de que todos são improdutivos e todos são privilegiados — deixando a pecha na planície, enquanto se refestelam no cume.

O texto-base da nova reforma, de autoria do deputado Pedro Paulo (PSD), deve ser apresentado nos próximos dias. Uma comissão deve ser formada já na semana que vem. O último esforço semelhante data de 1997. Aquela reforma marcou a transição do Estado burocrático para um Estado de perfil gerencial — mas sua aplicação foi parcial. Muitas promessas de modernização nunca saíram do papel ou carecem de regulamentação e fiscalização efetiva.

Enquanto isso, a Reforma Tributária pretende avançar sobre o Imposto de Renda. O primeiro teste é a proposta de isenção para quem ganha até R$ 5 mil por mês — promessa antiga da direita e da esquerda. O entrave é a recomposição das perdas de arrecadação. Uma das ideias mais debatidas no momento é a tributação das rendas acima de R$ 100 mil mensais, com uma alíquota mínima de 10%.

Deputados buscam formas de “compensar” a renúncia fiscal. Alguns querem jogar a conta nos bancos — que, naturalmente, repassariam o custo aos clientes, num país em que é quase impossível se livrar dos serviços bancários. Outros miram nas Bets, que sugam dinheiro da população sem oferecer qualquer contrapartida social. Em ambos os casos, trata-se de uma covardia disfarçada de justiça fiscal.

Este é o retrato do nosso Congresso. O Brasil precisa, com urgência, de representantes mais comprometidos com o interesse público — e de uma população mais atenta ao que se decide em Brasília.

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No atoleiro

Bolsonaro não apoia ninguém.

A política brasileira parece presa em um círculo vicioso de personalismo e populismo. Em vez de se posicionar em torno de projetos nacionais, ideias ou estratégias de desenvolvimento, ainda giramos em torno de nomes, rixas e disputas de poder que nada têm a ver com o interesse coletivo. A mais recente ofensiva da família Bolsonaro contra figuras como Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Romeu Zema (Novo), governadores bem avaliados que poderiam representar uma nova direita no Brasil, é prova disso. Para o bolsonarismo, qualquer alternativa à direita que não se ajoelhe diante do clã precisa ser sabotada.

Enquanto isso, Lula (PT) tentar viabilizar um novo mandato, mesmo aos quase 80 anos. A insistência revela tanto apego ao poder quanto falta de planejamento sucessório dentro do próprio campo progressista. Ao se agarrar ao protagonismo pessoal, Lula reforça o antagonismo que mantém Bolsonaro (PL) vivo no imaginário de parte do eleitorado.

Essa polarização tóxica favorece apenas aos extremos — e paralisa o país. O resultado é um Brasil fragmentado, onde a agenda nacional é constantemente sequestrada por disputas eleitorais prematuras e por estratégias que têm mais a ver com a sobrevivência política de indivíduos do que com o futuro da nação.

No meio disso tudo, temos também pressões externas. A recente ofensiva de Donald Trump, por exemplo, com medidas econômicas contra o Brasil e a Índia, tem mais a ver com a tentativa de conter o avanço dos BRICS do que com simpatias ou antipatias ideológicas locais. Mas, internamente, seguimos tratando tudo como extensão de nossas rivalidades domésticas — quando, na verdade, o país está sendo usado como peça num jogo geopolítico maior.

É hora de virar a página, abrir espaço para lideranças que pensem o país além do personalismo e do populismo. Que saibam lidar com os desafios internos e externos com maturidade, profissionalismo e compromisso com o bem público. Lula e Bolsonaro não cumprem esse papel.

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Incoerência à brasileira

Proteção mínima contra abusos será retirada.

O brasileiro recebe, segundo dados do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), algo em torno de 1 bilhão de chamadas de telemarketing por mês. Isso mesmo depois de 2022, quando a Anatel passou a exigir que empresas que disparam mais de 500 mil chamadas/mês utilizassem o prefixo 0303.

Agora, a mesma Anatel diz que vai revogar a determinação do uso do prefixo específico para essas empresas sob o argumento de que o consumidor não estava atendendo às chamadas. Ora, o objetivo não era dar esta opção ao consumidor?

A revogação revela, no fundo, a inversão de prioridades: ao invés de proteger o cidadão, protege-se o mercado — neste caso, um setor que muito incomoda a população brasileira. Ao ceder à pressão das empresas, a agência ignora seu papel regulador e escancara sua submissão a interesses privados.

Se o consumidor estava rejeitando as chamadas, é porque finalmente tinha um instrumento mínimo de defesa. Retirar esse direito é condená-lo à enxurrada de ligações indesejadas, invasivas e, muitas vezes, abusivas.

Em vez de revogar o prefixo, a Anatel deveria reforçar sua fiscalização, multar quem descumpre as regras e ampliar a proteção ao usuário. O que está em jogo aqui é o respeito à privacidade do cidadão — e não a taxa de conversão de empresas de telemarketing.

Mais uma vez, uma boa política pública é desfeita por conveniência. Uma incoerência tipicamente brasileira. A solução é revogar a revogação.

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No centro do redemoinho

Suposta proximidade de Modi a Trump não poupou a Índia de sobretaxas.

Originalmente, Brasil, Rússia, China e Índia formaram o dístico BRIC — um acrônimo que, mais do que uma sigla, passou a representar uma tentativa de reorganização da ordem mundial, agora multipolar. O grupo logo cresceu e firmou o objetivo de fortalecer laços entre economias emergentes e propor uma nova lógica de cooperação internacional.

A recente decisão de Donald Trump de aplicar as mesmas sobretaxas à Índia, que já havia imposto ao Brasil, lança luz sobre o que realmente está por trás de sua ofensiva comercial: Trump via atingir a China — e, por consequência, o BRICS como bloco.

O atual presidente norte-americano, assim como o establishment que o cerca, sabe que não pode isolar a China diretamente sem correr grandes riscos econômicos. Por isso, ataca suas alianças estratégicas. Ao punir o Brasil, sinalizou contra a presença de Lula no cenário global e sua aproximação com Pequim. Agora, ao mirar a Índia por manter relações comerciais com a Rússia, Trump escancara seu verdadeiro objetivo: minar o avanço do BRICS, que tem se consolidado como uma alternativa ao sistema financeiro e diplomático liderado por Washington.

Enquanto no Brasil muitos interpretaram as medidas como uma retaliação ao cerco jurídico enfrentado por Jair Bolsonaro, a sanção contra a Índia desmonta essa tese. Trump não age por lealdade a ex-presidentes ou por afinidade ideológica — age por cálculo geopolítico. Para ele, o mundo é um tabuleiro de negócios, e o BRICS representa uma ameaça comercial, diplomática e simbólica à ordem global que os EUA tentam preservar.

O Brasil precisa entender o jogo com maturidade. Não se trata de uma questão partidária ou de afinidade entre governantes, mas de posicionamento internacional. Não é a hora de comemorar “derrotas” por revanchismo político ou de minimizar os impactos econômicos das medidas adotadas por Trump. É a hora de reforçar a diplomacia, de mostrar firmeza institucional e, sobretudo, de reconhecer o papel estratégico que o Brasil ocupa no cenário global.

A resposta não virá de slogans, mas de uma política externa profissional, coordenada e autônoma. O mundo está mudando — e o BRICS é parte dessa mudança. Cabe ao Brasil decidir se quer ser protagonista ou satélite.

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A política sob Trump

Trump desestabiliza economia global através de sua política de sobretaxas.

A decisão do governo Donald Trump de sobretaxar produtos brasileiros tem sido lida, por muitos, como uma espécie de resposta aos desdobramentos jurídicos que envolvem os problemas que Jair Bolsonaro enfrenta no Supremo. Não é. A verdade é que o presidente dos EUA não age com base na lealdade a aliados, mas por cálculo estratégico, em conformidade com sua maneira peculiar de enxergar governos como fossem empresas — e a atual ofensiva contra o Brasil tem muito mais a ver com os BRICS do que com qualquer tribunal em Brasília. 

Trump nunca aceitou bem o avanço das economias emergentes, sobretudo quando organizadas em blocos que desafiam a ordem global tradicional. E o Brasil, ao lado de China, Rússia e Índia, tem papel importante na articulação de uma nova multipolaridade. A presença de Lula em fóruns internacionais, a reativação da diplomacia em defesa do Sul Global incomodam profundamente a visão trumpista de mundo. 

O que está em jogo, portanto, não é o ex-capitão, mas o país. O Brasil é visto como um ator geopolítico relevante que no momento, está nas mãos da “esquerda” — e, por isso, é alvo. Sobretaxar produtos brasileiros não é retaliação pessoal, é tentativa de desestabilizar um elo importante de um bloco que ameaça o domínio econômico do Ocidente. 

O problema é que, internamente, seguimos tratando política externa como disputa doméstica. Enquanto alguns comemoram o revés como se fosse um castigo imposto ao país por tentar enquadrar Bolsonaro, esquecemos o essencial: quem perde é o Brasil. 

De se observar que o único mérito de Lula nessa história é ter deixado seu vice, Alckmin, trabalhar. Quanto mais Lula ficar fora deste problema, melhor. Esse é o tipo de situação que pede diplomacia e política de qualidade, eo que falta ao mandatário principal, sobra ao vice.

É hora de maturidade. A resposta a Trump deve ser institucional, coordenada e estratégica — sem gritaria ideológica. Não se trata de romper com os EUA, mas de lembrar que somos uma democracia e que os poderes, portanto, não se misturam. 

A guerra de Trump é contra o que o Brasil representa no cenário global, não contra quem hoje ou ontem o governou. Se não compreendermos isso, continuaremos sendo peões em tabuleiros jogados por outros. 

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Projeto de futuro

Na corrida da vida, a largada deve ser igual para todos.

O Brasil não pode mais adiar a construção de um projeto nacional baseado naquilo que realmente transforma uma sociedade: a educação. É urgente, necessário e viável começar pela base: garantir que o ensino fundamental seja público, gratuito, universal — e, sobretudo, igualitário. 

A Constituição Federal já estabelece que a educação básica é dever do Estado, e que o ensino fundamental deve ser obrigatório e gratuito para todos. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) reforça essa obrigação. Mas a realidade ainda está muito longe da promessa. Há desigualdade profunda entre escolas públicas e privadas. E, pior, entre as próprias escolas públicas, em função de disparidades regionais, de investimento e de gestão. 

Vale esclarecer: nenhum projeto de lei em tramitação propõe o fim da rede privada de ensino fundamental, nem poderia. A Constituição garante a liberdade de iniciativa na educação, desde que respeitadas normas de qualidade e regulação pública. Mas falta fazer o ensino público cumprir sua missão de dar a todos a mesma largada na “corrida da vida”. 

Hoje, o ponto de partida é injusto. Crianças nascem com talentos semelhantes, mas têm destinos radicalmente diferentes, determinado pela sua condição social.

Universalizar um ensino fundamental de qualidade, gratuito e verdadeiramente igualitário não é uma utopia — é uma necessidade. E, mais do que isso, é o caminho mais direto e sustentável para combater desigualdade, ampliar oportunidades, reduzir a violência e melhorar a produtividade nacional. 

Só com um projeto de futuro assim, centrado na educação, deixaremos para trás tristes notícias como a que recentemente circulou, dando conta da possível falta de livros didáticos para o ensino fundamental — um escândalo!

O Brasil não precisa de promessas grandiosas nem de slogans vazios. Precisa de foco. E esse foco deve estar nas salas de aula. 

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Incentivo errado na hora errada

Transporte público pode diminuir número de carros nas ruas.

O governo federal anunciou recentemente uma nova rodada de incentivos à indústria automobilística, desta vez voltada aos chamados “carros sustentáveis”. A proposta prevê a redução da carga tributária sobre veículos menos poluentes fabricados no Brasil. Mas, na prática, trata-se apenas de mais uma forma de reduzir a carga tributária da indústria automobilística, mantendo a lógica do transporte individual.  

Essa política repete um erro histórico. Desde os anos 1950, quando o país optou pelo modal rodoviário em detrimento do ferroviário, o Brasil passou a depender do transporte sobre pneus — mais caro, mais poluente e menos eficiente. Essa escolha, na época, atendeu a interesses geopolíticos, mas nos deixou um legado de cidades congestionadas, sistemas de transporte público precários e estradas sobrecarregadas.  

Hoje, milhões de brasileiros perdem horas em congestionamentos diários, enquanto o transporte público sofre com a falta de investimentos. No Rio de Janeiro, por exemplo, a prefeitura decidiu reduzir em 20% o número de ônibus em circulação, alegando baixa ocupação fora do horário de pico. Mas o correto seria incentivar seu uso — e não punir o usuário com menos oferta.  

A pergunta que se impõe é: por que não concentrar esforços e subsídios em expandir e qualificar o transporte coletivo nas grandes cidades? Por que não criar condições para que mais pessoas usem metrô, ônibus, bicicletas ou patinetes, como já acontece em tantas capitais do mundo?  

Priorizar o transporte individual revela a falta de visão estratégica de um governo que deveria liderar uma transição urbana inteligente. É preciso repensar as prioridades. Insiste-se em um modelo ultrapassado. O futuro da mobilidade urbana deve ser coletivo, limpo e eficiente.  

Um governo só se justifica quando consegue oferecer segurança, administrar as finanças e pensar estrategicamente. Este que aí está não atende a nenhum desses requisitos. 

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Poluição visual à vista

Antes da Lei Cidade Limpa, São Paulo era tomada por anúncios.

Pipocam aqui e ali propostas à criação de Times Squares em cidades brasileiras. São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Balneário Camboriú estão debatendo o assunto. 

Como as coisas que funcionam no Brasil são pouco valorizadas, o projeto que livrou a cidade de São Paulo da poluição visual, desde 2006, não é suficientemente defendido. 

A Times Square, em Nova York, é um exemplo emblemático de um modelo urbano voltado ao consumo e à saturação visual. Faz sentido em um país cuja cultura de mercado moldou boa parte da experiência urbana.  

Mas importar esse modelo sem reflexão crítica é ignorar que cada cidade tem sua própria identidade — e que poluição visual não é sinônimo de modernidade. A experiência paulistana com a Lei Cidade Limpa provou o contrário: menos propaganda pode significar mais qualidade de vida. Em vez de reproduzir vitrines publicitárias gigantescas, faz mais sentido continuar investindo no retrofit de prédios históricos do centro de São Paulo, valorizando uma beleza que já existe e que precisa apenas ser preservada. 

A cidade não pode servir de pano de fundo para outdoors digitais gigantescos que atendem aos interesses de poucos. A paisagem urbana pertence a todos. Poluí-la com propaganda em nome de uma suposta modernização é um retrocesso. Que se inspirem boas ideias de fora — sim —, mas com senso crítico, com adequação à nossa realidade e, sobretudo, com respeito à coletividade. 

Não há “modernidade” em encher avenidas de telas. Há alienação disfarçada de progresso. Que o Brasil saiba preservar o que conquistou e não se renda, mais uma vez, ao brilho artificial de soluções feitas para encantar a vitrine e ignorar quem caminha pela calçada.