A ELITE DO ATRASO – Jessé Souza
A OBRA E O AUTOR:

Em “A Elite do Atraso”, o sociólogo Jessé Souza enfrenta o pensamento tradicional da sociologia brasileira que prega, entre outros axiomas, o patrimonialismo, a continuidade de um feudalismo mal ajambrado português por aqui, a cordialidade do brasileiro e, por fim, a construção do paradigma do “jeitinho brasileiro”, que afinal nos impingiu o estigma de “vira-latas”, tão enunciada na obra de Nelson Rodrigues.
Nesse passo, o autor enxerga alguns de nossos principais intelectuais como colaboradores privilegiados da difusão de uma autoimagem depreciativa de nosso povo, buscando atingir especialmente as classes mais baixas – que foi batizada no livro de “ralé”.
Publicado pela “Estação Brasil”, a edição aqui resenhada foi ampliada para incluir a ascensão de Jair Bolsonaro à presidência.
É o próprio autor quem prefacia a obra e, já de início, deixa claro sua linha de pensamento ao afirmar que o maior problema do Brasil não é exatamente a corrupção política, mas o que ele define por “corrupção dos tolos”, isto é – quem corrompe de verdade faz crer que não é exatamente ele o corruptor, deixando o serviço sujo para outros.
Denuncia, dessa forma, a corrupção promovida pela elite econômica, que se faz invisível ao transferir a responsabilidade a outras classes, como os políticos ou aos mais empobrecidos da sociedade, tidos como perigosos e tudo isso com o beneplácito da grande mídia.
Jessé Souza é sociólogo graduado em Direito e mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília – UnB, doutor em Sociologia pela Universidade Heidelberg, na Alemanha, além de possuir pós-doutorado em psicanálise e filosofia pela The New School of Social Research, de New York, EUA.
ESTRUTURA E CONTEÚDO DA OBRA:
O livro está dividido em três partes.
Na primeira parte, intitulada “A escravidão é o nosso berço” o objetivo do autor é demonstrar como o pensamento de Gilberto Freyre, autor do clássico “Casa Grande & Senzala”, além de “Sobrados e Mucambos” aos seus olhos, é equivocado.
Na segunda parte, “As classes sociais do Brasil moderno” o autor enfrentou corajosamente o pensamento de autores consagrados da sociologia brasileira, entre eles, Florestan Fernandes e, principalmente, Sérgio Buarque de Holanda, este último autor de “Raízes do Brasil”.
É nesta parte do livro que explicita uma divisão das classes sociais brasileiras, o que o faz dividindo-as em “Elite”, “Classe Média” e “Ralé de novos escravos”. A Classe Média ele irá fatiar em quatro subclasses com opiniões e objetivos sociais distintos, que não convergem.
Esta parte traz capítulos com títulos fortes, como “A criação da ralé de novos escravos como continuação da escravidão no Brasil moderno” e “O pacto antipopular da elite com a classe média”.
Na terceira e última parte, “A corrupção real e a corrupção dos tolos” o autor chega ao ponto central de suas preocupações e acusa a imprensa de maneira geral e a Rede Globo, de forma particular, pela disseminação da visão de nossa classe baixa como perigosa e violenta e a classe dos políticos como saqueadores do Estado, camuflando, desta maneira, a verdadeira corrupção, que é promovida pela elite econômica, inclusive internacional.
Esta edição ainda contempla um posfácio intitulado “Um país em transe: as razões irracionais do fascismo” no qual pretende demonstrar como foi possível a ascensão de Jair Bolsonaro à presidência da República.
ANÁLISE CRÍTICA:
O projeto intelectual de Jessé Souza passa por enfrentar a corrente dominante do pensamento sociológico brasileiro. Desta maneira, traz uma visão original de nosso caminho como Nação.

Assim, além desta obra aqui analisada, outras obras do autor seguem a mesma trilha, como “A tolice da inteligência brasileira”, de 2015, “A classe média no espelho”, de 2018, “Subcidadania brasileira”, também de 2018, e um livro mais antigo, “A ralé brasileira”, este de 2009, entre outros.
De fato, ao questionar ícones da sociologia nacional como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda pode-se sugerir que o autor pretenda, confrontando-os, atrair olhares que, curiosos, lhe trouxessem reconhecimento. Mas não, – ele o faz por convicção e estudo fundamentado.
Não deixa de ser instigante como Souza conseguiu tocar em algumas de nossas feridas, como a maneira de enxergar o nosso compatriota. Autores consagrados como o economista Eduardo Gianetti também se preocupam com a força que esse nosso estigma causa em nossos humores como cidadãos.
O autor quer dizer que nós somos racistas, inconscientemente racistas de nós mesmos – e que a origem disto está não só no fato de termos sido criados dentro de uma sociedade que se constituiu escravocrata, mas que, além disto, forjou a imagem de que o negro é “o outro”, aquele que pode se tornar perigoso – assim como o pobre.
Todavia, a nosso ver, o autor escorrega ao atribuir aos pensadores do século passado uma refletida formatação desta ideia, como se esses autores tivessem sido deliberadamente “comprados” pela elite para propagar esta imagem. O autor chega a implicar a própria USP nessa trama.
Souza vai chamar isso de “racismo culturalista” – um racismo não refletido e que foi aos poucos incutido no intelecto do brasileiro, construindo assim uma visão que se naturalizou.
Mas Souza, nesse ponto, esbarra em anacronismo. Isto porque quando aquelas obras clássicas foram escritas, mormente na década de 1930, o conceito de “racismo estrutural”, por exemplo, ainda não havia sido forjado.
Querer basear sua análise em um conceito então inexistente é o problema. O termo “racismo estrutural” ganhou proeminência somente a partir da década de 1960, com o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. Portanto, algumas décadas após o lançamento das obras que Souza combate no livro aqui analisado.
Além disso, o autor faz certa confusão quando afirma que o modelo que o mundo tomou como padrão é o modelo capitalista americano. Nesse sentido, diz que a mesma postura que um brasileiro ‘classe média’ tem para com o brasileiro das classes empobrecidas, um europeu ou um norte-americano tem para com o latino, incluindo aí a este ‘brasileiro classe média’.
Ora, então esse estigma não foi criado pelos autores que ele citou. Trata-se de uma hegemonia que as classes dominantes exercem sobre as dominadas e que não ocorre somente no Brasil. O próprio autor diz no seu texto que “quem controla a produção das ideias dominantes, controla o mundo”.
Este raciocínio, aliás, remete a Noam Chomsky para quem as relações de poder estabelecidas dentro das classes sociais de uma determinada sociedade são replicadas a nível global quando se trata da relação entre os países. Aliás, antes disto Gramsci já havia denunciado a hegemonia cultural e é esse o paradigma perseguido na obra.
Portanto, o sentimento de inferioridade do brasileiro não seria resultante do pensamento dos sociólogos clássicos brasileiros, mas fruto da hegemonia cultural que aos poucos foi se consolidando no decorrer do século passado.
Assim, nossa imprensa, nosso cinema, nossas novelas de televisão, enfim, e mais que isso, nossa maneira de ensinar nossa própria História, tudo isso foi construindo essa autoimagem depreciativa. Não nos confiamos enquanto sociedade e essa imagem foi adquirida ao longo do tempo.
O que dá volume e razão a Jessé é o fato de que isso existe e precisa ser pensado, algo que deve ser encarado – o que o autor o faz com coragem e propriedade apresentando-nos a sua visão.
Concluímos afirmando a obra de Jessé Souza ainda não ganhou a dimensão que merece. Isto se dá certamente pelo fato do sociólogo enfrentar a corrente cultural dominante do país de forma tão direta. Sobra-lhe sinceridade, sua exposição é franca e direta, algo que afronta a Academia.
O que o autor nos faz lembrar é que, como qualquer povo, temos qualidades e problemas a enfrentar. Jessé Souza propõe um bom debate, e só por isso, já vale a leitura.

Eu tive a oportunidade de ler o livro e, de fato, tenho certeza que é um excelente livro e deveria ser lido por todos. E também concordo com as observações feitas aqui. Grande abraço a todos.
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