Blog – Formação Política

FORMAÇÃO POLÍTICA

Rui Barbosa

Há cem anos o jurista e republicano Rui Barbosa deixava este mundo. Lutou para construir um país regido por leis, não por privilégios. Sonhou ser presidente da República.

Busto de Rui Barbosa no Palácio da Paz, em Haia.

Rui Barbosa enxergava a escravidão como o maior mal do país. Certa vez, vaticinou: “A abolição da escravidão, quer o governo queira, quer não queira, há de ser efetuada num futuro próximo”. Visto agora, parece óbvio mas naquele momento, com a forte resistência dos ‘senhores de terra’, isto era um sonho distante.

Quanto à República, via como o único regime capaz de fazer do Brasil um país melhor. Naquele tempo já se questionava como este gigante não conseguia impor sua estatura em benefício de seu povo.

A abolição da escravatura finalmente aconteceu (não como ele queria, é bem verdade), apenas um ano antes da proclamação da República.

Já com o país vivendo sob o novo regime, emprestou seus conhecimentos para ajudar na elaboração de nossa primeira constituição republicana. 

Curiosamente, o baiano ocupou o cargo de ministro da Justiça interinamente e por apenas três dias (entre 15 e 18 de novembro de 1889). Por quê será?

Escalado para colaborar como ministro da Economia enfrentou a crise do encilhamento, o que lhe causou profundo desgaste.

Percebeu que a república não nascia como sonhou. Buscou seu próprio caminho e candidatou-se à presidência. Foi batido pelo sistema. 

O Brasil infelizmente tem padecido deste mal – em momentos determinantes para o nosso futuro, “algo” nos conduz ao pior caminho.

Seguimos nossa saga. Um gigante que não consegue dar vida digna ao seu povo mais necessitado.

Entre erros e acertos, Barbosa fez sua parte. Sempre é tempo de acertar o passo. Façamos a nossa.  O momento é propício para refletirmos sobre como estamos colaborando – votar com responsabilidade é só o primeiro passo.

É preciso acompanhar o que nossos políticos estão fazendo. Não somente o Executivo mas, em especial o Legislativo. É de lá que vem, historicamente, as nossas piores mazelas.

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Hora de trabalhar

Retórica de que houve golpe é perda de tempo e de capital político. Lula precisa se concetrar em trabalho se quer mesmo limpar sua biografia.

Página oficial do Planalto trata impeachment de Dilma como “golpe”

É absolutamente inaceitável a postura de Lula e de seu partido, o PT, no tratamento que pretendem dar em relação ao impeachment de Dilma Rousseff, acontecido em 2016. O objetivo é tentar promover a alteração dos fatos, transformando o processo de deposição da ex-presidente em golpe. 

De se perguntar qual a utilidade disto, especialmente neste momento em que o governo trabalha a construção de uma base parlamentar no Congresso. Lula desperdiça energia e capital político agindo assim.

Além do mais, utilizar-se de veículo de comunicação oficial para propagar uma versão idiossincrática dos fatos é algo que se aproxima perigosamente de má-fé.

Lamentável que um governo que acaba de vencer as eleições – não necessariamente porque o povo o escolheu mas porque o eleitor preferiu rejeitar algo muito pior – agora se aventure em falar bobagens. 

Lula tem muito a conquistar em termos de credibilidade diante do cidadão brasileiro. Devia se concentrar nisto, e não em remexer feridas que precisam se cicatrizar.

Ou prefere manter os brasileiros em pé de guerra? Irresponsabilidade!

O processo de cassação de Dilma Rousseff seguiu todos os requisitos legais exigidos pela Lei. Desta maneira, a retórica do partido de Lula ignora os fatos. 

Se existe uma elite que em determinado momento pretendeu destituir o PT do poder porque este estava proporcionando melhoras de vida para a classe baixa da população, ela se aproveitou, na verdade, dos erros e desmandos cometidos pelo próprio PT – ninguém virou a mesa.

Seria bom que Lula e seu partido, ao invés de amargar ressentimentos, compreendessem que têm um país fissurado para administrar. São servidores, não déspotas.

Chega de lorota e mãos à obra!

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O rei Arthur

Protagonismo do presidente da Câmara dos Deputados deixa exposta a responsabilidade do Legislativo pelo atraso do Brasil.

Lula teve de ceder para acelerar a votação da PEC da Transição.

Bolsonaro iniciou seu mandato dizendo que iria governar sem o apoio de partidos políticos. Pretendia trabalhar as bancadas que já havia elegido como prioritárias – da bíblia, da bala e do boi (bbb). Imaginou que a popularidade conquistada nas urnas garantiria-lhe força suficiente para enquadrar o parlamento. Seus primeiros sinais de pretenso ditador logo se desvaneceram.

Quando decidiu ceder para fugir às ameaças de um prematuro processo impeachment, a fatura veio alta. Não pôde oferecer resistência ao “orçamento secreto” que acabou por transformar o presidente da Câmara Arthur Lira (PP) no regente dos destinos do país. Político perspicaz, Lira não encontrou adversário quando tentou a reeleição, já em 2023.

Lula, que durante sua campanha eleitoral chegou a se referir sobre as emendas do relator como um “assalto ao dinheiro público“, logo esmoreceu nas críticas. Da cadeira que ocupa, no Planalto, sua visão ficou diferente. Agora ele as vê como uma “época pobre da política”. Promete trabalhar para recompor uma relação republicana com o Parlamento. Oxalá consiga.

Neste momento, diante das benesses concedidas pelo governo para que Lira possa agradar os novos deputados e, desde já, cooptá-los, o alagoano deu a partida à Reforma Tributária criando um grupo de trabalho com doze deputados que irão analisar as propostas já existentes.

O que o atual governo quer com isso é viabilizar sua agenda.  Além da Reforma Tributária, o governo tem a definição de um novo arcabouço fiscal que venha a substituir o atual “teto de gastos” como objetivos imediatos.

Arthur Lira tem dito que, quanto à reforma tributária, esta deve se limitar ao que ‘é possível’ no momento. Mas, quem define o que seria esse “possivel”?

O ponto positivo que emerge do protagonismo que a Câmara dos Deputados tem alcançado sobre a presidência de Lira é que a responsabilidade do Legislativo ficará exposta.

É no parlamento que reside o maior entrave para os progressos materiais que o povo brasileiro merece, mas que tanto demora. Somos um país rico de gente pobre e nosso parlamento é responsável direto por isso – sempre foi. 

Acontece que, como são muitos os deputados e senadores, a responsabilidade acaba ficando difusa. O eleitor mal se lembra em quem depositou sua confiança para representá-lo na Câmara dos Deputados em outubro passado!

No momento, Lira se sobressai. Quanto maior o poder, maior será a cobrança. O governo é composto de um todo – Executivo e Legislativo.

Até aqui, o Parlamento tem sido hábil em atribuir a responsabilidade por nossas mazelas ao ocupante do Planalto. Isso tem de mudar. O véu está caindo.

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O golpe Tabajara

Fica cada vez mais claro que o 08 de janeiro foi um golpe articulado para se tentar derrubar um governo constitucionalmente eleito no Brasil. E fica cada vez mais clara a desorganização e falta de articulação desta turma que tentou o impetrar.

Tentativa de golpe se resumiu a desrespeito e destruição de patrimônio público.

Após as confusas declarações de um senador da república, Marcos Do Val (Podemos-ES), o Ministro do Supremo Alexandre de Moraes acabou por batizar a intentona como um Golpe Tabajara”.

Dias destes, o comediante Humberto Aranha, ex-integrante do programa humorístico da TV Globo Casseta e Planeta, publicou um artigo na Folha de S. Paulo contando-nos como o termo “tabajara” ganhou o significado atual.

Nome de tribo, passou a ser relacionado com “coisa mal feita ou vagabunda”. Termina o texto com uma questão instigante: “O Brasil é Tabajara ou as Organizações Tabajara são o Brasil?”.

Não há dúvida de que a semântica, para a tentativa frustrada é perfeita. O que aconteceu em Brasília naquele triste domingo foi exatamente isto – uma coisa mal feita e vagabunda.

A questão passa por admitir ou negar que o Brasil, como um todo, se resuma a isso. 

Não podemos esquecer que os Estados Unidos também passaram por um evento tão vergonhoso e mal organizado quanto o nosso – aliás, o 08 de janeiro já era previsto. A repetição do que ocorreu por lá já era esperada por aqui. Seriam os Estados Unidos Tabajara?

O Brasil é mais que isto. As pessoas que acordam às 5 da manhã e enfrentam um dia-a-dia complicado por deficiência de transporte público, entre outras mazelas, não estavam em Brasília naquela ocasião. Elas estavam descansando para mais uma semana de trabalho.

O Brasil não é Tabajara. Nem as Organizações Tabajara são o Brasil. O Golpe, sim, foi Tabajara.

Precisamos superar este nosso incômodo “complexo de vira-latas” que nos foi legado por Nelson Rodrigues. O ideal é entender, como quer o economista Eduardo Gianetti que ser vira-lata não é algo necessariamente ruim, nossa capacidade de resiliência prova isto.

Somos um povo miscigenado – nossa formação é universal. Se procuramos por vezes burlar as regras é porque não confiamos no Estado, que deveria fazer cumprir as normas que ele mesmo criou. Ao negligenciar suas funções, obriga o povo a “se virar” sozinho – assim, temos um Estado covarde que pune seletivamente.

A pureza que nos falta no sangue nos tornou um povo criativo. Basta que nossos governantes trabalhem em prol do povo e não para atender as eternas demandas das elites. Só assim as nossas gritantes diferenças sociais irão diminuir, e o nosso povo sofrido poderá finalmente se livrar deste famigerado “jeitinho brasileiro”. Sem confiança e apoio do Estado, impossível.

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O novo parlamento toma posse

Apesar de manter os mesmos presidentes em ambas as casas, o contexto atual é outro. Reforma Tributária e consolidação da Democracia são prioridades.

Arthur Lira (PP) e Rodrigo Pacheco (PSD) foram reconduzidos ao cargo.

Finalmente os novos ocupantes e os reconduzidos à Câmara e ao Senado tomaram assento para um novo mandato, que se estenderá pelos próximos quatro anos para os deputados e oito anos para os senadores.

Imediatamente se promoveu a eleição dos presidentes que conduzirão as casas legislativas pelo próximo biênio.

Na Câmara dos Deputados a vitória de Arthur Lira (PP) já era esperada. Estranho é ter sido concedido a ele uma votação tão generosa. Seria a vitória mais folgada que se tem notícia fruto das benesses que o alagoano conseguiu entregar aos seus pares, através do “orçamento secreto”? Se sim, o cenário é preocupante.

Olhando com pragmatismo, Lira soube trabalhar pelo aumento da importância relativa da Câmara. Conseguiu, diante das fraquezas do último presidente da República fazer crescer o peso da Casa que comanda, especialmente no que diz respeito à distribuição de verbas aos deputados que, assim, podem utilizá-las em suas bases eleitorais, aumentando as chances de um parlamentar se reeleger e manter-se nas comodidades de Brasília.

É acusado, todavia, de ser autoritário, fazendo impor sua própria agenda, voltada exclusivamente para o aumento de seu próprio poder. Isto é, para ter acesso a mais verbas, também os deputados entregam ao presidente da casa um poder que, a rigor, não deveria ter. Uma aberração.

Já no Senado a disputa foi mais acirrada e exigiu que Lula, já eleito, agisse. Tentou-se transformar o Senado em uma barricada bolsonarista, uma esperança de manter o embate entre os poderes em pauta. 

Portanto, a Câmara não era problema já que Lira, expoente do centrão iria se acomodar a qualquer governo, de maneira que qualquer governo a ele se acomodasse.

Foi no Senado que Bolsonaro investiu, ainda durante o período eleitoral, todo o seu capital político. O capitão contava reeleger-se presidente e, com a Câmara sob Lira, pretendia trazer o Senado também para sua área de influência. Após perder as eleições, a câmara alta virou questão de sobrevivência política.

Se conseguiu eleger nomes importantes ligados ao seu enclave político, não elegeu a si próprio. Precisava fazer o presidente da casa para se assenhorear da agenda do Senado. Não conseguiu. Vai ter de repensar suas estratégias.

Rodrigo Pacheco (PSD) na condição de presidente do Congresso no biênio 21/22 foi essencial para manter o pacto institucional da divisão dos poderes. Prometeu continuar a cruzada. 

Em entrevista concedida logo após sua vitória, o senador mineiro garantiu que não será subserviente ao Executivo. É o papel do Parlamento, do qual ele preside. É o mínimo que se espera.

Harmonia entre os poderes e preocupação com as pautas do país – entre elas, uma Reforma Tributária que permita um robusto desenvolvimento econômico, por outro lado, são essenciais.

Na fala, Pacheco pediu, ainda, para que os problemas políticos sejam resolvidos entre os políticos, no âmbito da política. Lembrou que se o Judiciário está politizado, é porque muitas vezes são os próprios políticos que levam suas pautas para lá. Tem razão.

É preciso amadurecimento institucional. Se a passagem de Bolsonaro pela presidência distendeu e colocou em risco a democracia, ao final, nossa Democracia pode ter saído fortalecida.

Não se pode negar que, em uma democracia, é muito importante para o governo ter a maioria no parlamento, bem como o apoio dos presidentes das duas casas para fazer seus projetos andarem. 

Mas é do próprio sistema a existência de uma oposição que saiba conter, com responsabilidade, os ímpetos governistas – governar sem oposição nunca será um bom cenário – a sociedade é plural.

Não é hora de recomeçar, é hora de continuar a dura caminhada que o jogo democrático impõe. Trilhar sobre as regras constitucionais, sem atalhos, é mais difícil mas, ao final, é o único caminho viável para uma Nação desigual e injusta como a nossa.

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A primeira viagem de Lula

O Presidente Lula fez de sua primeira viagem internacional um momento de epifania da esquerda. Melhor seria se aproveitasse as oportunidades que tem tido para unir o país.

Lula discursa na cúpula da Celac, realizada em Buenos Aires.

Lula da Silva assumiu sua terceira passagem pelo Palácio do Planalto e dias depois enfrentou uma intentona que deixa cada vez mais claro se tratar de uma tentativa real e orquestrada de golpe. Um golpe de estado que visava destituí-lo do poder.

Após isso, precisou promover um movimento arriscado para a substituição do comandante do Exército, colocando no cargo uma pessoa que tem um discurso mais democrático – aquele discurso correto que prega que o resultado das eleições deve ser respeitado.

Mas Lula ainda tem desafios a enfrentar, especialmente junto ao Exército. Tem muito oficial que não se conforma com a derrota de Bolsonaro e que toparia a aventura de um golpe de estado.

Enquanto a Procuradoria da República procura denunciar aqueles que participaram dos atos do dia 8 de janeiro, incluindo aí os que o planejaram e o financiaram, e enquanto o Judiciário se esforça para dar efetividade à caça aos golpistas, o presidente embarcou para sua primeira viagem internacional, cujo destino foi a Argentina com posterior passagem pelo Uruguai.

Na verdade, não foi uma viagem com a intenção de reaproximação com os nossos vizinhos. Foi uma “viagem” à esquerda, totalmente desnecessária neste momento grave. O momento é o de buscar apaziguar os ânimos no seu próprio quintal. 

Se Lula se apressou em reafirmar a amizade com a Argentina, esqueceu-se de que tem de refazer seus laços com milhões de brasileiros que o querem ver pelas costas.

Se ao deixar a presidência quando de sua primeira passagem, o presidente deixou índices invejáveis de aprovação e popularidade, esse não é o cenário atual – está muito distante disso e o país está dividido.

Reunir-se com figuras como Alberto Fernandez (Argentina), Luis Arce (Bolívia), Gabriel Boric (Chile), Xiomara Castro (Honduras), Mario Abdo Benitez (Paraguai) e Gustavo Petro (Colômbia), todos de coloração esquerdista somente reforça o discurso dos insatisfeitos. 

De se lembrar que Maduro (Venezuela) só não deixou Caracas por receio de ser detido na Argentina. Os Estados Unidos o querem preso. Não fosse isso, teríamos uma foto de Lula e Maduro estampando a capa de nossos jornais – pura provocação!

Anunciar que o BNDES passará a financiar obras em países da América Latina só faz reacender uma das principais críticas a seus governos anteriores. Falar em moeda comum – o Sur – neste momento somente reforça a desconfiança de suas reais intenções de governo.

Chamar o impeachment de Dilma Rousseff de golpe é outra insanidade que causa indignação àqueles que procuram se agarrar à normalidade institucional.

O discurso de bolsonaristas em particular e de antipetistas no geral visa combater exatamente isso. E aí que encontra-se o germe do pensamento anti-lulista.

Lula deixou Brasília para reforçar aquilo que deveria a todo custo evitar. Nada ganha e apenas reforça o discurso daqueles que têm má vontade em aceitar o seu governo.

Falta prudência e sobra prepotência a Lula neste início de mandato.

Uma postura adequada não o impediria de visitar a Argentina (se bem que Fernandez esteve em Brasília dias atrás!). Todavia, o atual presidente deveria se esmerar mais em tentar unir os brasileiros – e não dividi-los. Mesmo lá, poderia ter usado um discurso de união. Trata-se de preciosas oportunidades que vão se perdendo. 

Já que o assunto ‘religião’ esteve tão em alta durante a corrida eleitoral, não será demais lembrar o que está na Bíblia: “aquele que não une, espalha”.

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Não se quer reformar nada

O ministro da economia Fernando Haddad sinalizou que a reforma tributária deve ser fatiada e iniciar-se pela tributação sobre o consumo, deixando a tributação sobre a renda para um momento posterior

Milionários prostestam para pagar mais impostos

Então, de saída já se percebe que insiste-se em manter uma tributação regressiva, cujos beneficiários são os mais ricos em detrimento da imensa massa de colaboradores, os consumidores cada vez mais empobrecidos.

Isso porque a reforma sobre o consumo nada mais fará do que aglutinar alguns impostos e diminuir algumas obrigações acessórias no sentido de tornar o sistema menos complexo mas, ao fim e ao cabo, continuará a tributar excessivamente o arroz e o feijão que o brasileiro põe na mesa.

Uma reforma muito mais simples – e justa – diz respeito à tributação sobre a propriedade e a  renda. E não há motivo para não a fazer. O que falta é coragem para encarar os obstáculos. 

A resistência a reformas é enorme por parte de setores privilegiados. Todas as vezes que se fala em reforma tributária, aqueles que atualmente se beneficiam do desenho atual de imediato se mobilizam. Se a ideia é, de fato reformar, não dá para continuar privilegiando os já privilegiados.

O setor do agronegócio, por exemplo, já farejou que o governo anda de olho nele e já se movimenta para dificultar a vida do Ministro no Congresso. Para o setor, haverá aumento da carga tributária em insumos, nas vendas de produtos agropecuários e também na cobrança de Imposto de Renda na atividade rural. Também o setor de serviços torce o nariz.

Ora, mexer na tributação sobre o consumo, além de mero rearranjo, sempre encontra forte resistência quando as discussões chegam no parlamento. O caminho é mexer no tributo sobre a renda e sobre a propriedade.

A nível global, não é a primeira vez que mi e bilionários pedem para serem mais tributados. Ao final do Fórum econômico de Davos, nosso ministro da economia, que lá esteve,  certamente teve acesso a um manifesto no qual mais de duzentos super-ricos de vários países sugerem que governos devem tributá-los mais. 

Nem precisava estar lá, eles o fizeram através de uma carta-aberta. Infelizmente nenhum brasileiro assinou a carta. Em um país com uma das maiores desigualdades sociais do planeta, nenhum dos nossos milionários se dispôs a ao menos assinar o documento. 

Não há outro caminho. Se este governo de fato pretende tornar a vida do brasileiro menos desigual é necessário que se faça uma mudança profunda no modo como a renda é tributada neste país – abrindo espaço para desonerar o consumo. Nossa Constituição, que é de 1988, previu que deve haver tributação sobre grandes fortunas. E até hoje, nada!

Sem enfrentar de frente este desafio, qualquer reforma pode ser vista como mera perda de tempo e de capital político. Lula disse, dias atrás, que é preciso colocar o pobre no orçamento. “Vamos diminuir [o imposto de renda] para o pobre e aumentar para o rico”, vociferou um corajoso presidente. A largada não foi dada neste sentido.

A verdade é que quem pode, mostra as garras e se posiciona para continuar a pagar  proporcionalmente menos. Convenhamos: assim não se quer reformar nada.

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Exército precisa se posicionar

Parece que ainda não ficou muito claro para os radicais que clamam por golpe o fato de que, nas palavras do presidente eleito Lula da Silva “golpe não vai ter”. Felizmente, não há condições sociais para isto, a sociedade não o toleraria e os militares – ao menos suas cabeças pensantes – sabem disto.

Lula se reúne com demais poderes constituídos – ausência notada das Forças Armadas.

Portanto, o que parece faltar nesse momento grave, é um aviso claro e inequívoco para parte da população que insiste em retroceder no tempo, de que os militares não irão afiançar uma aventura desse porte.

Passada uma semana da tentativa fracassada – e absurda – de tomada do poder por extremistas bolsonaristas, as coisas tendem a se acomodar.  

Presos em flagrante estão confinados e necessitam se defender. Outros mais de mil participantes daquela barbárie que foram indiciados, responderão pelos atos de que participaram no dia 08 de janeiro – terão de contratar advogado e enfrentar um processo desgastante e de final incerto. 

Há guerra de versões sobre quem são os verdadeiros responsáveis por possibilitar o descalabro – onde e porquê a segurança falhou.

Mas o ponto nevrálgico, sabe-se, é atingir quem, de fato, financia e incentiva tais aventuras. Isto demanda um pouco mais de inteligência e investigação. O processo está em curso.

Acontece que este tipo de loucura só se tornou real porque o comando das forças armadas, em especial o Exército Brasileiro foi muito leniente em relação aos acampamentos que foram montados na porta de suas unidades, de norte a sul do país.

Já foi dito que estes acampamentos nada mais eram do que “incubadoras de terroristas”. Não tardou para a materialidade se consumar. 

Desta maneira, cabe às forças armadas em geral e ao Exército brasileiro em particular colocar fim a estes devaneios. Mas não basta desmobilizar os acampamentos – o que já foi feito. É preciso ser mais claro.

A reunião que o presidente Lula fez com os presidentes do poder legislativo, com a presidente do STF e com os governadores (ou representantes deles) das vinte e sete unidades da federação na segunda-feira, dia 09 deixou claro que o poder civil não vai se curvar a ameaças.

Destaque para as palavras do governador eleito de São Paulo, Tarcisio de Freitas (Republicanos) que, mesmo sendo um bolsonarista declarado, repudiou veementemente os atos e se posicionou firmemente em defesa da Democracia. Falta o Exército fazer o mesmo.

As Forças Armadas deveriam ter participado desta reunião. A palavra de seus comandantes, nesse momento, seria de grande valia. Mas, antes tarde do que nunca – já passou da hora de o Exército resolver suas diferenças internas e dizer, afinal, de que lado está.

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Turismo deveria ser coisa séria

País não aproveita o seu potencial turístico. A entrega da pasta em troca do apoio recebido durante campanha logo se mostrou uma péssima escolha.

Ministra do Turismo é responsável pela primeira crise do novo governo Lula.

A escolha de Daniela Carneiro (União Brasil) para ocupar o cargo de ministra do Turismo objetivou suprir apenas as necessidades políticas de Lula – prestigiar o apoio recebido durante a campanha, pelo marido de Daniele, chefe do União Brasil no estado do Rio; cumprir com sua quota de mulheres no primeiro escalão de governo e, por fim, dar a Luciano Bivar, presidente do União Brasil, mais um ministério. O caso virou um problemão.

Acontece que escolhas feitas neste nível de descuido não podem levar a outro caminho senão a uma prematura exposição do governo em um momento em que este ainda tenta se firmar sobre os próprios pés.

De se lamentar, em especial, que esta escolha tenha se dado em uma pasta que historicamente já é tão desvalorizada no Brasil – é vergonhoso o desempenho do país no campo do Turismo internacional – um país com nossas dimensões, recheado de atrativos naturais e riqueza multicultural simplesmente não consegue decolar. Isso deveria corar nossos governantes.

Não é por outra razão que nossos números no setor são irrisórios. Com exceção do chamado ‘turismo interno’, no qual o Brasil tem melhorado de posição no ranking mundial, ocupando atualmente o 11ª lugar, a entrada de turistas estrangeiros no país continua capengando. Isso se dá por uma série de motivos, mas especialmente devido ao quesito segurança. As pessoas não conseguem sentir-se seguras no Brasil!

O país fechou o último ano com algo em torno de 4,2 milhões de turistas estrangeiros. A França recebe aproximadamente 90 milhões de turistas ao ano e o México 45 milhões.

Nossos governantes parecem impedidos de enxergar o potencial turístico que o país tem – uma indústria que não polui e que, ao contrário, necessita preservar. Nossas atrações são essencialmente naturais, aliás, aquilo que o mundo anda afoito por consumir.

Por outro lado, o próprio currículo de Daniela demonstra o quão desprestigiado o turismo é no Brasil. Daniela é formada em pedagogia e professora do ensino infantil. Ocupou a pasta de Assistência Social de Belford Roxo, onde o marido é prefeito e foi secretária de Educação do Rio de Janeiro. Como parlamentar, participou da comissão de Educação, Seguridade Social e Família e Defesa dos Direitos da Mulher – nada muito ligado ao Turismo.

Para um governo que já se esforçou no passado por trazer a Copa do Mundo e as Olimpíadas ao país, a escolha atual parece um estrondoso retrocesso. Tomando por base a escolha de Lula para a pasta, não dá pra sentir a menor saudade dos ministros de Bolsonaro.

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A posse da discórdia

Festival pode soar a provocação.

A posse de um novo presidente, em nosso regime, é um momento recheado de simbolismo. Lula já sentiu essa emoção no passado e pretende rememorar o sentimento.

É inclusive esperada a presença de diversos chefes de estados de países importantes para as relações internacionais do Brasil, como Alemanha, Argentina, Espanha, Portugal, o que por si só já demonstra a importância do retorno do petista ao Planalto – uma certa sensação de alívio.

Todo o cerimonial está sendo pensado para que Lula possa transmitir uma mensagem de esperança ao povo brasileiro – e ao mundo. Assim espera-se a presença de mais de trezentas mil pessoas na Esplanada dos Ministérios, em Brasília para acompanhar o evento.

Todavia, a par da parte oficial do cerimonial de posse, está previsto uma festa popular intitulada “Festival do Futuro”, no qual dezenas de artistas – com coloração claramente de esquerda, se apresentarão e com certeza se manifestarão. 

Isto certamente vai soar como uma provocação desnecessária aos derrotados do último pleito eleitoral. O clima em Brasília já está tenso, especialmente depois da descoberta de um plano que pretendia explodir uma bomba no caminho do aeroporto da capital.

Talvez seja sim o caso de se comemorar a suposta vitória da democracia sobre as ameaças golpistas que rondaram o mais alto escalão de poder do país por longos quatro anos. Mas é certo que esse não é o momento mais adequado para grandes comemorações – sim, infelizmente, esse festival nesse momento é inoportuno. 

O simples fato de Lula retornar à presidência não significa, necessariamente, que o povo brasileiro vai, como querem fazer crer os partidários do novo mandatário, reconquistar a alegria. Aliás, fica o alerta de Vinicius e Toquinho, “dia de festa é véspera de muita dor” – cuidado com a ressaca! 

Há, na verdade, muito trabalho pela frente. A julgar pelos primeiros passos de Lula, o governo já não começa bem.  Um Congresso profundamente fisiológico continua a mandar nos destinos do país e o Judiciário permanece na sua cruzada de interferir na política nacional. Quanto ao povo, esse segue dividido. 

Nesse momento, a única coisa que esta festa fará é atiçar ainda mais a ira daqueles que precisam assimilar a derrota e trabalharem com vistas ao futuro. Esse ‘festival’ mais desune do que une. Definitivamente, esse festival não é o que nosso país precisa neste momento.

Nosso país precisa de trabalho sério, corajoso e despido de qualquer coloração partidária – nosso país precisa se reencontrar com a paz e com a vontade de crescer.