Blog – Formação Política

FORMAÇÃO POLÍTICA

Primeira-dama não é cargo público

Interferências de Janja vêm chamando a atenção.

No Brasil, não existe o cargo de primeira-dama. A companheira (ou companheiro) do presidente da República, por mais presente que esteja na vida pública, não exerce qualquer função institucional. Ainda assim, a atuação de Janja da Silva tem chamado atenção — e, em alguns casos, ultrapassado os limites do papel informal esperado de alguém nessa posição. 

Durante a última viagem de Lula à China, surgiram relatos de que Janja teria se pronunciado sobre um tema sensível diretamente ao presidente Xi Jinping, causando desconforto diplomático. O episódio não é isolado. Em outra ocasião, Janja enviou recados públicos a Elon Musk durante um momento de tensão entre o bilionário e autoridades brasileiras — algo que caberia ao Itamaraty ou ao próprio presidente, e não à sua esposa. 

A questão é menos sobre o que Janja pensa — ou mesmo suas intenções — e mais sobre o desenho republicano que nossa Constituição estabelece. Lula, ao tratar sua esposa como se ela compartilhasse o poder formal do governo, reproduz uma prática personalista e pouco democrática. Não há previsão legal para que a primeira-dama integre comitivas oficiais com voz ativa em assuntos de Estado, tampouco interfira em decisões estratégicas. 

É preciso restabelecer os limites. A democracia exige clareza institucional. Governar é um ato técnico, legal e político — e não deve ser confundido com relações pessoais. O Brasil não é uma extensão do gabinete familiar, e a liturgia do cargo de presidente deve ser respeitada por todos — inclusive, e principalmente, por quem o ocupa. 

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IDH como obsessão 

Educação precisa ser levada a sério no Brasil.

O Brasil subiu algumas posições no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Isso deveria nos motivar a querer mais. O brasileiro comemora muito mais a chance de vencer uma Copa do Mundo ou a de ter um Papa brasileiro do que aquilo que, de fato, importa para nossa sociedade avançar.

O IDH mede o nível de resposta que um governo proporciona à sociedade: seja na educação, seja na longevidade, seja na renda. Mas é na educação que o Brasil mais patina. Nosso principal problema está na baixa qualidade do ensino básico, na evasão escolar, nas desigualdades regionais e na dificuldade de garantir que crianças e jovens saiam da escola preparados para a vida e para o mercado de trabalho. Sem isso, o país não avança em nenhuma outra área.

Países como Uruguai e Chile, menores em território e população, subiram no ranking porque fizeram o mínimo pela eduação e logo os resultados vieram. Por aqui, seguimos distraídos por disputas políticas e projetos de poder que ignoram o básico: precisamos dar boa educação aos nossos jovens.

Mais do que troféus, shows ou holofotes, o Brasil precisa fazer do desenvolvimento humano uma causa nacional. Que tal sonharmos em ser um país com uma das melhores educação da América Latina? Ou um dos mais seguros para se viver? Ou ser o que oferece uma boa qualidade de vida para todos e não uma ótima, mas para poucos?

Se nossa maior festa fosse celebrar o avanço real do nosso povo, aí, sim, estaríamos no caminho certo. O IDH deveria ser o placar que todos deveríamos acompanhar. Esta deveria ser nossa maior obsessão.

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Federações e fusões partidárias

Caiado tem pretensões à presidência.

O sistema partidário brasileiro, historicamente marcado pela fragmentação, tem passado por um processo de reestruturação que, embora ainda incipiente, aponta para uma maior racionalidade política. A formação de federações partidárias e a fusão entre siglas refletem não apenas exigências legais, mas também a necessidade de sobrevivência e competitividade num ambiente político mais restrito.

A recente criação da Federação entre União Brasil e PP e o anúncio do processo de fusão entre PSDB e Podemos são exemplos claros dessa tendência. Sem dúvida, a principal razão dessas movimentações é a cláusula de desempenho. Este mecanismo, previsto pela legislação eleitoral, limita o acesso ao fundo partidário e ao tempo de propaganda gratuita para os partidos que não atingem um percentual específico de votos. A cada eleição, esse critério torna-se mais exigente, forçando as legendas a repensarem sua viabilidade.

Nesse rearranjo, dois tipos de motivação emergem. A busca por clareza e coerência ideológica que facilite a compreensão do eleitor; ou meras alianças de conveniência, movidas pela necessidade de assegurar espaço de poder. A Federação União-PP se encaixa nesta segunda categoria. Trata-se de uma união pragmática de forças já bastante expressivas no Congresso, num momento em que o próprio poder do Legislativo tem colocado o Executivo como refém.

No entanto, essa federação nasce com desafios internos significativos. Ambos os partidos possuem influentes lideranças que irão se chocar, o que pode gerar tensões sobre decisões estratégicas, distribuição de recursos e candidaturas. A disputa por protagonismo pode comprometer a coesão da federação e revelar contradições em momentos decisivos.

Por outro lado, a fusão entre PSDB e Podemos sinaliza uma tentativa de resgatar relevância política diante do encolhimento eleitoral, especialmente do partido tucano. Trata-se de um esforço mais racional de recomposição partidária, que pode contribuir para a recuperação de um espaço de centro moderado no espectro político.

A redução do número de partidos efetivos impacta positivamente o sistema democrático: facilita a formação de maiorias estáveis, reduz a fragmentação legislativa e torna mais claro para o eleitor quem representa o quê. Com menos siglas, a prestação de contas torna-se mais clara, e a governabilidade tende a melhorar.

Ainda que algumas federações nasçam mais pela sobrevivência do que por afinidade programática, o movimento de consolidação partidária é positivo para o Brasil. Resta saber se as novas estruturas conseguirão se manter coesas e comprometidas com uma agenda pública que vá além dos interesses de curto prazo. Afinal, a verdadeira reforma política ainda está por ser feita — mas essas alianças já são um passo na direção a um sistema mais transparente e funcional.

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A disputa do Moinho

Favela do Moinho já sofreu com grandes incêndios.

A recente iniciativa do Governo do Estado de São Paulo de remover as famílias da Favela do Moinho para edifícios revitalizados e transformar o local em um parque está no epicentro de uma disputa política que, no fundo, pouco se preocupa com a real inclusão social dos mais vulneráveis.

O governo estadual, sob a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos), argumenta que oferece alternativas como cartas de crédito e auxílio-moradia, prometendo garantir moradia digna para as famílias removidas. Porém, o Governo Federal, por meio da Secretaria de Patrimônio da União (SPU), resiste à cessão do terreno, alegando que as soluções habitacionais apresentadas não garantem condições adequadas para a população — especialmente para famílias de baixa renda, que podem ser empurradas para as periferias.

É preciso questionar até que ponto o governo estadual está verdadeiramente motivado pela preocupação social. O projeto do Parque do Moinho está ligado ao plano de transferir a sede do Governo de São Paulo para o centro da capital, desativando a Estação Júlio Prestes e promovendo ampla requalificação urbana na região central. Tal projeto pode impulsionar a valorização imobiliária, beneficiando setores econômicos, enquanto a promessa de integração social fica em segundo plano.

Por outro lado, cabe perguntar se o governo federal, em vez de buscar ajustes e soluções conjuntas, não estaria usando entraves burocráticos e exigências extras como instrumento para dificultar o êxito de um projeto estadual. Se a preocupação é social, por que não somar esforços para garantir que as famílias removidas recebam, de fato, moradias adequadas — e permaneçam incluídas na vida urbana, com acesso ao centro, empregos e serviços?

Neste caso, vê-se o melhor e o pior que a política pode oferecer. Ou a possibilidade de grandes transformações urbanas, resgate da dignidade e inclusão social; ou a reprodução de velhos conflitos, jogos de poder e uso de projetos públicos como instrumentos de barganha política e ideológica. O centro da cidade torna-se palco de um embate que, ao mesmo tempo que inspira esperança, também revela limitações e vícios do nosso sistema político.

Ao invés de cederem à lógica do antagonismo político, os governos estadual e federal deveriam buscar o diálogo e a cooperação institucional, colocando o interesse público — especialmente o das famílias que vivem há décadas em condições insalubres e de risco — acima de disputas ideológicas. A revitalização do centro de São Paulo interessa a toda a sociedade, mas só será legítima se incluir, de verdade, quem sempre esteve à margem.

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Em compasso de espera

Movimento pró-anistia atrasa agenda política do país.
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O valor de ser quem somos

Parte da população repudia país em que nasceu.

Um cidadão que aufere, de aposentadoria, mais de cinquenta mil reais por mês deveria se orgulhar do país em que nasceu. Mas não. O juiz aposentado José Eduardo Franco dos Reis (nome de batismo) em algum momento de sua vida falsificou seus documentos para passar a se chamar Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield. Tomava o clássico “chá das cinco” e fazia aula para perder o sotaque britânico.

Um caso bizarro que deveria entrar para o anedotário forense não refletisse o sentimento que muita gente bem-sucedida tem pelo país que lhe proporcionou uma excelente condição de vida.

Nelson Rodrigues cunhou nos anos 1960 o termo “complexo de vira-latas”. Aquele sentimento que nos faz sentir menor do que povos ditos superiores. O brasileiro comum, todavia, devia ser poupado disto — um ato covarde.

Estudiosos como o sociólogo Jessé Souza e o economista Eduardo Giannetti, que vêm denunciando esta atrocidade, deveriam ser mais ouvidos.

O caso escancara uma verdade incômoda: o nosso complexo de vira-lata está mais presente na elite do que entre o povo, mas quem sofre com isso é o brasileiro comum.

Importante dizer: não se trata aqui de pregar um nacionalismo cego — este, sim, perigoso e excludente. Trata-se de defender uma autonomia cultural e simbólica, uma autoestima coletiva que nos permita reconhecer nosso valor sem precisar imitá-lo em outra língua ou passaporte. Em vez de negar o Brasil, deveríamos fortalecê-lo.

O povo, sabemos, tem pouco tempo para esse tipo de fantasia. Quem despreza o que é nacional deveria, ao invés de fugir para ilusões, contribuir para a construção de um país melhor. Valorizar o Brasil passa por apoiar nossa produção cultural, investir em educação pública de qualidade, reconhecer a ciência feita aqui, consumir e respeitar o que é nosso — sem fechar os olhos para nossas falhas, mas também sem negar nossas virtudes.

Construir uma autoestima coletiva saudável exige coragem, consciência e ação. O primeiro passo é simples, mas essencial: olhar para o Brasil não com desprezo, mas com responsabilidade e compromisso.

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Arrivederci

Ministro das Relações Exteriores da Itália Antonio Tajani faz o anúncio das novas limitações.

No final do século XIX a Europa se encontrava em frangalhos. Foi naquele momento que milhões de europeus migraram para a América em busca de oportunidades. No Brasil, por exemplo, vieram tomar a oportunidade dos negros que foram trazidos forçados como escravos, agora libertos e deixados ao Deus dará. Foi neste exato momento em que o Estado brasileiro lhes sonegou o futuro que ainda hoje buscam.

Após décadas e décadas de exploração e duas grandes guerras mundiais, o continente europeu goza hoje de um ótimo padrão de vida. Estes migrantes contribuíram significativamente para o padrão de vida atual lá, uma vez que as economias periféricas sustentam as centrais.

Remontando ao passado, o jus sanguinis foi estabelecido pelo Império Romano para identificar como romano aqueles nascidos de romano. Foi assim que se transformou boa parte do mundo antigo em território daquele império que um dia, enfim, caiu.

Milhões de pessoas hoje são potenciais italianos, especialmente no Brasil, Argentina e nos Estados Unidos. Brasileiros e argentinos são interessados nesta segunda naturalidade porque ela abre as portas da comunidade europeia.

Mas o governo italiano pretende, por decreto, limitar o uso deste direito apenas até aos netos de italiano. Ou seja, uma geração que praticamente está no fim quando se pensa que a onda migratória se findou ainda nas primeiras décadas do XX. Uma atitude que demonstra como os sul-americanos são vistos pelos europeus.

Poderia o governo italiano ter ido por outro caminho. Dados recentes mostram que a população da Itália diminui perigosamente, tornando o sistema de previdência uma bomba relógio que tem hora para explodir.

Seria muito mais inteligente que o governo passasse a tributar o italiano não residente. Obrigue ao pagamento de 100 euros por mês e a trinta e tantos anos de contribuição para a obtenção de aposentadoria e resolveria dois grandes problemas de uma só vez. Fala-se em “manter laços com o país”. Tristemente, na sociedade global atual, não há laço maior do que o bolso.

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Democrata ele não é

De volta às manchetes, Bolsonaro tenta se livrar de condenação.

Desta vez, coube ao cinema nos lembrar por que ainda vale acreditar. Ao assistir ao filme vencedor do Oscar — se é que um dia o fará — Bolsonaro talvez perceba o quanto sua trajetória se distancia dos valores democráticos que a obra retrata com sensibilidade e coragem. Mas é provável que não assista. E, nesse caso, os democratas agradecem.

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Melhorar pra quem?

Presidente da Câmara já avisou que haverá mudanças.

Quando a reforma sobre o consumo foi ventilada, especialistas apontavam para a necessidade de que ela tivesse o mínimo de exceções. Mas, durante a tramitação no Congresso, foram incorporadas diversas exceções e benefícios fiscais que não estavam previstos inicialmente. 

Setores como educação, saúde, medicamentos, transporte coletivo de passageiros, produtos de higiene pessoal e limpeza, e produtos agropecuários obtiveram uma redução de 60% na carga tributária. Além disso, foi estabelecida a isenção total dos impostos sobre os itens da cesta básica nacional, o que beneficia a todos, ricos e pobres.

Resultado: projeta-se a maior alíquota de IVA do mundo para nós, brasileiros pagarmos. Ela se tornou maior na medida em que os benefícios foram sendo concedidos a setores, tanto empresariais quanto de influência.

Agora, o governo acaba de entregar o projeto de reforma do Imposto de Renda que, do ponto de vista da progressividade tributária, até que não é ruim. Mas contém algumas armadilhas. Uma delas é vincular a faixa de isenção do imposto a um valor fixo (5 mil) sem a garantia de que será atualizada anualmente. Basta ver a defasagem atual da tabela de descontos para mensurar o futuro desta isenção.

Mas não nos iludamos. Os mais ricos têm como interferir no processo através de seus lobbies. Não por outra razão o presidente da Câmara já sinalizou que “o Congresso fará modificações na proposta”. Sim, é trabalho do Congresso analisar e, se preciso, melhorar uma proposta do governo. Mas a dúvida é inquietante, melhorar para quem?

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Para bravatear: Lula; para negociar: Alckmin 

Alckmin anuncia programa de estímulo à renovação do parque fabril brasileiro.