FORMAÇÃO POLÍTICA

Quem vai pagar a conta?

Ministro da Economia não consegue convencer Congresso a votar aumento de tributos

Vivemos a era do rentismo. O capitalismo produtivo, aquele que gira em torno do trabalho, da indústria e da inovação, cedeu espaço a um modelo em que o capital especulativo dita as regras. Hoje, ganha-se dinheiro sem produzir nada. Basta aplicar recursos onde os juros são mais altos. O dinheiro circula nas bolsas e nos fundos de investimento, enquanto a base da pirâmide luta para manter dignidade com salários comprimidos e serviços públicos cada vez mais fragilizados. 

Nesse cenário, qualquer tentativa de reforma tributária que busque equilibrar a carga entre consumo e patrimônio, entre os que vivem do suor e os que vivem do capital, encontra forte resistência. O discurso da responsabilidade fiscal, muitas vezes legítimo, torna-se um escudo para proteger os que contribuem pouco proporcionalmente à riqueza que acumulam. 

As propostas recentes do governo federal evidenciam esse impasse: a tentativa de aumentar o IOF foi barrada, e outras soluções apresentadas, como a tributação sobre setores mais rentáveis da economia foram imediatamente rejeitadas pelo agronegócio e pelo setor da construção civil. Em nome da competitividade e do “risco Brasil”, essas vozes se unem para manter seus privilégios — ainda que isso signifique sacrificar o equilíbrio das contas públicas e a qualidade dos serviços essenciais. 

A verdade incômoda. O modelo atual não se sustenta. As desigualdades corroem o pacto social, minam a democracia e impedem o crescimento sustentável. Mas, ao menor sinal de redistribuição, o mercado reage, a elite se agita e o debate é sequestrado por ideologias de esquerda e de direita, quando, no fundo, o dinheiro (e aqueles que de verdade o detém) não têm ideologia — têm interesses. A eles interessa, inclusive, o radicalismo político. É assim que o ambiente se torna turvo e favorece a agiotagem.

Aqui em baixo, seguimos tentando tapar buracos com cortes e emendas sem enfrentar o cerne do problema: quem realmente deve pagar a conta não aceita sequer entrar na conversa. E, se nada mudar, o custo será de todos — especialmente dos que já pagam demais. 

O corte de benefícios sociais já é, em si, uma forma de repassar a conta aos mais necessitados. Essa é a lógica. O processo carece de humanidade. Vai chegar a hora em que nem o Estado irá resistir. 

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