Bolsonaro dá mostras claras de que o sistema ainda o detém
O presidente Jair Bolsonaro (PL) vem dando mostras claras de que não está conseguindo romper a barreira institucional a qual ele jurou fidelidade – a Constituição.
A despeito das investidas que tem feito contra o sistema eleitoral brasileiro, discurso programado para o caso de um fracasso nas urnas nas eleições que se aproximam, e contra o Supremo Tribunal Federal, suas palavras soam ocas e o eco delas não vai para além de uma parcela da população que, não se sabe bem o porquê, decidiu transformá-lo em mito, invertendo toda a lógica republicana, que privilegia cargos e postos em detrimento de pessoas e personalidades.

A aberração é tamanha, que mesmo que alguns sinônimos para a palavra “mito” sejam quimera, absurdo, aparência, devaneio, fábula, fantasia, entre outras do gênero – parcela considerável da população a isto se agarra!
Mas é o que se tem!, e democracia demanda respeito pela opinião alheia, isto é, quando certa fatia da população resolve colocar o atual presidente no rol de um detentor de qualidades que rememoram um passado glorioso – se é que o Brasil já o teve – há que se respeitar.
E, a despeito de tudo isso, Bolsonaro sabe bem qual é o limite que não pode ultrapassar.
Alguns eventos demonstram claramente que, estivesse o presidente tão confiante no sucesso de suas empreitadas contra o sistema, certamente não gastaria tempo e energia em os promover, a menos que os mesmos pudessem ser utilizados como uma cortina de fumaça para desviar a atenção da população sobre assuntos que gostaria de ver, de fato, encobertos, ainda que a prudência aconselha a não se arriscar tanto.
A título de confirmação desta suposição, citemos três que são bem atuais:
1 – As ações judiciais junto ao TSE que o seu partido impetrou contra o PT – e contra Lula – deixam claro que a ideia é tentar tirar do jogo o principal candidato da esquerda que, aliás, tem estado na frente da corrida pelos votos.
2 – A aproximação que ele tem feito à Febraban denota um certo desespero, já que a federação também assinou manifesto a favor da democracia. Não podemos esquecer que não faz muitos dias que o chefe da casa civil Ciro Nogueira (PP) disse claramente que os bancos estavam contra Bolsonaro por causa do PIX, que supostamente havia retirado algo em torno de 40 bilhões de reais destas instituições. E ainda assim, no encontro, driblando a saia justa, tornou a criticar o que ele chama de “cartinha” a favor da democracia.
O certo é que Bolsonaro perdeu a confiança do capital. Empresários o aconselharam a não ampliar a tensão a poucas semanas das eleições – um recado claríssimo que Bolsonaro não costuma acatar – eis que acatando, demonstra fragilidade.

3 – Mas o fato que parece ser mais simbólico foi a declaração que o presidente fez, através de um twitter, sobre a recente passagem de Jô Soares. O presidente, numa rara demonstração de pesar, enalteceu a capacidade do artista de tratar, comicamente, fatos da política e da vida nacional. Na verdade, ao tratar de Bolsonaro em algumas cartas abertas que assinou no Jornal Folha de São Paulo, Jô não foi nada cômico com o atual presidente -, falou sobre nazismo, entre outras coisas não muito favoráveis a Bolsonaro.
De se estranhar que alguém que não se dignou a visitar um único hospital ou uma única família enlutada durante uma pandemia que vitimou mais de 680 mil brasileiros, de repente se sensibilize com a morte de uma personalidade que não escondia seu desapego ao presidente. Porém, devemos dar ao presidente, neste caso, o benefício da dúvida em relação às suas intenções.
Se olharmos o ato com boa-fé, talvez consigamos enxergar no carrancudo presidente visos de humanidade.
Se a tivesse demonstrado desde o início de seu governo, certamente estaria melhor posicionado na disputa eleitoral que se avizinha. Todavia, não foi o que demonstrou nesses quase quatro anos de governo.
O brasileiro é um povo que tem coração – lição que nos deixou Sérgio Buarque de Holanda.
Talvez tenha ficado um pouco tarde demais para Bolsonaro mostrar que traz um coração de carne, e não uma pedra em seu peito.
