Blog – Formação Política

FORMAÇÃO POLÍTICA, Introdução à Política

Introdução à Política – Capítulo 11

PARA O BRASIL AVANÇAR –

O Brasil tem jeito!

Nosso país tem pouco mais de quinhentos anos desde o seu descobrimento. Mas completou duzentos anos de vida política independente apenas em 2022. Eu e você estamos construindo o Brasil, fazendo parte de um processo que se iniciou em 1500 e que continua através do tempo. Muitos colaboraram e já se foram. Este é o momento de nossa colaboração. Um dia, também iremos e pretendemos deixar um país melhor para os futuros brasileiros.

A origem dos problemas que assolam a política brasileira pode ser encontrada no período colonial. Minha proposta aqui não é a de diagnosticar problemas – eles já foram devidamente dissecados e entendidos. A ideia aqui é a de colaborar com o debate que tem por objetivo apresentar um caminho para o Brasil avançar.

Eis os problemas de nossa política – patrimonialismo e clientelismo são os principais.

Parto do princípio de que o problema do Brasil não é o seu povo, é a sua política. Muitos querem atribuir nosso problema de mau desenvolvimento econômico e social ao caráter do povo brasileiro. Esta é uma falácia que precisa ser denunciada e superada.

Para colaborar com esta afirmação, proponho a você o seguinte exercício de imaginação:

Compare um menino pobre, que muitas vezes sai de casa pela manhã para “se virar” pelas ruas, que não tem pai ou mãe que lhe garanta segurança, alimentação ou escola, com um menino de classe alta ou média. Em uma situação de necessidade, qual dos dois irá se sair melhor diante de um desafio que a vida naturalmente a todos impõe?

Enquanto o menino de rua irá até roubar para comer, isto é, quebrar as regras, o menino da classe média não precisará se arriscar porque sabe que seus pais logo vão lhe garantir as necessidades. Podemos, por isto, acusar o menino que não tem nenhum suporte de ser bandido?

Uma criança cuja família lhe dá o apoio necessário para desenvolver suas habilidades, seja em que área for é uma criança mais propensa a aceitar as regras porque sabe que essas regras, no fim, existem para lhe garantir direitos.

Por outro lado, uma criança que não tem seus direitos garantidos sabe que tem de quebrar regras, do contrário, estará prejudicado. No Brasil, e em vários países, as regras não foram pensadas para eles.

E o pior. Essa criança, no lugar de escutar elogios e incentivos, só escuta – inclusive de seus pais – que ele é um imprestável, um malandro, aproveitador, culpado pela situação que aquela casa se encontra. Quanta crueldade!

Sim, o brasileiro comum é esta criança que não encontra apoio do estado e cuja própria cultura lhe impõe a alcunha de malandro.

O outro menino pode ser o europeu ou o norte-americano – tem um estado que lhe garante segurança, e tem educação suficiente para saber reclamar seus direitos – aqueles que o estado lhe deve por pagar impostos. Assim, não precisa furar a fila porque sabe que se alguém pretender ser mais esperto do que ele, o Estado lhe restituirá o seu direito.

O brasileiro não tem essa sensação. Por este motivo habituou-se a furar a fila. Se ele não garantir por si o seu direito, não há Estado para o proteger. Depois vem um pensamento covarde e coloca a culpa disto no caráter do brasileiro – a raiz disto é mais profunda.

O brasileiro não é malandro, o brasileiro é um órfão de Estado.

* * *

Em uma linha rápida de raciocínio podemos dizer que quando o europeu aqui chegou veio para explorar. Verificando os diversos ciclos econômicos pelos quais o Brasil passou em seus primeiros momentos, observamos que todos eles serviram apenas para retirar riqueza daqui e transferi-la para a Europa ao mesmo tempo em que privilegiou, através da legislação, uma elite vinda daquele mesmo continente. Foi assim com o Ciclo da Cana de Açúcar, com o Ciclo do Ouro ou com o Ciclo do Café.

A riqueza aqui produzida sempre foi transferida para fora e colocada no bolso de alguns poucos privilegiados que, de uma maneira ou outra, produziram a legislação que aqui dentro vigorou, renegando direito ao povo mais pobre e sem educação. O Estado brasileiro sempre sonegou educação de verdade ao seu povo.

Outro ponto, decorrente disto é a negação do “ser” brasileiro. Isto é terrível. Afinal de contas, quando acusamos o brasileiro de ser malandro, colocamo-nos fora desta condição. Do contrário, estaríamos assumindo ser malandros.

Peço que, para prosseguir na leitura, você se responda à seguinte indagação. Qual é a sua descendência? Entre o final do século XIX e início do século XX, o Brasil recebeu milhões de imigrantes, entre eles portugueses, espanhóis, italianos, alemães, japoneses.

Perceba com que orgulho muitos se dizem ‘italianos’, ‘portugueses’ ou ‘espanhóis’ e, assim, renegam sua naturalidade de brasileiros – porque nascidos aqui! Os ‘japoneses’, inclusive, possuem até um nome específico para cada geração. Os imigrantes são os issei, depois vem os nissei, sansei, yonsei, gossei, shichissei. Quando vão se tornar, afinal, brasileiros?

Por favor, não estou os criticando, estou apenas demonstrando que quando pensamos no brasileiro como malandro, dificilmente nos assumimos como tal mas, se o brasileiro é malandro, de qual brasileiro estamos falando?

Quando o europeu aqui chegou os índios já haviam ocupado esta terra, dividido em diversas nações cujos limites territoriais eram totalmente diferente do formato de nosso Brasil atual.

Depois veio o europeu na condição de ‘homem civilizado’. Ao perceber que o índio era insuficiente para atender a suas demandas colonialistas, este homem civilizado escravizou pretos que trouxe à força da África, diferentemente do europeu ou do asiático que veio por opção.

Mais tarde, quando a escravidão – até por conveniência das potências europeias – se tornou um problema para a indústria que nascia na Inglaterra, decidiu-se, no lugar de oferecer uma oportunidade ao negro que aqui já se encontravam, chamar os europeus, que estavam em dificuldades por lá, para povoar o país.

Os imigrantes europeus encontraram condições de cultivar a terra e depois adquiri-la.

Quanto aos negros, agora na condição de libertos, foi apresentada a dureza das ruas – transformaram-se nos órfãos de Estado, junto com os índios, praticamente dizimados e reduzidos aos rincões das altas florestas, hoje também pleiteadas pelos mineradores e destruidores de mata nativa.

E ainda assim, de alguma maneira, esta gente toda se misturou. Fica a pergunta: de qual brasileiro estamos falando? O problema é o povo brasileiro, ou o problema é o Estado, regido por nossa política?

Porque, pensando bem, para o Estado é bem conveniente quando nos acusamos de malandro, não é?

Ora, se ‘eu brasileiro’ sou malandro. Se ‘eu brasileiro’ me aproveito de situações para tirar vantagem, como poderei, nessa condição, acusar meus governantes de não atenderem aos meus direitos?

E, por mais que esse ‘eu brasileiro’ malandro seja o outro – porque eu sou descendente de europeu ou asiático – no fundo eu também lá cometo meus deslizes, porque é impossível viver com um Estado deste sem cometer nenhum deslize.

Desta maneira, o brasileiro cala-se, aceita um Estado covarde que lhe nega direitos e lhe cobra muitos impostos, acusa seu compatriota de ser malandro e, bem no fundo acaba por admitir que também comete lá seus pecados.

E, no fundo, o brasileiro passa a por ser esse alguém não identificável – porque por aqui ou se é europeu ou se é negro ou se é índio – e identificado apenas pelo traço da malandragem, que é sempre maior no outro do que em mim.

É uma situação de total orfandade – órfão inclusive de identidade. Como trabalhar para o bem comum de uma sociedade assim? Não se confia em ninguém, do governo ao vizinho. O brasileiro precisa se encontrar e se assumir.

Por este motivo, tudo aquilo que se diz do caráter do povo brasileiro, deixo de lado. Penso que todas as mazelas que acompanham a personalidade do brasileiro têm origem no Estado que o brasileiro não tem. O brasileiro, repito, é um povo órfão de Estado.

Então, como mudar esta situação?  Como dar aos brasileiros um Estado que lhe garanta seus direitos?

Esta questão é importante porque somente assim nosso país irá avançar.

* * *

MATURIDADE INSTITUCIONAL

Um grande problema que temos atualmente é o de que nossas instituições não estão devidamente consolidadas.

A maturidade institucional funciona como uma amálgama que une os diversos atores sociais em um corpo organizado, que garante estabilidade e credibilidade a um ente chamado Estado. É com o tempo que este corpo se torna robusto.

O Brasil já teve diversas Constituições e isso apenas torna nosso sistema lasso. Passamos a duvidar, ainda que inconscientemente, da seriedade do Estado quando a cada abalo segue-se uma ruptura do sistema.

O Estado precisa ser reconhecido e respeitado. Um Estado que não se faz respeitar acaba por ser abusado por uma classe de pessoas que se acomodam no poder e dali comandam o direcionamento do mesmo. Nesse caso, o Estado nada mais é do que a institucionalização de privilégios de alguns em detrimento do abandono de muitos.

Vendo as coisas assim, infelizmente, temos sido um retumbante fracasso, precisamos superar esse problema.

Precisamos parar de procurar soluções fáceis – precisamos deixar o vício do imediatismo e também do messianismo, aliás, mal comum à toda a América Latina.

O desafio para fazer o Brasil avançar e tornar-se um país menos desigual passa pela tomada de consciência de que teremos de trabalhar a partir do que já temos como ativo institucional.

Fugir da tentação de fazer um novo reinício. Já possuímos uma boa base institucional que foi construída para oferecer um país melhor para as pessoas que nele vivem. Basta ver que nossa Constituição atende às demandas sociais do século XXI. Neste sentido, a palavra chave talvez seja aprimorar.

Ou seja, tirar do papel este Brasil desenvolvido, para tanto, basta fazer com que o que está escrito em nossa Carta Maior se tornar realidade.

Veja o preâmbulo do artigo 6º de nossa Constituição, que trata dos direitos sociais:

São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.”

Neste artigo já temos toda uma Constituição!

Basta se ater a ele. Basta fazê-lo valer. O problema é que, para garantir isto a esta criança sem família ou a esse povo sem estado, é obrigatório conseguir fundos porque tudo isto custa dinheiro. É nesse ponto que a alcunha de malandro torna-se conveniente à elite que de fato se aproveita do Brasil.

Ora, ao se assumir como preguiçoso, reconhece-se que os recursos não são conseguidos porque o povo que deveria, em conjunto, consegui-los não quer trabalhar para isto, e justifica-se sonegar direitos. O Estado não oferece saúde ou educação de qualidade porque o seu povo é preguiçoso e malandro – esta é a pseudo explicação para o nosso fracasso. Mas isso é uma tremenda falácia. Mas isto é uma falácia: primeiro porque o brasileiro é uma gente trabalhadora e segundo porque paga muitos impostos. Mais uma vez, essa questão é bem profunda.

* * *

ESTADO EFICIENTE E REPUBLICANISMO

O que ocorre no Brasil é que grupos organizados garantem primeiro os seus direitos e sempre buscam mais – nunca cedem. Isso só será resolvido com uma reforma administrativa que retire parte dos privilégios de uma casta burocrática que se acostumou às benesses que o Estado lhes oferece. Todos sabemos disto, mas uma reforma que diminua as distorções se demora em acontecer.

E aqui reside outra distorção de interpretação – ao se falar desta casta burocrática não se quer aqui colocar o servidor público que labuta diariamente na tentativa de promover um estado melhor – esse também é vítima. Quer-se falar daquele que encontrou no Estado uma mãe que lhe perpetua os privilégios. Eles estão lá no alto, não atrás do balcão de atendimento nem nos escritórios da administração pública. Ao generalizar o termo “servidor público” como parasita se está, na verdade, apenas escondendo os verdadeiros privilegiados.

Também a questão tributária. É sabido que quem paga mais impostos no Brasil, proporcionalmente às suas rendas é quem ganha menos. Isso porque se tributa muito mais o consumo do que a renda.

Assim, uma pessoa assalariada gasta praticamente todo o seu salário no supermercado e no comércio em geral – está pagando imposto alto, embutido nas compras, a cada compra que faz.

Este é o chamado imposto regressivo – uma covardia que se comete contra a gente empobrecida deste país. O imposto progressivo, ao contrário, tributa mais a renda do que o consumo e, se implantado, atingiria os mais ricos. Quando isso vai acontecer?

Outro problema é a falta de espírito republicano, que desemboca no patrimonialismo já tão denunciado por nossos pensadores. A origem do termo República é res (coisa) publica. O problema é que nossa elite política entende que pode utilizar do público em benefício próprio.

Assim, se valem do Estado para enriquecer-se, seja contratando empresas amigas para realização de obras públicas, seja acomodando parentes em cargos públicos.

Isso aconteceu durante toda a nossa história, mas pode-se observar alguns progressos institucionais. Exemplo disto é a Lei das Licitações, de 1993 ou o combate que existe contra o nepotismo. Pequenos avanços. Passos dados que não devem retroceder.

Se a operação Lava Jato foi o ápice da esperança, o desfecho desta mesma operação acende um sinal amarelo. Podemos estar retrocedendo nesse passo tão precioso que foi dado.

Precisamos ter espírito republicano. Precisamos enxergar a coisa pública como se fôssemos os legítimos proprietários dela porque, ao fim e ao cabo, é isso que somos.

Somos os proprietários comuns das coisas coletivas – um grande condomínio. Nesse sentido, cuidar de uma praça, manter as ruas limpas e não depredar o patrimônio público são pequenos atos que no final significarão um ganho para toda a coletividade.

Se gastarmos menos dinheiro na manutenção de algum bem público, este dinheiro poderá ser utilizado em outra área. Se utilizado na educação, esse povo melhor educado irá depredar menos o seu próprio patrimônio coletivo e mais e mais recursos irão sobrar. Torna-se um ciclo positivo.

* * *

Pequenos grandes gestos em direção a um espírito republicano que sempre nos faltou.

Uma reforma administrativa que seja capaz de minorar privilégios sem negar reconhecimento àqueles que servem ao estado e, portanto, ao bem comum da sociedade.

Uma reforma tributária que passe a tributar um pouco mais de quem pode pagar mais, e menos daqueles cujo salário pouco dá para se manterem com dignidade.

Perenidade institucional. Precisamos nos agarrar à nossa Constituição e fazê-la valer.

Parar de nos auto depreciar. Não somos o melhor povo do mundo – esse povo não existe, mas tampouco somos o pior.

Enxergar o brasileiro como “malandro” nada mais faz do que tornar inviável nossa sociedade. Se quisermos ver nossa sociedade evoluir precisamos, primeiro, não medir esforços para fazer da educação o nosso grande objetivo, priorizar a educação é a chave.

Sobre tudo isto que disse, alguns passos já foram dados.

O Brasil tem jeito!

FORMAÇÃO POLÍTICA, Introdução à Política

Introdução à Política – Capítulo 10 – Parte 2

CENTRALISMO X FEDERALISMO – o caráter belicoso da política brasileira – Parte 2 –

A derrocada da República Velha, portanto significou o recuo do federalismo ante um centralismo que iria tomar sua forma mais cruenta após 1937, quando Getúlio Vargas implantou o Estado Novo e reduziu a política brasileira a um regime personalístico e, por conseguinte, profundamente centralista.

A Revolução paulista de 1932 levou à Constituição de 1934, mas esta teve vida curta.

A Revolução Constitucionalista de 1932, que estourou em São Paulo foi uma tentativa de minimizar a alma centralista que Vargas estava dando ao seu governo. Uma nova Constituição teria a função de descentralizar o poder. Daí a Constituição de 1934, apesar de ter tido vida curta ser tida como muito moderna e avançada para a época. Daí o golpe de 1937.

Getúlio Vargas enviou interventores para ocuparem os cargos de governadores de Estado para que política de repressão fosse garantida. Foram dissolvidos os diversos órgãos do Legislativo, a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, as Assembleias Legislativas dos Estados e as Câmaras Municipais. Não havia poder descentralizado neste momento.

Esta situação encontrará termo em 1945 quando Vargas é obrigado pelos militares a renunciar à presidência. Marcadas novas eleições presidenciais, vencerá mais uma vez um militar, General Eurico Gaspar Dutra.

Uma nova Constituição foi entregue à Nação, cujo objetivo era devolver as liberdades civis e políticas, tolhidas dos brasileiros durante a ditadura do Estado Novo. O sistema federativo estava, por esta Constituição, restabelecido.

Vargas vai se eleger pelo voto popular, todavia, em 1950. De volta ao poder, tenta impor novamente sua política populista e, por conseguinte, centralizadora. Mas o país era outro.

Por isso, vai se aproximar da esquerda e reforçar a imagem de “pai dos pobres” criando as condições para impor sua forma centralizadora de governar. Ao chamar João Goulart para ocupar o Ministério do Trabalho, atai a atenção da elite empresarial que se encontra preocupada com o avanço dos governos socialistas pelo mundo. Neste momento o planeta começa a sofrer a influência de EUA e URSS, no contexto da guerra-fria.

Suicídio de Vargas causou grande comoção no país.

Ao se matar, Getúlio Dornelles Vargas deixa em sua carta testamento uma declaração de que sucumbiu ante forças poderosas. Cita grupos econômicos e financeiros internacionais bem como grupos nacionais que seriam contra os direitos trabalhistas. “Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.”, diz na derradeira carta.

Mas, se olharmos com atenção para a história política brasileira, o embate se deu especialmente entre o centralismo e o federalismo.

Vargas queria o poder de volta todo em suas mãos. As forças poderosas a qual ele faz referência são as forças que não aceitariam isto mais uma vez. Não que elas estivessem preocupadas com o bem estar dos brasileiros – nunca estiveram. Estavam mais preocupadas em não tolerar que um governo forte e centralizado lhes isolasse as condições de decidir os destinos do Brasil.

Dez anos mais tarde, após os governos de Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart e no qual as normas da carta de 1946 – federalistas, portanto, estavam vigentes – veio o golpe de 1964 que solapou o multipartidarismo e transformou nosso federalismo em mera formalidade.

Durante a ditadura era comum fazer campanha pelo voto nulo.

Os anos que se seguiram a 1964 foram marcados pela falta de diálogo político – exceto aqueles havidos entre e dentro do grupo de poder. Ainda assim, não se pode classificar o modelo de autoritário personalístico porque, a despeito de uma ditadura ter sido instalada, especialmente após 1969, o regime sempre se apresentou com um verniz  democrático, eis que o Congresso foi fechado em raras ocasiões para ajustar a política ao sistema e eleições – que, ao menos para os cargos do legislativo, e para prefeitos – com algumas exceções – sempre existiram. Foi, todavia, um período extremamente centralizador.

Após 1985 e, especialmente com o advento da Constituição de 1988 o Federalismo voltou com força, mas aos poucos a submissão dos Estados à União começou a reaparecer.

A Constituição previu que impostos, ainda que de competência da União, terão porcentagens de repasse obrigatória aos Estados, mas a regra não vale para contribuições.

Neste sentido, desde então a União tem priorizado a instituição de contribuições em detrimento de impostos, acumulando para si os recursos e tornando os estados dependentes financeiramente da União.

Desta maneira, cresceu a receita da União em detrimento da receita dos Estados e a estes foi repassada a responsabilidade por diversas demandas sociais, como saúde e educação, sem que estes tenham arrecadação suficiente para tal.

Obra do cientista político Sérgio Abranches disseca a patologia política sofrida pelo Brasil.

Força assim, uma dependência dos governadores ao presidente da república. Por outro lado, o presidencialismo de coalizão mantém o presidente preso à necessidade de negociar com os parlamentares para alcançar apoio necessário no parlamento para fazer  sua agenda andar.

Assistimos assim a algo diferente do que ocorria quando da instituição da política dos governadores. Por aquela, o governo central apoiava o governo estadual para este, através da capilaridade que possuía junto aos coronéis, fazer eleger deputados que enfim fossem de acordo com a agenda do governo.

Agora temos governadores com muita responsabilidade social mas sem a necessária contrapartida de recursos. Necessitam, assim, recorrer ao governo central para se financiar. Por outro lado, temos deputados e senadores – partidos políticos – que  negociam junto ao governo central cargos e vantagens em troca de apoio à agenda do governo.

Ambos os modelos são deletérios às necessidades da população. Sendo o presidencialismo o regime vigente em nossa atual República, ajustes e reformas se fazem necessárias a fim de libertar, governadores e o próprio presidente das amarras que lhes limitam a capacidade de governar para enfim alcançarmos uma urgente normalidade institucional.

Para atingir este objetivo, faz-se necessário rever nosso sistema de tributos, de distribuição e competência e também uma reforma política e administrativa, a fim de destravar a administração pública de servidores que não tem compromisso com suas funções – ainda que esta não seja a regra – e também para que nosso sistema de escolha de nossos representantes possa de fato nos representar pelo que somos – que partidos políticos sejam tantos quantos possam ser as diversas matizes políticas de uma sociedade, e não esta miríade de legendas acima de tudo clientelistas.

Um número menor de legendas partidárias significa maior compreensão do eleitorado sobre o que cada legenda representa. Também proporciona maior governabilidade para o Executivo. Só assim ele poderá negociar políticas, e não troca de cargos e vantagens.

* * *

E para além deste embate centralismo versus federalismo sempre existiu também na política brasileira o embate entre um presidencialismo forte ou um parlamento dominante: na verdade, este embate é o espelho daquele.

Desde nossa primeira constituição, o parlamento jamais foi uma força a se desconsiderar. Portanto, mesmo diante do poder moderador, pelo qual o Imperador podia destituir o parlamento nos casos ali previstos, o Parlamento nunca deixou de existir nem de exercer sua força sobre a política nacional, naquele momento representado pelos partidos Liberal e Conservador.

De se destacar que nos momentos em que o parlamento perdeu o seu protagonismo foi exatamente nos momentos em que a própria federação perdeu força diante do centralismo.

Por este raciocínio, temos que foram momentos ruins para o legislativo no Brasil tanto aquele do Estado Novo (1937-1945), quando as casas legislativas foram simplesmente fechadas no país e, depois no momento pós 1964 quando, a despeito de o parlamento estar em funcionamento, este se dava de maneira precária, funcionando como uma casa que tinha por missão conferir alguma tinta de democracia ao poder instituído pelo golpe militar.

Aliás, se nosso presidencialismo é tido como forte, nosso parlamento não fica atrás. Temos, portanto dois poderes fortes, além de um judiciário que vem ganhando protagonismo, inclusive político, à medida que a Constituição de 1988 se consolida e as regras ali impressas passam a fazer parte do arcabouço e da cultura politica do Brasil.

Também o Ministério Público, que a rigor não é poder constituído, tem ganhado força institucional e promovido ações que visam fiscalizar os demais poderes, com vistas aos interesses da população. Não é por outro motivo que um dos maiores campo de atuação do Ministério Público – MP tem se dado em relação aos direitos do consumidor, por exemplo.

* * *

É por isto que uma Constituição deve ser respeitada, mantida e só emendada quando extremamente necessário. É preciso que nossa classe política deixe de acreditar na possibilidade de vencer e de impor suas vontades alterando as regras do jogo.

É preciso entender que o ambiente político é o do convencimento. Propostas que melhor se ajustem a determinado período devem ser as adotadas. Somente assim atingiremos estabilidade institucional. A alternância no poder é necessária para trazer equilíbrio ao sistema. Faz-se necessário que valores se sobreponham sobre interesses particulares.

Cabe à população estar consciente disto: ter uma Constituição que, a despeito de ter seus defeitos traz uma gama de direitos aos cidadãos brasileiros que seria inconcebível é possuir uma garantia de que, no longo prazo, o país está caminhando no sentido do desenvolvimento humano.

O povo brasileiro precisa ficar atento diante de alguma proposta para uma “nova constituição”. Isto pode representar retrocesso e novas aventuras institucionais.

Muito melhor encarar as eventuais inconformidades do sistema – seja ele político, tributário, econômico – do que entregar um livro em branco nas mãos de políticos e das mesmas oligarquias que aí estão para redigir novas regras, certamente em conformidade com suas preferências de momento.

Não há outro motivo para querer apagar uma constituição senão o desejo de amoldar regras às velhas demandas que, por algum motivo, em alguma curva da história, lhes saiu do controle. Devemos estar atentos a isto.

FORMAÇÃO POLÍTICA

Judiciário politizado

O caminho da politização é a pior escolha que o Judiciário pode tomar. A Justiça é um órgão que deve se limitar a julgar.

O período da lava-jato, que se seguiu às enormes manifestações populares de 2013 foi um momento de caça às bruxas no Brasil. O país vivia um total descalabro de corrupção e malversação com o dinheiro público – revendo o momento se pode perceber o excesso, mas no calor dos acontecimentos, difícil imaginar outra alternativa.

A verdadeira Justiça é cega.

Porém, durante o último governo houve o total desmonte de tudo aquilo que primava pelo controle e pela moralidade no trato com a coisa pública. Nosso judiciário, infelizmente, colaborou  para que este estado de coisas se estabelecesse.

A situação do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP), é sintomática.

Condenado pela Justiça de seu Estado por participar do esquema que ficou conhecido como Máfia da Taturana, em que teriam sido desviados cerca de 200 milhões da Assembleia Legislativa de Alagoas, ainda assim o político conseguiu concorrer e se eleger para a Câmara federal em 2018.  Isto porque ficou abrigado sob um guarda-chuva oferecido pelo próprio Judiciário.

Mesmo condenado em primeira e segunda instância por ter quitado empréstimos pessoais com verbas de gabinete, o alagoano conseguiu se candidatar sob o efeito suspensivo da condenação dada por um único desembargador do tribunal de Justiça de seu estado. 

Eleito deputado, se tornou presidente da Casa e turbinou o famigerado orçamento secreto. Tendo agora renovado seu mandato de deputado federal facilmente – quase 220 mil alagoanos que o reconduziram a Brasília -, pretende reeleger-se presidente daquela casa. Quanto à condenação,  a decisão encontra-se parada no STJ. Até quando? 

Está diretamente relacionada a isto, portanto, a questão do orçamento secreto

Finalmente o STF se pronunciou sobre algo que já vinha sendo questionado desde junho de 2021, quando a primeira ADPF – Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 850, proposto pelo partido Cidadania.

Depois disso, foram propostos mais três questionamentos junto ao STF.  Com a mudança de governo, o Tribunal se apressou em oferecer uma solução que, para o bem do país, já deveria ter sido tomada há muito tempo. E mesmo com a decisão, o parlamento vai utilizar do expediente em 2023. E aí?

Outro caso – o Ministro Gilmar Mendes se pronunciou no caso que questiona se é possível o valor do bolsa família ser retirado das limitações que o teto de gastos impõe ao executivo no orçamento. Sua decisão é irrefutável – nas palavras do Ministro “os recursos financeiros existem para fazer frente às inúmeras despesas que decorrem dos direitos fundamentais preconizados pela Constituição”. Mas a decisão seria a mesma sob outro governo?

Paremos por aqui. O caso da anulação dos julgamentos de Lula no âmbito da Lava-Jato tem lugar garantido e de honra no anedotário jurídico mundial. Uma vergonha.

O Judiciário precisa colocar a venda nos olhos que a imagem da Senhora Justiça traz – ela é cega!

Especialmente nestes momentos de polarização social, a Justiça deve assumir sua posição de nunca interferir na política – esta vive e acontece em outra esfera. Ultrapassar esta linha é arriscar-se e colocar sob risco a própria democracia no Brasil. Na melhor das hipóteses, agindo politicamente, a desmoralização é inevitável  

FORMAÇÃO POLÍTICA, Introdução à Política

Introdução à Política – Capítulo 10

CENTRALISMO X FEDERALISMO – o caráter belicoso da política brasileira – Parte 1 –

Quando, enfim, Portugal decidiu colonizar as suas terras na América em 1532, optou-se por estruturar no Brasil no sistema de Capitanias Hereditárias. O sistema, que já havia sido testado com sucesso nas ilhas da Madeira e Açores foi o escolhido para que Portugal efetivamente tomasse posse destas terras.

Por este sistema, os donatários tinham uma boa autonomia sobre a administração do território. Ainda assim deviam obediência ao centro do poder monárquico, que se encontrava do outro lado do Atlântico, na longínqua Lisboa devendo, inclusive e especialmente transferir parte dos impostos arrecadados em sua Capitania para a Coroa.

Capitanias Hereditárias: aqui se inicia o confronto entre os poderes local e central que ainda atrapalha a política nacional.

Nasce aqui o primeiro conflito entre um poder central, que se localizava em Lisboa e o poder local dos donatários, espalhados pelo imenso Brasil. A distância autorizava uma autonomia maior do que a concedida.

Em 1549, com a intenção de trazer o poder central para mais próximo dos donatários, foi fundada uma capital para todo o território, em Salvador. Para fundá-la, foi enviado para o Brasil um primeiro governador-geral, Tomé de Souza.

Mas a capital tinha poucas condições de impor sua autoridade diante do imenso território que a colônia possuía. Por certo que os poderes locais acabavam por se sobrepor a um poder que se pretendesse centralizado, porém distante.

Em 1572 D. Sebastião, então rei de Portugal, divide a administração da colônia em dois governos gerais. O Governo do Norte teria sede em Salvador, e o Governo do Sul, com sede na cidade do Rio de Janeiro, administrava os territórios da capitania de Ilhéus para o Sul.

Entre 1580 e 1640 Portugal pertencerá à União Ibérica e estará sob o domínio espanhol. Em 1621 o território da América Portuguesa foi dividido por Filipe III, Rei de Espanha, em duas unidades administrativas autônomas: ao norte, o Estado do Maranhão – mais tarde, Estado do Maranhão e Grão-Pará, com capital em São Luís, e o Estado do Brasil ao sul, cuja capital era Salvador.

Em 1537 a capital do Estado do Maranhão e Grão-Pará é transferida para Belém. Na prática, o que ocorreu é que o norte do Brasil acabou ficando desconectado de Salvador e do Rio de Janeiro mesmo após a chegada da família Imperial, em 1808.

Em 1763 o Brasil passa novamente a contar com apenas uma capital, agora no Rio de janeiro. A cidade terá esta condição até 1960 quando é fundada a atual capital, Brasília.

Na realidade, o que vigia no Brasil no período colonial era um modelo político denominado Antigo Regime Católico que dava boa autonomia política ao município em detrimento a qualquer poder central.

E quando a coroa portuguesa se transladou para o Rio de Janeiro, o poder imperial teve de delegar força aos poderes locais, contentando-se em manter a unidade da colônia. Fazia isso dando prerrogativas, agora às câmaras municipais, que efetivamente exerciam o poder.

Isto explica o clima beligerante que se abateu sobre o Brasil durante o curto primeiro reinado, de D. Pedro I e especialmente durante o período das Regências (1831-1840). A Guerra dos Farrapos, ocorrida no Sul do país é exemplo dramático de um conflito que contrapôs a autonomia local ao poder central.

Não por acaso, as duas fases em que os historiadores costumam dividir o período das Regências – avanço liberal e regresso conservador – são, no fundo, resultado das disputas que visavam o federalismo e o centralismo, respectivamente.

Os ‘barões do café’ ditavam os rumos da política no alvorecer da República.

Já no segundo reinado (1840-1889) a principal rusga havida entre os partidos Conservador e Liberal se dava em torno também do centralismo e do federalismo. Os conservadores queriam um poder central forte estabelecido na capital do país que dali ditasse o destino de todo o Brasil enquanto os Liberais se arvoravam em defesa do federalismo, pretendendo maior autonomia às províncias.

No alvorecer da República, o poder local estava consolidado e era exercido pelas oligarquias que agora haviam se organizado em partidos estaduais. Os mais promissores e poderosos eram os partidos republicanos, surgidos no período final da monarquia, descontentes com os rumores do fim da escravidão que se fazia prever. De fato, a escravidão foi extinta em 1888 e logo no ano seguinte o Brasil trocava o regime monárquico pela República, em 1889.

Desta maneira, até o surgimento da República e a despeito de ter existido uma monarquia que avocava para si o Poder Moderador, o poder de fato esteve sempre atrelado ao regional, exercido pelas câmaras dos municípios com seus reflexos no parlamento nacional através da Câmara dos Deputados. Este poder se tornou ainda mais evidente quando o país adotou o regime republicano.

Acontece que, a despeito de nossa República ter surgido de um golpe militar promovido pelo exército, que fez os seus dois primeiros presidentes, ao tentar centralizar o poder em suas mãos eles mesmos acabaram sendo derrotados pela irresistível força das oligarquias agrárias, especialmente a cafeeira, que assume o poder com Prudente de Morais, em 1894.

O embate entre o poder local e o poder central, isto é, entre o centralismo e o federalismo tomou proporções preocupantes neste momento de república nascente.

Durante o governo de Floriano Peixoto (1891-1894) o país assistiu à segunda Revolta da Armada e a um gravíssimo conflito ocorrido, mais uma vez no sul do país. A Revolução Federalista foi um embate regional que teve como pano de fundo a questão da federação em detrimento da União. As oligarquias pediam maior autonomia às províncias.

Sentindo-se prejudicadas pelo fim da escravidão sem qualquer indenização, estes ex-senhores de escravos buscavam consolidar seu poderio local, através do sistema federalista.

E foi isto o que aconteceu com a chegada de Prudente de Morais à presidência do Brasil. As elites agrárias assumiram o comando da Nação e o caminho estava aberto para a consolidação do poder local sobre o poder nacional.

Foi neste contexto que a importância política dos chamados coronéis se firmou. A base da vida política brasileira, neste momento, continuava sendo os municípios.

Clássico de Victor Nunes Leal retrata momento político brasileiro dominado pelo sistema do ‘Coronelismo’

O poder local irá consolidar suas bases, enfim, com a Política dos Governadores, implantada pelo presidente Campos Sales, a partir de 1908. O sistema representava o ápice de um modelo que mantinha o governo federal atrelado ao poder local dos coronéis através de uma rede de garantia de votos aos deputados que estivessem ao lado dos interesses do governo central no parlamento.

Acontece que os interesses do governo central eram os mesmos interesses dos coronéis que estavam na ponta do sistema: o Brasil construiu um Estado que estava a serviço do café, ou melhor, dos cafeicultores ou, visto de maneira mais ampla, dos produtores rurais.

Com a Política dos Governadores, Campos Sales conseguiu mitigar o problema de relacionamento que antes acontecia entre o governo central e as oligarquias estaduais.

Charge retrata a polítca do café-com-leite imposta por MG e SP.

Para completar o esquema, a presidência da república acabou sendo ocupada sempre por representantes dos dois estados mais ricos e com sociedades mais complexas – São Paulo e Minas Gerais.

Nesses locais, o poder local ficou nas mãos de grupos que se organizaram em partidos políticos e não nas mãos de algumas famílias oligárquicas, como acontecia em estados menos desenvolvidos. Eram os poderosos Partidos Republicanos – Paulista  o Mineiro quem davam as cartas da política nacional.

Assim foi a primeira fase de nosso período republicano. Entre 1894 e 1930 apenas dois presidentes não foram paulista ou mineiro – Hermes da Fonseca era gaúcho e Epitácio Pessoa, paraibano.

O auge do domínio oligárquico se deu, todavia, entre 1894 e 1909.

Durante o período dos governos de Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves e Afonso Pena as oligarquias assumiram o poder, tanto federal como estadual e o exerceram praticamente sem uma oposição que tivesse força de contrapor-lhes os interesses.

Afonso Pena morreu no final de seu governo, em 1909. Nilo Peçanha, seu vice, assumiu o cargo para terminar o mandato. Foi durante seu curto mandato que a política do café com leite começou a sentir seus primeiros abalos.

A próxima eleição será a primeira digna do nome. Houvera um desentendimento entre as elites de Minas e de São Paulo, de tal modo que Minas apoiou o candidato Hermes da Fonseca, um militar ligado ao presidente do Senado, o gaúcho Pinheiro Machado. São Paulo ofereceu o que chamou de campanha civilista, tendo como candidato o então senador Rui Barbosa.

O eleitorado urbano votou majoritariamente com Rui Barbosa, esperançosos por reformas modernizantes. Mas os currais eleitorais que ainda funcionavam nos rincões do interior foram fortes o suficiente para eleger Hermes da Fonseca.

Depois, e apesar disto, Minas e São Paulo voltaram a se entender, percebendo as vantagens de se manter o sistema.

Todavia, através de Hermes da Fonseca, os militares haviam alcançado novamente a presidência. Pinheiro Machado, percebendo que os militares pretendiam se assenhorar do poder, criou o Partido Republicano Conservador, com a intensão de a um só tempo apoiar o governo, mas manter os militares afastados das grandes decisões.

O governo central estava apoiando ataques a algumas oligarquias estaduais que não lhe eram fieis. Fazia isso através da política das salvações, que nada mais era do que depor à força um governo estadual instituído para substituir por um que lhe fosse aliado. Isto ocorreu em Pernambuco, na Bahia, no Ceará e nas Alagoas. Vê-se aqui, mais uma vez, o confronto entre o poder central e o local.

Tamanha era força política do político gaúcho que foi criado um movimento conhecido por ‘pinheirismo’.

Pinheiro Machado, tendo a maioria do partido no Congresso conseguiu afastar os chefes militares que defendiam a política das salvações, restabelecendo seus aliados em Alagoas e no Ceará.

Foi ainda durante o governo do militar Hermes da Fonseca que ocorreu a Revolta da Chibata devido aos maus tratos dispensados aos marinheiros brasileiros. Esta revolta, todavia, apenas expunha e refletia as contradições sociais existentes na sociedade brasileira. Um país que se modernizava, mas sem permitir que isto refletisse na sociedade.

Novas e modernas estruturas estavam sendo introduzidas no país, como na Marinha que adquirira equipamentos modernos de guerra e na indústria nacional, que avançava, mas que negava os frutos disto, tanto aos marinheiros quanto aos cidadãos comuns, que permaneciam presos às velhas estruturas sociais.

Venceslau Brás precisou enfrentar a Guerra do Contestado, que se desenrolava no Sul. Além do mais, seu governo coincidiu com o início e o fim da Primeira Guerra Mundial.  Pinheiro Machado fora assassinado em 1915, desaparecendo com a dualidade que até então havia se estabelecido entre o governo e o pinheirismo, um movimento político que se desenvolveu em torno das ideias do político gaúcho, ardoroso defensor do republicanismo.

O declínio das oligarquias, com o aumento das oposições a ela, todavia, se fez sentir mais fortemente a partir do governo de Epitácio Pessoa.

O movimento dos ‘dezoito do forte’, apesar de fracassado, foi o primeiro ato do Tenentismo, que depois ganhará força e vai ajudar a derrubar o sistema.

Após o fim da Primeira grande guerra toma forma um movimento de revoltas promovidas por jovens oficiais do exército e de baixa patente que ficou conhecido como tenentismo.

Ao perceberem que poderiam interferir nos rumos da política nacional, o tenentismo passou a pressionar o governo para que este realizasse uma série de reformas políticas e sociais.

Auxiliou assim a oposição que se articulava contra a velha oligarquia agrária já que agora a sociedade havia se modernizado e outros atores políticos haviam entrado em cena, como uma burguesia industrial e comercial, um proletariado e uma vigorosa classe média, especialmente nos núcleos urbanos.

Dessa maneira, os governos de Epitácio Pessoa, Artur Bernardes e Washington Luís nada mais fizeram do que assistir à longa e conturbada derrocada de um sistema que já não se sustentava. O centralismo estava retornando ao comando da política nacional.

Até 1930, o que se assiste na política brasileira é o domínio desta elite, que acabou por se centralizar em São Paulo e Minas Gerais, naquilo que passou para a história como a política do café com leite.

Este sistema sofre golpe fatal quando da quebra da bolsa de Nova York, que fez com que as exportações do produto despencarem. As soluções apresentadas pelos cafeicultores para proteger os seus interesses acabou por assanhar as demais elites agrárias que se reuniram ao Exército para derrubar a ordem.

A percepção era a de que as eleições não passavam de mera formalidade para reconduzir ao governo outro representante daquela mesma elite cafeeira que estava no poder desde 1894. Assim, tornava-se legítimo derrubar o governo.

São Paulo irá quebrar a sequência da política do café com leite ao apresentar um candidato quando a vez era de Minas Gerais.

Minas então se une à Paraíba e ao Rio Grande do Sul para criar a Aliança Liberal. Estes estados estavam, em verdade, decretando o fim da república velha e prontos para entregar o poder a Getúlio Vargas, um exímio centralizador.

O candidato paulista Júlio Prestes venceu as eleições mas o posterior assassinato do vice do candidato Getúlio, João Pessoa, na cidade do Recife, desencadeou aquilo que veio a se tornar o golpe de 1930. A República Velha estava morta.

FORMAÇÃO POLÍTICA, Introdução à Política

Introdução à Política – Capítulo 9 – Parte 2

CONSTITUIÇÃO E INSTITUIÇÕES – a economia e a busca pela cidadania. – PARTE 2 –

Terminamos a última vez dizendo que a situação econômica do Brasil só começaria a se normalizar em 1993, com o advento do Plano Real.

Antes disto, todavia, foi necessário implementar toda uma mudança institucional para proporcionar a estabilidade que uma moeda precisava para atender às necessidades de uma Nação.

Os frustrados planos econômicos que tentaram domar a inflação inercial estabelecida no país conduziam a economia, ao fim e ao cabo, ao descalabro.

Em fevereiro de 1987 o Brasil teve de decretar moratória técnica por falta de condições de honrar com seus compromissos junto aos bancos credores. Depois vieram as aventuras dos planos econômicos: Plano Cruzado em 1986, Plano Bresser em 1987, Plano Verão em 1989.

O brasileiro enfrentou desabastecimento de produtos e uma completa falta de horizonte em relação ao valor de seu salário frente ao aumento dos produtos que consumia. E a maneira de tentar se proteger do processo inflacionário era através de aplicações financeiras, como o overnight, inacessíveis à população mais carente.

Collor assustou o povo ao bloquear dinheiro em banco.

Em 1990 o recém-eleito Fernando Collor de Melo implantou um novo plano econômico que propôs um choque de maneira a diminuir a circulação de dinheiro.  Para isto, confiscou poupança, aplicações e dinheiro em conta corrente acima de determinado valor. A economia foi abruptamente desorganizada.

Além disso, durante este governo aconteceu uma maior abertura da economia para importações e parte da indústria nacional não sobreviveu por falta de capacidade de competição com empresas estrangeiras.

O país sentiu a necessidade de diminuir o tamanho do Estado, desestatizando empresas que cuidavam da telefonia, por exemplo. Houve um segundo Plano Collor, também fracassado, o que derrubou a popularidade do presidente, abrindo o flanco para um processo de impeachment, já que denúncias de corrupção no governo afloravam de toda parte.

Após a queda de Collor, Itamar Franco, seu vice, assume o governo com o objetivo de tranquilizar o ambiente político. Após se acomodar, irá chama o sociólogo Fernando Henrique Cardoso para assumir o Ministério da Fazenda.

O “Real” – uma nova moeda era apresentada ao Brasil.

O novo ministro compôs um quadro de idealizadores para nova tentativa de estabilizar a moeda nacional. O Plano Real foi desenhado com a colaboração de, entre outros economistas: André Lara Resende, Pedro Malan, Pérsio Arida, e Gustavo Franco, nomes importantes e centrais na confecção do plano de estabilidade monetária do Brasil.

Outro desafio era normalizar as relações do país com a comunidade financeira internacional porque o Brasil havia declarado moratória em 1987 que o colocou de fora deste ambiente. Em 1993 o Brasil faz sua adesão ao plano Brady, que simplesmente reconhecia que a dívida dos países não poderia ser paga, e oferecia descontos. Ao aderir, o país se comprometeu a promover reformas liberais em seu mercado. Com isso, o Brasil conseguiu suspende sua moratória.

Mas o cidadão brasileiro, como povo teve grande participação no processo de sucesso do plano Real, único dos planos econômicos do período que não foi imposto autoritariamente, mas com transparência.

Em pouco tempo os preços estavam indexados à URV, um indexador que foi criado para ancorar o período de transição das moedas. Quando houve a mudança, a sociedade estava adaptada ao processo e os temores de que a complexidade das contas que teriam de ser feitas para a conversão dos preços iria complicar o processo, atrapalhando-o, não ocorreu. Os preços já estavam todos convertidos para o Real.

Agora, o Brasil era uma economia razoavelmente aberta e com a dívida externa negociada. A falta de produtos devido ao aumento da demanda podia ser contornada com segurança, através de importação. A queda da inflação proporcionou redução de desigualdade e aumento da classe média brasileira.

Por outro lado, muitos bancos, acostumados às benesses da inflação, quebraram. O PROER – Programa de estímulo à reestruturação e ao fortalecimento do sistema financeiro nacional – surgiu para salvar o sistema financeiro porque, do contrário, a própria economia estaria comprometida.

Nasceu aí um sistema financeiro forte no Brasil. Também os bancos estaduais funcionavam mal porque eles emprestavam mal os seus recursos e depois mandavam a conta para a União. O Banco Central assumiu estes déficits e liquidou estes bancos. O que se buscava era equilíbrio fiscal e durante o governo de Fernando Henrique Cardoso isto será alcançado com a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Portanto, o grande progresso institucional brasileiro que se iniciou com a Constituição Federal de 1988 tornou-se mais vigorosa e vai se consolidar durante a década de 1990.

Foi previsto, na Constituição um Orçamento da União único, um Plano Plurianual de Investimento e a Lei de Diretrizes Orçamentárias, conjunto este que veio a dar maior modernidade nas suas finanças públicas.

Depois de implantadas todas estas instituições o país passou a contar com uma estrutura legal que pudesse lhe dar condições de promover seriedade na economia e consequente melhor distribuição de riquezas entre os cidadãos. 

Por outro lado, cortes em políticas sociais eram exigências do FMI, encaminhando a economia para o neoliberalismo econômico. As privatizações se aceleraram também em consonância com a cartilha neoliberal.

Crises internacionais rondavam a estabilidade da economia brasileira: em 1997 – Crise dos países asiáticos, em 1998 a Crise da Rússia. Em 1999 houve a crise dos balanços de pagamento no Brasil, momento em que se adotou por aqui o chamado câmbio flutuante.

O Brasil adotou um tripé macroeconômico composto por responsabilidade fiscal, metas para a inflação e câmbio flutuante da moeda.

Mesmo com toda esta cartilha neoliberal, alguns programas sociais surgiram, como Bolsa Escola e Bolsa Alimentação, diminuindo de certa forma as diferenças sociais. A partir do início dos anos 2000 a desigualdade começou a diminuir. Criança na escola significa melhor e mais produtivos trabalhadores no futuro.

Lula mantém a política econômica adotada por FHC.

Em 2002 Luiz Inácio Lula da Silva vence as eleições e, a despeito de toda desconfiança gerada por sua proposta política, totalmente contra o alinhamento brasileiro a políticas neoliberais, promove um governo em consonância com o caminho que Brasil havia traçado para si e que estava funcionando.

A economia internacional crescia impulsionada pelo crescimento da China. As commodities produzidas pelo Brasil encontravam-se valorizados no exterior, o que impulsionou o crescimento da economia brasileira. Houve condições de expansão, portanto, dos programas sociais, especialmente o Bolsa Família, marca social do governo Lula. Houve crescimento real do salário mínimo. Em dado momento, o Brasil se tornou a sexta maior economia do Mundo.

Apesar de ter enfrentado acusações referentes ao caso do Mensalão, um suposto esquema de compra de votos no Congresso Nacional pelo Executivo a fim de ver suas propostas serem aprovadas pelo Legislativo, em 2006 Lula foi reeleito.

Em 2008 estourou a crise da bolha imobiliária nos EUA. O sistema financeiro internacional entrou em colapso. Mais uma vez um problema econômico mundial iria abalar a estabilidade nacional. Mas desta vez o efeito não foi imediato. O país teve condições de enfrentar a falta de capital do exterior com as próprias reservas que o Brasil havia acumulado durante o período de bonança.

O segundo governo Lula, todavia, mudou de orientação na política econômica, tendência que se consolidou durante a gestão de Dilma Rousseff, sua sucessora.

O Estado passa a intervir na economia, abandonando gradualmente os mecanismos de estabilização, o tripé macroeconômico que mantinha o gasto público sobre controle, isto é: a responsabilidade fiscal, metas para a inflação e câmbio flutuante da moeda.

Algumas das empresas alçadas à condição de “campeãs nacionais”.

O governo começa a aumentar os gastos. Um estado intervencionista começa a aflorar, privilegiando alguns setores econômicos em detrimento de outros. O BNDES foi utilizado como incentivador de alguns setores e grupos escolhidos como campeões nacionais de produtividade.

Há, neste momento, transferência de renda do Tesouro para determinados grupos e setores, que passam a contar com capital mais barato do que o próprio Tesouro se financiava. Ou seja, toda a seriedade até então adotada foi posta abaixo.

O PIB parou de crescer no ritmo que vinha crescendo, a inflação começou a reaparecer e o nível de endividamento das famílias passa a se tornar insustentável devido ao forte oferecimento de crédito. Os juros subiram para conter a inflação.

O governo Dilma se revelou mais interventor que os de Lula – corta taxa de energia e passa a intervir no preço dos combustíveis. O Estado passa a controlar a economia, intervindo nos mercados. Dilma também tenta fomentar a economia com o lançamento de programa de obras públicas que visava acelerar o crescimento da economia.

O aumento dos gastos públicos é maquiado com a chamada contabilidade criativa, que visava fazer crer que as metas fiscais estavam sendo cumpridas. Investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento, por esta ótica, não eram tidos como gastos públicos. O governo enfrentou assim uma crise de confiança, a transparência, que deveria progredir, estava regredindo.

Em junho de 2013 a sociedade brasileira entrou em erupção

Em junho de 2013, o país entrou em erupção – eram as jornadas de junho, uma série de protestos populares que se espalharam rapidamente pelo país e que não possuíam uma causa específica, tampouco uma direção organizada com a qual o governo pudesse negociar.

Aquela nova classe média que havia surgido durante o período de crescimento deu o grito nas ruas, pois não aceitava perder o que havia conquistado. Uma série crise econômica se instalou no país.

Para tentar salvar a economia, no segundo mandato Dilma procura rever algumas posturas e passa a se alinhar novamente com medidas neoliberais, tudo o que o seu partido, o PT não aceitava.

O impeachment de Dilma é visto por muitos como um “golpe parlamentar”.

Desta maneira, Dilma deixa de contar com a simpatia dos seus próprios partidários. De outro lado, o descontentamento popular se acirra. A presidente se vê sem o apoio do Congresso, sem apoio popular e sem apoio de seu próprio partido.

Problemas econômicos internos, mesmo que surgidos por condições internacionais mais uma vez irão derrubar um presidente da república e reinstalar a instabilidade, tanto econômica quanto política.

Com Michel Temer, vice que assumiu após a queda de Rousseff, o esforço foi para se implantar as reformas necessárias – como a previdenciária, trabalhista, tributária, administrativa, política. Avançou, todavia, apenas na trabalhista.

A onda que se formou em 2018 estava voltada contra a política tradicional e elegeu Jair Bolsonaro como presidente da república, que soube oferecer um discurso eficiente nesse sentido. De caráter belicoso o presidente que se elegeu prometendo trabalhar contra o que chamava de “velha política”, acabou por entregar seu governo à uma Câmara dos Deputados que não se envergonhou de criar uma aberração chamada de “orçamento secreto”.

De qualquer maneira, durante o governo Bolsonaro mais alguns importantes avanços ocorreram. A autonomia do Banco Central em relação à política de juros bem como à escolha do presidente desta instituição é uma conquista basilar.

Bolsonaro também teve de governar durante a pandemia da Covid-19 que ceifou milhões de vida pelo mundo. Cometeu muitos erros e mostrou-se insensível à dor da população. Preocupou-se unicamente com a questão econômica imaginando ser ela o único balizador do sucesso de um governo. Questionou nosso sistema eleitoral e desafiou o Supremo Tribunal Federal em diversas ocasiões. Também andou na contra-mão do mundo no que diz respeito à política ambiental.

Paramos por aqui.

* * *

O país segue o seu caminho.

A economia é, de fato, a régua que mede o humor da sociedade brasileira, mas nã a única. Nosso problema é que desde o início de nossa história optou-se por privilégios imediatos em detrimento de projetos mais elaborados.

Para se avançar socialmente o país necessita melhorar a produtividade e somente uma boa educação pode nos ajudar a superar esta deficiência social que tem jogado o país neste limbo de subdesenvolvimento.

Faz-se necessário oferecer uma educação de qualidade à população para que ela possa melhor se qualificar e efetivamente decidir o que é melhor para a sua vida.

O signficado profundo das palavras “Ordem e Progresso”, insculpidas em nossa bandeira como princípios maiores de nossa Nação passam exatamente por isso:

Ordem, aqui entendida como a existência de instituições fortes o suficiente para enfrentar as turbulências inerentes à existência humana, e Progresso, entendido como o oferecimento do melhor que o Estado constituído pode oferecer aos seus cidadãos.

FORMAÇÃO POLÍTICA

Maus sinais

Em discurso, Lula preferiu manter um tom divisionista.

Após assumir o comando da equipe de transição, Lula provocou uma mudança radical de percurso. Geraldo Alckmin (PSB), que vinha acomodando com habilidade os interesses e conduzindo o novo governo para um campo ao menos racional, foi deixado de lado.

Assim, ao assumir o comando da transição, Lula (PT) atropelou seu vice e passou a impor a politicagem como norma. A condução da questão da “PEC da Transição” é exemplo disto – o novo presidente tem negociado com Arthur Lira (PP) e, ao mesmo tempo, tentado derrotar a chamada “emenda do relator” no STF.

A Câmara dos Deputados, com os parlamentares ou de saída ou já garantidos para a próxima legislatura e diante do hiato do Executivo, tem deliberado da maneira que lhe é peculiar quando percebe que o clima de “libera geral” está no ar. Alterou a Lei das Estatais para permitir que políticos possam ocupar postos de comando nas empresas geridas pelo governo – uma aberração que com muito custo havia sido derrubada. No caso, o Senado tenta segurar o “estouro da boiada”.

Mas não é só a Câmara que está trabalhando contra os interesses do brasileiro. Imbuído de sua ideologia particular e definitivamente contra qualquer tipo de privatização, a equipe de transição de governo – agora sob ideologia lulista – já deixou claro que pretende desconfigurar o Marco Legal do Saneamento, revertendo incentivos para que empresas privadas se interessem por oferecer saneamento básico em um país que, em pleno século XXI ainda não consegue oferecer esse mínimo civilizatório a grande fatia de seu povo – claro, os mais pobres.

O Ministério da Educação, que estaria muito bem comandado nas mãos da atual governadora do Ceará, Izolda Cela (PDT), foi, por pressões do PT, oferecido ao senador eleito Camilo Santana (PT). Ora, se uma das referências no Brasil de desempenho educacional é o estado do Ceará, sendo a governadora uma das responsáveis diretas por isto, porque não conceder o MEC a quem de fato merece? 

Outro caso de descompromisso com a eficiência em troca da politicagem partidária do PT está se dando com a figura de Simone Tebet (MDB). É notório que a ex-senadora e ex-candidata à presidência, que passou a apoiar Lula no segundo turno é uma das responsáveis pela vitória apertada do petista. De se pensar que Tebet teve mesmo de ‘tapar o nariz’ para encarar o desafio em nome da Democracia.

A Senadora jamais escondeu suas intenções de ficar com o Ministério do Desenvolvimento Social. Mas o PT, sabedor da grande visibilidade que um cargo assim tem, agora quer negar-lhe a pasta. Traição pura.

Os passos dados por Lula durante o período da transição demonstram que, a depender dele, o país terá “mais do mesmo”. Os oito anos que ocupou o Planalto e os outros que sua sucessora por lá esteve não ensinou nada ao (seu) partido, apenas aperfeiçoou o seu jeito politiqueiro de governar.

Por enquanto, a única diferença – e melhora no cenário – com o atual governo é que Lula é um democrata – ou ao menos as condições lhe obrigam a ser. Lamentável.

Filosofia Política, FORMAÇÃO POLÍTICA

Filosofia Política – Capítulo 6

A IDADE ADULTA DO HOMEM NA TERRA – GUERRAS EM CHEQUE E A QUESTÃO CLIMÁTICA –

A queda do Muro de Berlin, ocorrida em 1989 simbolizou o fim da Guerra Fria e assim pensou-se, precipitadamente, que o dilema entre as ideologias do capitalismo e do comunismo de estado estariam superadas.

Todavia, não foi isto o que aconteceu. Após um período de grande desenvolvimento do sistema capitalista e de expansão democrática alcançada por países até então dominados por ditaduras e autocracias, ideologias nacionalistas e governos com pretensões autoritárias voltaram a se manifestar.

Francis Fukuyama errou seu diagnóstico.

Se naquele momento pensadores respeitados, como o filósofo, cientista político e economista nipo-americano Francis Fukuyama erraram ao concluir que o que se vislumbrava era o ‘fim da história’, acontecimentos dramáticos logo denunciariam que a conclusão era apressada.

Ataques terroristas passaram a assombrar o chamado mundo desenvolvido. Todos os benefícios e todo o conforto que o capitalismo pode proporcionar passaram a ser ameaçados.

Paris – alvo de ataques terroristas traumáticos.

A exploração que Europa e Estados Unidos fizeram – da África ao Oriente Médio apresentava sua fatura. O mundo muçulmano assistiu seus valores serem atacados pela cultura ocidental, e reagiu.

Temos hoje um mundo que pode ser dividido entre muçulmano – onde a população cresce aceleradamente e o chamado mundo ocidental que, baseado na liberdade individual pretende levar seus valores alhures – impondo-os por vezes.

Baseado nisto, pensadores passaram a indagar qual era, afinal, o papel adequado do Estado. Qual o limite deste ente frente a liberdade individual? Essa liberdade passou a ser um bem procurado por uma população que, nos períodos anteriores foi levada a guerra para defender interesses que muitas vezes não eram os seus. Jovens davam a vida nos campos de batalha defendendo, afinal de contas, o quê?

Se em momentos anteriores alguns pensadores, como Smedley Butler já haviam denunciado as motivações das guerras, outros pensadores, como Michael Walzer procuraram trazer uma visão menos romantizada e mais árida sobre o tema.

Walzer é autor de “Política e Paixão – Rumo a um liberalismo mais igualitário”.

Para Walzer, guerras podem ser necessárias, especialmente quando apoiadas naquilo que já previra Agostinho de Hipona no séc. IV, ou Tomás de Aquino, no séc. XIII. Estes baluartes do pensamento canônico entenderam que a guerra se justificava quando procurava, em última instância, defender e garantir a paz. Mas até a escravidão, um dia, já foi justificada!

Partindo deste princípio, o pensador norte-americano refletiu sobre a ética e os limites do conflito, já que a capacidade destrutiva dos artefatos estavam se tornaram enormes. Em seu livro Guerras Justas e Injustas (1977) o autor defende a manutenção de uma forte base ética no momento de se recorrer ao conflito armado, mas ressalva que, como último recurso elas podem ser justificadas. A questão é – qual é a medida extrema quando o fim da civilização pode ser o resultado?

Estamos às voltas com a eterna questão das guerras como solucionadoras de problemas. Alguns países possuem armas atômicas, outros não. Quem é que dita quem as pode ter ou não? Os países que as têm fazem uso delas para criar um equilíbrio que flerta com o risco iminente de uma guerra final. E quanto aos demais? Ficam sujeitos às inferências dos que as possuem?

Visto assim, seria de se perguntar se as armas atômicas colaboram com a paz. Porque se não existisse o risco do fim da humanidade em uma guerra nuclear, guerras convencionais seriam mais comuns do que atualmente tem sido. Mas isso é só uma hipótese.

O pensador britânico Bertrand Russell (1872-1970) se debruçou sobre esse tema. Russell foi um pensador contumaz. Matemático, filósofo, ensaísta, historiador. Chegou a se caracterizar como de liberal a socialista – ao  final, se colocou como pacifista. Negou, todavia, qualquer rótulo, ao menos no seu sentido profundo. Quanto às armas atômicas, chegou a defender a guerra atômica como forma de provocar a paz. Mas aqui também mudou de opinião.

Em 1955, juntamente com Albert Einstein (1879-1955) redigiu o Manifesto Russell-Einstein, no qual os dois expoentes alertavam para os perigos da proliferação de armas de destruição em massa.

Conferência do Movimento Pugwash, cujo foco é a extinção das armas nucleares.

Dois anos depois, em parceria com Józef Rotblat (1908-2005), filósofo britânico, fundou o movimento Pugwash – que faz referência ao nome da cidade canadense na qual foi fundada. Este movimento ainda luta contra a proliferação de armas nucleares. Em 1962, no fim de sua vida, Russell mediou o conflito dos mísseis de Cuba, evitando assim uma escalada que poderia resultar em ataque nuclear.

A filosofia atual tem se debruçado em assuntos que dizem respeito à liberdade individual e nas que se reportam ao futuro da humanidade. No fundo, esses pensamentos se complementam.

Seria a guerra um remédio ou um veneno para a humanidade? Ademais, estariam os homens obrigados a comparecer ao campo de batalha para defenderem algo pelo qual nem sabem bem o que é?

Também nesse ponto as guerras evoluíram e hoje tem necessitado menos homens do que das tecnologias, especialmente dos chamados países avançados. Mas isso não as deixa ainda mais covardes?

Afinal de contas, quem efetivamente manda no mundo e promove guerras? Para o filósofo norte-americano Noam Chomsky, na maioria dos países é uma minoria rica que controla as instituições sociais e políticas, garantindo que os seus interesses sejam garantidos. Tentativas de reformas nesse sistema levam necessariamente a golpes de estado que restaurariam o poder a esta elite. Para ter paz, os mais pobres simplesmente deveriam garantir a estabilidade dos mais ricos. Um sistema realmente perverso.

Chomsky enxergou na relação entre os países a mesma relação que se dá entre ricos e pobres de uma sociedade.

Chomsky vai além, ao apontar os países ricos como aqueles que forçam os subdesenvolvidos a se renderem diante de seus interesses, replicando internacionalmente o que se vê internamente entre as classes sociais nesses países. Para o linguista americano, apenas quando as diversidades forem respeitadas esse sistema tentará a arrefecer.

Isso se replica também em relação às questões climática. Afinal de contas, agora é o próprio destino do planeta que se encontra ameaçado.

O homem, no ímpeto de otimizar ganhos financeiros acabou por destruir grande parte da natureza. Isso já nos trouxe graves consequências e o futuro aponta para algo pior, se uma mudança radical não for feita imediatamente.

Se essa é uma questão imperiosa hoje em dia, ela foi, contudo, pensada por esses baluartes do futuro há um bom tempo.

Conforme temos observado, filósofos – em especial os filósofos da política – antecipam movimentos. No campo do meio ambiente a questão começou a ser suscitada na década de 1970 ou antes, portanto, ainda no século passado.

O professor da Universidade de Oslo, Arne Naess (1912-2009) pode ser considerado o fundador de um movimento que mais tarde se tornaria no termo fundante das preocupações climáticas, ainda que já no século XIX alguns pensadores como os ingleses John Ruskin e William Morris já debatessem sobre os efeitos da industrialização e seus impactos sobre a natureza.

Rachel Carson (1907-1964) e seu influente trabalho “Primavera Silenciosa”.

Naess foi buscar sua inspiração em um livro escrito pela bióloga norte-americana Rachel Carson, intitulado Primavera Silenciosa (1962) para desenvolver seu pensamento. Ele propôs novas formas de se conceber a posição dos seres-humanos em sua relação com a Natureza. A Terra não é somente um recurso para ser usado pelos humanos, o homem deveria ter compaixão pelos não humanos. As pessoas deveriam aceitar a igualdade de direito à vida a todas as criaturas, criando sobre estas bases o conceito de Ecologia Profunda.

Sem uma mudança radical do comportamento do homem capitalista, danos irreparáveis à natureza estavam por vir. O equilíbrio da natureza estaria comprometido e a própria sobrevivência do homem como espécie neste planeta estaria em risco. Os seres humanos deveriam compreender que apenas habitam a Terra, mas não são donos dela.

Naess propôs o equilíbrio entre as necessidades humanas e o uso dos recursos naturais para a obtenção dos confortos que a vida moderna proporciona. O seu conceito de ecologia profunda foi, todavia, utilizado por grupos mais radicais que, a favor da preservação da natureza propõem inclusive sabotagens e atos violentos.

Hans Jonas (1903-1993)

Já para o filósofo alemão Hans Jonas, o problema apareceu quando a natureza deixou de ser a fonte de riqueza para o ser humano para se tornar uma provedora de recursos, esse sim, produtores de riqueza. Perdeu-se assim a ligação direta entre a necessidade do ser humano em conservá-la. Isso se deu com o crescente capitalismo.

O entendimento que vem se sedimentando em relação às questões ambientais, que foram trazidas ao primeiro plano de qualquer discussão filosófica e política desde a realização da conferência da ONU – Rio-92 é a de que essas questões são supra estatais, ou seja, estão acima dos interesses nacionais e passam a ser de interesse internacional.

Conferência da ONU foi realizada no Brasil, em 1992.

* * *

Acontece que as próprias relações humanas ficaram muito diferentes naquilo que se pode entender como uma nova era – a pós-modernidade. O pensador polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) viu nessas novas relações algo de líquido, não mais firmemente palpável. Para ele, nesses novos tempos as relações “escorrem pelos dedos”.

Para Bauman, nossas relações são cada vez mais fluidas e insólitas.

O ser-humano deixou de valer pelo que é passou a valer pelo que tem. A própria relação de consumo se tornou secundária diante de uma nova dimensão do consumismo – não é mais o produto, mas a marca do produto que ele usa o que faz um homem ser visto como um sucesso ou um fracasso.

Nesta dinâmica, não importa o mal que o homem provoca na natureza para obter aquilo que fará dele o que ele pretende ser – ou se mostrar como. As relações entre os indivíduos tendem a ser menos frequentes e menos duradouras. O contato deixa de ser físico e passa a ser digital. O mundo real se confunde e se mistura com um mundo virtual.

O homem precisa rever esta situação. As coisas estão ficando fora de ordem. O homem precisa se reencontrar. Para tanto, o individualismo precisa ser revisto. O nacionalismo e o critério rígido das fronteiras e da soberania nacional também.

Duas dimensões que remontam ao que parece que não deu certo na história – a ganância, tanto individual quanto dos governos sempre conduziu à insensibilidade e à violência e o individualismo, que fecha os olhos do homem para as necessidades alheias. Ganância e individualismo, irmãs gêmeas do mal de todos os tempos.

É neste sentido que os pensadores atuais têm tentando trabalhar. Romper estas barreiras – do nacional e do individual para propor soluções que possam, a um só tempo, respeitar a soberania dos países e força-los a tomar medidas para preservação do meio ambiente, além de despertar no homem um olhar sensível para o seu diferente. O tempo é curto.

Assim, aí estão expostas as condições para que o ser-humano atinja a sua fase adulta neste planeta chamado Terra: entender que guerras são coisas do passado, olhar para o futuro com vistas à preservação do meio-ambiente e viver o presente sabendo dividir melhor e entender o diferente como uma face do seu mesmo igual.

Para isto, mais que nunca o homem precisa de mentes que antevejam e apresentem soluções. Para isto servem os filósofos.

FORMAÇÃO POLÍTICA

STF precisa se manifestar

O orçamento secreto é só mais uma versão – sempre atualizada e piorada da relação executivo-legislativo no Brasil. Enquanto insistir em participar do jogo político, Supremo apenas tornará mais belicosa a relação entre os poderes no Brasil.

Ministra Rosa Weber pretende retomar julgamento esta semana.

Encontra-se em julgamento no STF a questão da constitucionalidade das chamadas “emendas do relator”, mais conhecidas como “orçamento secreto”.

Este julgamento materializa o atual momento político nacional. Está acontecendo, não de hoje, uma batalha institucional na qual os poderes se enfrentam utilizando para tanto das armas que possuem. Até aí, estamos dentro do campo institucional, mas é preciso colocar cada coisa no seu devido lugar.

O presidente eleito declarou durante a campanha eleitoral que o orçamento secreto é “a maior bandidagem já feita em duzentos anos de República (sic)”. Eleito, tenta desarticular o instituto, mas tem evitado o confronto direto. Ao mesmo tempo em que parece tentar influenciar o STF para que o instituto seja considerado inconstitucional, negocia com Arthur Lira (PP) os termos para que a mesma seja suportável do ponto de vista administrativo.

Mas o presidente da Câmara dos Deputados não quer abrir mão do poder que lhe foi conferido com a utilização das emendas do relator. Ameaça atrasar a votação da “PEC da Transição”, que tem como um dos objetivos proporcionar ajuda financeira a mais de 20 milhões de brasileiros necessitados.

Já Lira, que hoje tem o apoio do PT para reconduzir-se ao cargo em fevereiro de 2023, pode ver esse apoio ser repensado a depender de suas atitudes de momento.

Quanto ao Supremo Tribunal Federal, este está com o caso sobre a mesa de decisão, mas ainda não decidiu nada – ao protelar, parece participar do jogo de interesses, quando deveria avaliar a constitucionalidade – ou não – do instituto, independente de quem esteja se beneficiando ou sendo prejudicado politicamente pela assombrosa situação. 

Como o parlamento mostrou disposição em tornar as regras de distribuição e aplicação dos recursos mais claras, no momento o Tribunal parece aguardar uma movimentação vinda de lá e assim livrar-se do fardo. Ora, cabe ao Tribunal julgar se o instituto atende ou não o que é imposto pela Constituição, em especial ao que é está escrito no art. 37 da Carta.

Este artigo pede que a legalidade, a impessoalidade, a moralidade e a publicidade sejam observadas no trato com a coisa pública. Está claro que estes princípios estão sendo usurpados pelo modo como o orçamento vem sendo tratado nesse momento.  

O novo governo está tentando, de saída, colocar um pouco de ordem na confusão institucional que o governo que deixa o Planalto criou. Uma delas foi a entrega do orçamento nas mãos do Legislativo. Isso precisa ser revisto! 

O Legislativo, através do atual presidente da Câmara, conseguiu sequestrar o poder, o que Lula pretende alforriar. As disfunções precisam ser corrigidas para que o país volte a ter um mínimo de normalidade institucional. 

O STF precisa dar uma resposta ao povo brasileiro e deixar de manifestar-se ao sabor de acontecimentos e dos interesses imediatos. Um judiciário que passe ao largo das intrigas próprias da política é exigência basilar do republicanismo. Um judiciário que não se acovarde também.

FORMAÇÃO POLÍTICA

O pior da política

Presidente do PL, após tentar criar dúvidas em relação ao resultado das eleições, ameaça travar a votação da PEC da transição.

Presidente do PL diz não ser muito dinheiro valor referente do Fundo Eleitoral.

O atual momento político vivido no Brasil tem trazido à tona a maneira como a política é praticada em Brasília. Isso representa, ao menos, uma mudança de perspectiva. As verdadeiras mazelas da nossa política estão aparecendo.

Isso porque os partidos políticos, particularmente os mais fisiológicos, estão sendo colocados no centro do debate e deixando claro o porquê do nosso sistema ser tão prejudicial aos seus principais destinatários – o povo brasileiro.

O movimento perpetrado pelo Partido Liberal na última semana é um exemplo claro de como as coisas se dão no centro de poder do país.

Inconformado com o resultado das eleições, o presidente da sigla, aparentemente atendendo ao chamado do atual presidente da república Jair Bolsonaro, impetrou uma ação junto ao Tribunal Superior Eleitoral que, na mais branda das avaliações, pode ser adjetivada como irresponsável.

Pede o presidente da sigla, em nome da coligação que ofereceu o nome do atual presidente à reeleição, que aproximadamente 60% dos votos do segundo turno sejam considerados nulos. Isto porque, de acordo com o pedido, as urnas não podem ser devidamente identificadas por não possuírem número de série. 

Ora, é sabido que as urnas podem – e são – identificáveis. Sabe-se também que as eleições foram tão seguras quanto as que elegeram Jair Bolsonaro para mandatos por anos a fio, desde os mandatos que exerceu no parlamento até o que deixa agora, na condição de presidente da República.

Aliás, foram estas mesmas urnas que deram ao PL 99 deputados federais, oito senadores, além dos governadores do Rio de Janeiro e de Santa Catarina.

O presidente do TSE, ministro Alexandre de Moraes, após rejeitar a ação, aplicou multa à coligação por litigância de má-fé, em valor que beira os 23 milhões de reais, bloqueando verbas do fundo eleitoral dos partidos. Os outros partidos que participaram da coligação, PP e Republicanos, imediatamente disseram não partilhar da opinião do PL e pediram para serem excluídos da lide, deixando Valdemar Costa Neto sozinho na empreitada.

Como lhe falta razão e diante da situação em que se encontra, o presidente do PL promete, em retaliação, bloquear a votação de uma PEC que pretende oferecer ajuda aos mais necessitados. Aliás, esta era uma promessa comum a todos os candidatos viáveis do último pleito, inclusive Jair Bolsonaro, candidato pelo PL.

Está aí exposta, em praça pública e para quem quiser ver o quão prejudicial a política pode ser, quando utilizada como instrumento de favorecimento próprio, e não coletivo. 

O partido que se encontra com as verbas bloqueadas é o partido que mais vai receber dinheiro público para se manter devido ao sucesso que obteve no último pleito. Cuida-se de algo em torno de 268 milhões de reais, valor esse que o próprio Valdemar Costa Neto já disse “não ser muito dinheiro”. Ao bloquear a votação da PEC, quer o líder do PL negar seiscentos reais mensais a quem verdadeiramente precisa!

Certamente o parlamento brasileiro irá honrar a dignidade do que representa e isolar esse posicionamento de Costa Neto. 

Ainda que desista da ideia – até porque está interessado em abocanhar a Comissão de Constituição e Justiça – CCJ da Câmara dos Deputados e do Senado, o que aumenta o seu poder de fogo – o simples fato de fazer menção à um plano tão desumano já demonstra o quão perversa pode ser a política quando o poder está em mãos erradas.

É o eleitor quem unge os poderosos. O brasileiro precisa votar melhor.

FORMAÇÃO POLÍTICA, Introdução à Política

Introdução à Política – Capítulo 9

CONSTITUIÇÃO E INSTITUIÇÕES – a economia e a busca pela cidadania. – PARTE 1 –

O Brasil é um país que reluta em promover as mudanças sociais de que necessita para se desenvolver. O caso da abolição da escravidão é exemplo típico e dramático. Se o fim escravidão foi enfim decretada em 1888, a maneira como o processo foi conduzido deixou cicatrizes sociais profundas.

 A República nasceu na sequência e em decorrência deste fato. Surgida em 1889, faltou com a obrigação de acolher os recém-libertos. O movimento republicano foi cooptado pelos poderosos barões do café assim que estes se sentiram traídos pela monarquia.

Desta maneira, todas as ambições dos genuínos republicanos se viram comprometidas com os interesses de uma elite agrária que se preocupou antes com si do que com a construção de uma sociedade mais igualitária.

Mesmo assim, houve alguma tentativa de se implantar um sistema melhor. Entre erros e acertos, a República promoveu uma reforma institucional profunda: extinguiu o poder Moderador e promoveu uma política de industrialização bastante forte, conduzida pelo Ministro Rui Barbosa, na tentativa de isolar as antigas elites imperiais em prol de uma nascente burguesia industrial.

Mas o processo de industrialização foi sequestrado pela crise do encilhamento, que foi uma bolha financeira que se formou devido ao oferecimento de papeis negociáveis da nascente indústria nacional sem que houvesse um controle efetivo sobre a emissão dos mesmos. Ao final, o processo se mostrou inviável – os papéis não tinham nenhum valor.

Este fato frustra com o projeto de uma República digna do nome. A república se apresenta assim, autoritária e a desigualdade entre as classes sociais se acentua. Optou-se por negar um projeto de educação para a sua população, especialmente no que diz respeito aos filhos dos antigos escravos.

Deodoro da Fonseca, nosso primeiro Presidente era militar.

Por outro lado, para conseguir derrubar a monarquia, os fazendeiros contaram com o apoio dos militares. Então, de início o poder republicano ficou as mãos do Exército, que implantou um sistema autoritário. Somente em 1894 os fazendeiros vão, enfim, assumir de verdade o comando do país. Agora serão os barões do café quem finalmente, conduzirão o Estado, livres do monarca e também dos militares.

Desta maneira, aquele Brasil que havia abandonado a mão de obra escrava, optou pela formação de uma mão de obra paupérrima, evitando investir em uma classe média digna do nome. Escolheu a ignorância do povo em detrimento de lhe oferecer educação. Preferiu colher os frutos logo, sem os preparar para o amadurecimento. Fundamo-nos como República baseados em uma sociedade imatura.

Os imigrantes, recém-chegados, por outro lado, vieram a dar mais dinamismo à sociedade brasileira, gerando assim uma pequena classe média e ajudando a modernizar as cidades. Mesmo com o conservadorismo dos cafeicultores, a indústria começou a se desenvolver. A primeira Guerra Mundial acontecida entre 1914 e 1918 permitiu à indústria nacional grande desenvolvimento porque a importação foi comprometida e a indústria nacional pode oferecer seus produtos internamente.

O movimento do Tenentismo desafiou o poder oligarca.

Na década de 1920, a questão militar reaparece através de um movimento que passou para a história com o nome de Tenentismo. Oficiais de baixa patente passam a questionar os rumos da política e o poder das oligarquias rurais. Em outro campo de atuação, apresentando demandas dos trabalhadores, a Coluna Prestes também pedia reformas políticas e sociais.

Já havia se passado um século desde a independência do Brasil e o país ainda não havia conseguido se organizar no sentido de fortalecer suas instituições diante dos humores da economia.

Em 1929 a queda da bolsa de Nova York atinge fortemente a indústria do café no Brasil. A exportação do produto estancou, os preços do produto declinaram e a atividade agrícola colapsou. Excesso de produção e preços baixos. A elite cafeeira forçou o governo brasileiro a comprar o estoque que não foi comercializado. Nesse momento, o Estado adquiriu e queimou algo em torno de 40 milhões de sacas de café, assumindo assim o prejuízo dos cafeicultores.

A oligarquia do café, apesar disto, estava com seu poder político comprometido. A velha política do café com leite estava esgotada. Com a crise de 1929 o poder político vai novamente mudar de mãos.

Vargas se une aos militares para derrubar o governo em 1930.

Em 1930 há o golpe de estado que colocou Getúlio Vargas na Presidência. Este sentiu a oportunidade de fazer uma industrialização que visava substituir produtos até então importados. A economia se dinamizou, mas a democracia perdeu força. Não só no Brasil, pois havia naquele momento em todo o mundo o surgimento de governos nacionalistas e com tendências autoritárias, como a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini.

O estado brasileiro, neste momento deixa de ser um estado oligárquico para se tornar um estado nacionalista e desenvolvimentista.

Em 1937 Getúlio Vargas implanta o Estado Novo, interrompendo um ciclo democrático que, bem ou mal, vinha existindo desde o advento da República. Dois anos depois estoura a Segunda Guerra Mundial.

O populismo de Vargas foi auxiliado por um forte aparato institucional que promovia ganhos para o trabalhador, culminando na Consolidação das Leis do Trabalho – CLT. Os sindicatos foram criados para servirem de ligação entre o governo e os trabalhadores, pois eram controlados pelo governo numa relação de clientelismo, já que os sindicatos dependiam do governo para se financiarem.

Em 1945 termina a grande guerra e se inicia a Guerra Fria. Capitalistas e socialistas agora entrarão em um embate global e o Brasil teria de se posicionar neste cenário, encabeçado por EUA e URSS. Durante esse período muita coisa mudou no Brasil. Getúlio Vargas se suicidou em 1954 e em 1956, Juscelino Kubitschek assume a presidência com propostas modernizantes. Pretendia fazer um Brasil grande e moderno.

Atraiu a indústria automobilística e criou o espaço para o surgimento das grandes empresas de construção civil. Mas a preocupação de fortalecer as instituições não esteve entre as maiores metas do governo apesar de o país ter vivido ali seus anos dourados.

A hiperinflação que surgirá décadas depois tem, todavia, aí suas mais importantes origens. Jânio Quadros se preocupou mais com questões de costume do que resolver os problemas econômicos do país. A guerra fria produzia efeitos dentro do país.

Em 1959 ocorre a revolução cubana, que abre os olhos dos EUA e da elite brasileira para o perigo soviético sobre a América Latina e sobre o Brasil.

Em 1964 os militares vão novamente tomar o poder político do país.

Após Jânio Quadros renunciar, João Goulart, seu vice, depois de superar vários obstáculos colocados no seu caminho para assumir de fato a presidência, conseguirá finalmente governar como presidente, mas será deposto pelo golpe de 1964, sob o argumento de que estaria conduzindo o Brasil para o lado comunista da história.

Agora as instituições políticas do país serão duramente atingidas. Os militares depuseram o presidente, cassaram mandato de deputados para tomar efetivamente o poder.

Combater o comunismo, a inflação, acabar com a corrupção dos governos civis – foi com este discurso que os militares convenceram grande parte dos cidadãos brasileiros a desistirem da democracia, recuperada em 1945, e jogarem fora o poder de nossas instituições políticas.

Assim o brasileiro passaria seus próximos vinte e um anos, debaixo de uma inexistente ordem democrática e sem instituições que lhe pudessem assegurar seus direitos. Entretanto, a estabilidade econômica será conseguida.

A falta de democracia acabou por permitir a implantação de reformas que, enfim, mostraram bons resultados. Era o milagre econômico brasileiro. Todavia, o preço do imediatismo viria mais tarde.

Por outro lado, as liberdades civis declinavam. Entre 1930 e 1980 o Brasil foi o país que mais cresceu economicamente no mundo – mas, educação e distribuição de renda foram postas de lado.

A ditadura, portanto, promoveu desenvolvimento econômico sem desenvolvimento social. O problema da má distribuição de renda e consequentemente, da desigualdade social está intimamente relacionado à falta de força de nossas instituições políticas.

Problemas acontecidos fora de nossas fronteiras mais uma vez derrubaram nossa economia e o reflexo disto foi novas instabilidades políticas internas, dado a fragilidade de nossas instituições.

A crise do petróleo em outubro de 1973 criou sérios problemas para a economia brasileira. Sendo altamente dependente do petróleo importado, o abrupto aumento dos preços do produto acabou por fragilizar as bases da economia nacional, prejudicando enormemente o seu balanço de pagamentos. O Brasil optou por se endividar para honrar com seus compromissos.

Na verdade, esse foi o único caminho possível para os países que necessitavam do petróleo importado – se endividar. Já os países produtores de petróleo enviavam dinheiro para os bancos e estes bancos emprestavam este dinheiro para os países em dificuldade.

O Brasil necessitava dos recursos e, portanto, aumentou grandemente o seu endividamento externo, optando por viabilizar investimentos interno, com nova industrialização e grandes obras públicas, na esperança de manter sua economia ativa.

Desta maneira o Brasil atravessou com certo sucesso a primeira crise do petróleo. Porém, em 1979 aconteceu a segunda crise do petróleo.

Agora, o país estava endividado e o petróleo aumentou o seu preço de maneira surpreendente. Nos Estados Unidos, a inflação alcançou incríveis 12% ao ano, o que fez com que aquele país aumentasse os juros de algo em torno de 2% para perto de 20% ao ano, afetando diretamente os países que deviam para os bancos americanos, entre eles, o Brasil. Desta maneira, nosso país entrou em profunda recessão e, fato curioso, desta feita a crise econômica preparou o terreno para o retorno da democracia.

Portanto, quando os militares entregaram o poder aos civis, entregaram um país em meio à crise da dívida externa e com uma inflação que dava sinais claros de total descontrole. Ou seja, quando perceberam que não poderiam mais administrar, simplesmente devolveram o poder aos civis e junto com o poder o destino de milhões de brasileiros.

Durante todo este período que analisamos o Brasil teve cinco Constituições. A que fundou a República, de 1891, depois a de 1934 que foi uma exigência da Revolução de 1932, a de 1937 que permitiu a Vargas implantar o Estado Novo, a de 1946 que redemocratizou o país e enfim a Constituição militar de 1967, que teve por objetivo dar suporte jurídico ao Golpe de 1964.

Por isso, nossas instituições não conseguem alcançar maturidade suficiente para finalmente vencer nossa crônica instabilidade política, que surge em momentos de crise econômica.

Continuaremos no próximo capítulo.