ARTHUR BERNARDES – presidente entre 15/11/1922 a 15/11/1926
O Brasil atravessou todo o governo de Arthur Bernardes em Estado de Sítio
O governo de Arthur Bernardes é tido como o último sopro da Primeira República, que iria cair em 1930 com a ascensão de Getúlio Vargas.
Arthur Bernardes tinha uma visão pouco republicana sobre as funções do cargo que ocupou – se via como o ‘dono’ do país, e não como o maior servidor dele. Lembra alguém?
Durante seu governo se fortaleceu o movimento do Tenentismo. Foi também durante seus anos de mandato – que ocorreram com o país sob estado de sítio – que a Coluna Prestes se formou e andou pelos sertões do país, desafiando o governo.
Rodrigo Pacheco, então pleiteando uma pré-candidatura à Presidência
Rodrigo Pacheco (PSD) parece ter jogado a toalha. Mirar a reeleição para a presidência do Senado significa abandonar de vez qualquer possibilidade de se lançar à presidência. Com a palavra, Kassab!
Gilberto Kassab, presidente do PSD vinha até então apostando todas as suas fichas na candidatura do senador mineiro.
Para correligionários do PSD, Kassab não vai desistir de apresentar uma candidatura própria no primeiro turno e, portanto, já estaria em busca de um nome para substituir Pacheco.
Ciro Gomes: pré-candidato à presidência da República
Ciro Gomes (PDT) lançou hoje – dia 21 – oficilamente a sua candidatura. Disparou críticas aos outros candidatos e vociferou: “Tão pensando o quê? Isso é pra valer!”
É a quarta vez que o paulista radicado no Ceará disputa a presidência da República. Tenta atrair para sua chapa Marina Silva (Rede) porém as negociações andam meio complicadas.
Marina não aceita a presença do publicitário João Santana como marqueteiro já que o mesmo prejudicou a candidata em disputas anteriores. Dizem que em política o passado não interessa, que o importante é compor forças. A conferir.
“Poliarquia”, obra escrita pelo respeitado professor e cientista político norte-americano Robert Dahl (1915-2014) no início da década de 1970 se ocupa em investigar a qualidade das democracias, além de tentar apontar um caminho para que um país atinja este estágio. O contexto em que o livro foi escrito foi o da chamada ‘terceira onda de democratização’ em que governos se esmeravam por passarem uma imagem democrática quando, no fundo, nem sempre era isso o que se via na prática.
Capa do livro lançado pela edusp
Assim, Dahl criou o conceito de Poliarquia. Com o subtítulo “Participação e Oposição” o autor já nos encaminha para aquilo que ele entendia como o mais importante em um regime democrático – o nível de participação permitido no governo e a possibilidade da existência de uma verdadeira oposição.
O exemplar analisado foi publicado pela editora da USP – edusp – com prefácio de Fernando Limongi e tradução de Celso Mauro Paciornick.
ESTRUTURA E CONTEÚDO DA OBRA:
O livro “Poliarquia” nos trás sete elementos estruturais para que um país possa viver sob um regime genuinamente democrático. Eles são apresentados em capítulos separados.
Todavia, antes de tratar destes elementos o autor se ocupa da questão da organização da oposição – para Dahl, sem uma oposição organizada, não existe condições do estabelecimento de um regime democrático de qualidade. Além disso, para ele, faz-se necessária o direito a uma ampla participação no governo ou no processo decisório – e para que a democracia seja avançada, isto deve ser mais do que simplesmente votar em eleições regulares.
Dahl nos lembra de que os debates no parlamento são cansativos e por vezes frustrantes, mas eles são condição necessária para o sucesso de uma democracia. Atalhos são sempre perigosos – traz o exemplo da assunção do fascismo na Itália, que se deu exatamente pela busca de um atalho ao parlamento. Porque, se é verdade que aprovar uma pauta em uma ditadura é tarefa mais fácil, também é verdade que essas pautas fatalmente irão se distanciar das verdadeiras demandas sociais.
Vencidas estas questões, o autor passa a enfrentar os elementos que para ele são estruturais para a construção de uma democracia de verdade.
Começa pelo problema das sequências históricas. Quer saber o autor se é melhor a participação no governo vir antes da possibilidade de oposição ou o contrário. Conclui que a sequência mais comum em poliarquias é aquela em que a política competitiva precede a expansão da participação. Desta maneira, a competição se dá primeiro entre os grupos (as elites políticas são competitivas e há confiança recíproca entre si) para depois se expandir o processo para a população em geral. Assim, é necessário que as elites políticas e econômicas do país primeiramente se convençam de que democracia é melhor que hegemonia de um grupo para depois oferecer a possibilidade de a população participar do processo eleitoral, isto é, o processo de escolha de qual destes grupos estará, em determinado momento, ocupando o poder. Esse processo é longo e se mede em gerações.
Parte depois à análise das questões relacionadas à ordem socioeconômica. Primeiramente, sua atenção se volta para a possibilidade de contestação. Se a oposição possui recursos, provavelmente sua contestação será mais poderosa. Também se fortalecerá se o governo não possuir meios de coerção a ela, através de sanções. Isto pede, necessariamente, uma força militar despolitizada.
Depois o autor enfatiza a necessidade da existência de uma ampla classe média. Fortes diferenças sociais são tanto um obstáculo à democracia de qualidade quanto um fator potencializador a regimes hegemônicos. Para ele, a desigualdade social está intimamente relacionada à desigualdade no exercício do poder.
A questão da polarização da sociedade é tratada com preocupação pelo autor – é que, para ele, o processo de polarização se extremado pode conduzir a sociedade ou a uma guerra civil, ou a um regime hegemônico ou, o pior cenário, a ambos. Por isso, não se deve privar uma subcultura de um país a ter acesso ao governo.
Do mais, o povo e o governo de um país deve entender que uma poliarquia só será efetiva quando as reinvindicações dos diversos subgrupos nele existente forem atendidas ou ao menos assistidas e que deve existir fé nas instituições políticas e na eficácia de um governo. Só assim o relacionamento entre o Executivo e as outras forças políticas será institucional.
Para se acreditar na poliarquia, primeiro é necessário acreditar na legitimidade das instituições que compõem o Estado. Jovens podem ser socializados na crença de que seu governo é, no todo, altamente eficaz ou cronicamente ineficaz e esta crença afeta diretamente a crença sobre a autoridade do governo e a confiança – ou desconfiança – nele depositada. Quando há confiança uma poliarquia é viável, quando há desconfiança o risco de se cair em um regime hegemônico aumenta.
Outro cuidado que se deve tomar é com a fragmentação partidária. Deve-se evitar a existência de muitos partidos políticos porque eles conduzem a uma frágil coalizão, incapazes de lidar com os problemas centrais de um país, forjando manipulações na vida pública – o que conduzirá a uma hegemonia.
Por fim, existe também a questão daquilo que o autor chama de domínio estrangeiro. Países centrais podem influenciar – senão intervir! – em outros países quando o governo ali instalado não é favorável aos seus interesses. Assim, auxiliam a impor um regime em outro país ao se unir a determinado grupo e fornecer as condições para a tomada do governo. A rejeição a esta influência pode criar um sentimento de nacionalismo em que uma poliarquia poderá ser reforçada (como aconteceu com a França após a ocupação nazista) ou pode, por outro lado, criar uma descrença no país, fomentando um regime hegemônico (aqui os exemplos são inúmeros – vide África e América Latina).
Assim o autor chega finalmente à sua teoria. Dahl entende, portanto, que a poliarquia está condicionada à existência destes sete condicionantes. O autor acha ser possível, inclusive, classificar os países de acordo com estes critérios para se verificar o nível de poliarquia que um país pode atingir, ainda que o autor admita não ser possível colher dados confiáveis para todas as variáveis. Todavia, acredita que com o tempo novos estudos e novas tecnologias serão capazes de suprir estas deficiências, abrindo espaço para esta classificação.
Dahl encerra seu trabalho arriscando algumas estratégias que poderiam ser utilizadas durante um processo de alteração de um regime hegemônico para um poliárquico. O caminho, conforme o entendimento do autor, passa pela busca de um sistema partidário que evite uma grande quantidade de partidos políticos. Porém, em países com clivagens subculturais extensivas, um sistema bipartidário não será capaz de atender a todas as demandas. Outro ponto a ser buscado é o da descentralização do governo. Governos subnacionais exercem importante papel na divisão do poder e consequentemente evitam a concentração de poder, tão nefasta para uma legítima poliarquia. Ainda falando sobre o risco da concentração de poder, reforça a necessidade da existência de instituições responsivas para balancear o exercício do governo. Para ele, portanto, que tudo o que for extremado é prejudicial à poliarquia.
ANÁLISE CRÍTICA:
Robert Dahl desenvolveu neste trabalho a ideia de que algumas condicionantes são necessárias para que um país possa viver sob uma democracia plena. Parte do pressuposto de que a democracia é o melhor regime a que um país pode se submeter, seja que país for.
Traz, para isto, pontos inegociáveis: a assunção ou ao menos a participação no governo deve ser garantida para os grupos de oposição; não se deve calar a voz destes grupos e o acesso ao governo deve se dar por via de eleições limpas e transparentes. Também instituições de Estado devem garantir que o poder não seja concentrado nas mãos de um governante e que estas instituições tenham condições de questionar e/ou impedir ou mesmo punir quando necessário o mandatário o poder.
São estes os resultados que um país que se pretende democrático atingirá – um governo que responde por seus atos e que não esteja acima das outras instituições, além de dar espaço à oposição – até porque amanhã pode ser este grupo que esteja na oposição.
Porém, a nosso ver, o autor erra o passo quando pretende enquadrar os países em estágios democráticos, ainda que em diversas passagens do livro o mesmo alerta pela impossibilidade disso. Acontece que ele diz que, apesar de difícil, seria desejável que fosse assim.
Ora, ao agir desta maneira, o autor parece deixar de lado a questão cultural de cada povo e pretende mesmo apresentar um futuro em que, não apenas a economia estivesse globalizada, mas em que as culturas também assim estivessem. O autor chega ao extremo de propor um caminho para que um país ajude o outro a se tornar uma poliarquia (através de uma intervenção?), ainda que – reforço – sua análise conclua que isto não é viável.
Oferecendo este raciocínio, Dahl parece dar ao processo uma linha evolutiva retilínea, incorrendo no mesmo equívoco do eurocentrismo do século XVII, enxergando o processo de democratização como um estágio acima de outras formas de governo. De fato, a democracia é desejável à ditadura ou outras formas de governos autoritários que ele trata por hegemonias. O que ele deixa de lado em sua análise é o quanto países ditos avançados democraticamente – nomeadamente França, Inglaterra, Estados Unidos e outros – colaboraram no processo de erosão social que atrapalha o caminho dos países que ele enxerga como problemáticos para assumir uma democracia. Também parece não dar muito valor às culturas que não necessariamente tem a forma de pensar que os ocidentais têm.
Trata-se, então, de um livro que apresenta uma forma para se chegar à democracia, mas ao final se conclui que neste trabalho o prestigiado pensador emprestou todo o seu cabedal de conhecimentos para fortalecer o processo de globalização, dando um passo para além da mera globalização econômica e avançando para o que seria uma globalização cultural.
Mantém o mesmo esquema de centro do mundo desenvolvido e fornecedor de modelos – inclusive cultural – e as periferias como incapazes de se auto organizarem. Deixa de lado uma explicação plausível sobre as influências nefastas que as chamadas poliarquias exerceram na política dos diversos países, na obra vistos como subdesenvolvidos. Talvez esteja chegando o momento de apontar o dedo para estas nações e ao menos mostrar a elas o quanto de sofrimento elas impuseram aos países que elas exploraram – e disso Dahl passou longe nessa obra.
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As candidaturas de Haddad e França emperram a formação de uma Federação entre PT e PSB
PT e PSB negociam a formação de uma Federação entre as legendas a fim de abrigar a chapa Lula/Alckmin. Mas a conta não fecha em São Paulo: O PT insiste em lançar Haddad ao cargo de governor enquanto o PSB tem no nome de Márcio França seu candidato. Tem entrave também no Rio Grande do Sul. Mas o nó já desatou em outros estados. O PSB disputa Rio de Janeiro, Pernambuco e Espírito Santo enquanto o PT lança candidato na Bahia, Sergipe e Rio Grande do Norte. O prazo para partidos se unirem em federação vai até abril deste ano.
O marketeiro João Santana definiu o caminho a seguir a fim de viablizar a candidatura de Ciro Gomes (PDT) ao Planalto. Vai usar do seu pior defeito – sua rebeldia – para fomenta-la como uma grande e necessária qualidade. Porém, é o mesmo João Santana o maior entrave ao embarque de Marina Silva (Rede) na chapa. São dois pra lá, dois pra cá…
Após parte da esquerda ter criticado a possível chapa Lula/Alckmin, o ex-presidente saiu em defesa do ex-governdador de São Paulo, numa clara demonstração de que, a depender de Lula, Alckmin será muito vem-vindo a seu lado.
Amigos e amigas, neste início de ano a impressão que temos é a de que nosso Brasil está desmanchando – a começar por Minas Gerais. Capitólio, Ouro Preto e arredores de BH. Mas não é só as chuvas que estão causando estrago. O ano na política promete acabar de desmanchar qualquer ética que se deve esperar de uma campanha eleitoral – faz bem o eleitor que se afastar de ataques em excesso.
Aliás, a ONG Human Right Watch, após declarar que a América Latina terá neste ano de 2022 um dos mais graves desafios em direitos humanos em décadas, alerta para o risco das eleições de outubro no Brasil devido às “ameaças de Bolsonaro” ao processo.
Governador de Minas questiona bandeira vermelha na conta de energia.
Voltando a Minas, lá as águas subiram, mas a conta de energia não caiu. O governador do Estado, Romeu Zema (Novo) requisitou a suspensão da bandeira vermelha que anda pesando no bolso do consumidor. É justo, não é? Ponto para Zema!
E retornando a Brasília, parece que a coisa anda realmente desgovernada. Em ano de eleição, Jair Bolsonaro editou decreto determinando que atos relacionados à gestão do Orçamento público precisarão de aval prévio da Casa Civil, hoje comandada por Ciro Nogueira (PP). Mas essa atribuição sempre foi do Ministério da Economia! Mas uma vez Paulo Guedes é jogado para escanteio e é o Centrão que passa a controlar a execução do orçamento.
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E o primeiro brasileirinho finalmente foi vacinado. Quem puxou a fila foi o garoto indígena Davi Seremramiwe, de 8 anos. Saúde a ele e as crianças do Brasil!
Davi foi a primeira criança brasileira vacinada.
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Eliane Cantanhêde nos brindou no Estadão com um artigo realmente instigante – “O Brasil é uma festa”(14.jan) no qual ela fez uma comparação da reação da população inglesa diante do fato de Boris Johnson ter participado de uma recepção durante a pandemia e da de milhares de brasileiros que acompanham e apoiam Bolsonaro durante suas investidas contra o isolamento social a que a Covid-19 nos obrigou. De fato, reações muito diferentes mesmo. Por aqui, nosso presidente recebe apoio de parte da população e a vista grossa de um parlamento comprometido com ele. Por lá, o primeiro-ministro pode cair por ter recebido perto de 40 pessoas nos jardins da sede do governo.
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A Uber que anunciou que estava deixando o ramo de entrega de alimentos entrou em novo setor no Brasil: fretamento de ônibus para deslocamento de funcionários de empresas – trata-se da Uber Shutlle, que já está atendendo a Toyota em São Paulo.
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Lazaro Ramos dirige seu primeiro trabalho para a Amazon
Enquanto o cinema nacional vive um infeliz apagão provocado não só pela pandemia, mas também pelo atual descaso do governo federal com a Ancine, as plataformas de streaming tem buscado adaptar obras nacionais para atender ao mercado local. Lazaro Ramos está nessa e está dirigindo, para a Amazon Prime o filme “Um Ano Inesquecível – Outono”, baseado em livro de Babi Dewet, que promete ser um musical daqueles, e rodado em São Paulo!
Dartaz do festival, que acontece entre 15 e 24 de abril na Califórnia
Já a cantora Anita ganhou destaque inédito para a música brasileira no Festival Coachella, principal festival de música pop do Mundo. Seu nome é destaque de primeira grandeza no cartaz do evento. Quem vai passar por lá também é Pablo Vittar.
Lamentamos a perda do poeta Thiago de Mello (1926-2022) que através de seu trabalho lutou pela natureza, especialmente pela floresta Amazônica e pelos direitos humanos. Ele nos deixou na sexta-feira, dia 14, aos 95 anos, em sua casa, em Manaus.
Amigos e amigas, houve nesta primeira semana do ano uma corrida aos postos de saúde devido ao aumento considerável de casos de Covid-19, agora incrementada pela ocorrência, em igual vigor, da influenza – flurona!? A boa notícia é que, para alguns estudiosos, a variante pode ser vista como o primeiro passo para o fim da crise. A doença se tornaria uma gripe comum – uma luz no fim do túnel? Tomara!
Por outro lado, a vacinação dos pequenos finalmente está para começar, ufa…aliás, no estado de São Paulo a vacinação deve se dar nas próprias escolas. Por conta da nova onda de contágios, a cidade de S. Paulo e o Rio de Janeiro decidiram cancelar os blocos de rua. Também os desfiles nos sambódromos estão sob ameaça de não acontecerem. Olinda cancelou as festa de rua e Recife anunciou a suspensão do evento. Salvador não terá pelo segundo ano consecutivo a “Lavagem do Bonfim”.
Criativo, José Simão tratou o tenista por DJOCOVID
E o campeão de tênis Djokovik que foi impedido de entrar na Austrália… Cadê a Vacina? É… hora de se cuidar… Não por outro motivo, o genial José Simão o chamou de DJOCOVID. (Folha S. Paulo, 08.jan)
Jair Bolsonaro se rendeu e sancionou a lei que permite o retorno da propaganda eleitoral fora do período eleitoral. Vetou, porém, a compensação fiscal que as emissoras gozavam – cabe ao Congresso derrubar, ou não – o veto. E isto vale também para a rejeição do presidente ao projeto do novo Refis, que iria beneficiar pequenas empresas que tiveram a saúde financeira comprometida pela pandemia.
Aliás, Bolsonaro teve uma semana intensa. Após ter tido alta do hospital no qual foi internado após polêmicas férias em SC, foi direto para um evento esportivo em Goiás e manteve sua agenda que prevê inclusive uma viajem para a Rússia, que pique!
O artigo “A decadência do Estado brasileiro” o assinado por Everardo Maciel em O Globo (6.jan) alerta para o atual cenário institucional brasileiro. Para o ex-secretário da Receita Federal, “O orçamento converteu-se em peça anárquica, com fatias vorazmente devoradas pelas emenda parlamentares”. Deixa ainda uma pergunta inquietante: “Faz sentido, por exemplo, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgar furtos de pequeno valor?”. Um primor o artigo.
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Uber eats anunciou que deixará o país.
A Uber Eats anunciou que deixará o país em março. O braço da Uber, que já encerrou o serviço em outros países como Colômbia e Argentina deixa o caminho mais livre para o iFood também no Brasil.
E após um ano da Invasão do Capitólio (aquele ataque à democracia dos Estados Unidos, lembram?) Donald Trump continua vivo e forte politicamente. Já Biden procura reforçar o discurso a favor da democracia culpando diretamente seu antecessor pelo ataque.
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O fiasco da atual edição do “Globo de Ouro” escancara a nova condição do cinema. É hora de repensar… Já a Amazon Prime lançou o belo “Bar, doce lar” – (The tender bar), dirigido por George Clooney, com Ben Affleck, Christopher Lloyd e Lily Rabe no elenco. O filme fala sobre a vida do escritor J.R. Moehringer. Trata de conquistas e frustrações, como a de todos nós. Vale a pena conferir.
Cheias na Bahia ainda causam trantorno às famílias atingidas
E, pra fechar, antes que o assunto caia no esquecimento é bom lembrar que tem muita gente ainda sofrendo por conta das enchentes que assolaram o sul do Estado da Bahia. Na foto extraída do site da Folha (8.jan) vemos uma senhora lamentando as condições precárias em que se encontra. O título da reportagem é dramático: “Famílias da BA domem em baias de animais após perderem casas nas chuvas”. Cadê as autoridades?
Lamentamos o acidente ocorrido no lago de Furnas, em Capitólio. Que Deus console os enlutados.
O Estado Moderno é a organização social típica de uma época – dos séculos XIV a XVIII em um determinado local – a Europa ocidental. Conhecer suas características nos fornecerá as pistas e os indícios para percebermos quando e como o atual Estado Democrático de Direito pode ser atacado. Isto porque a concentração de poderes é a característica principal do Estado Moderno e é exatamente a concentração de poderes o maior perigo a que um sistema democrático pode se expor.
As consequências, todavia, do Estado Moderno foram o surgimento do capitalismo como modelo econômico em substituição ao feudalismo e a expansão do Mundo, através das grandes navegações.
O Estado Moderno foi, na realidade, o estabelecimento do Estado como detentor das instituições que o caracterizam, tomando para si o poder decisório e diretivo, a criação das unidades monetárias e de medidas bem como o fomento do comércio regular. Mas, a outra face do Estado, aquela voltada ao bem estar de seu povo não foi incrementada. O único serviço que este Estado oferecia era o da segurança – à propriedade especialmente mas também contra algum invasor inimigo.
A Peste Negra acelerou o processo de passagem do Feudalismo para o Estado Moderno
Diante destas características, fica evidente que se tratava de um Estado em que o poder do Rei era inconteste, em que as decisões eram tomadas em conformidade com suas preferência e a de seus apaniguados – uma corte tradicional e dependente bem como uma nascente classe burguesa que se esmerava por garantir segurança a seus negócios. Por outro lado, quem arcava com a parte ruim história era o grosso da população – uma gente paupérrima, com deficiência alimentar e vivendo sem qualquer conforto, mas participando do Estado com seus braços e seu suor.
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Como visto, este é o momento da história em que o Estado se apresenta e se consolida como um poder determinado sobre este espaço definido. Agora existe um poder institucionalizado que orienta as políticas públicas, cobra tributos, cria normas e impõe sanções, estabelece critérios de pesos e medidas, institui uma unidade monetária e constitui um exército regular. Em última análise, um território debaixo de um governo.
Enfim, este é o momento em que o Estado de fato se organiza. O que faltou a todos os estados anteriores até o advento do estado moderno foi uma estabilidade que garantisse segurança à condição de Estado. Eles não eram estáveis do ponto de vista de sua territorialidade, de suas políticas, de suas normas, do respeito a pesos e medidas, de uma unidade monetária e principalmente da constituição de um exército regular que pudesse, sem ter de envolver os civis, oferecer segurança quando de um ataque inimigo. O estado moderno ofereceu tudo isto.
Apenas que, depois de constituído o conceito de Estado ou mesmo em função disto, a instituiçãoEstado passa a ser confundida com a própria figura de seu líder que, enfim, conseguiu reunir todos estes elementos debaixo de sua tutela, especialmente e marcadamente o Rei. A partir daí, a segurança buscada através da constituição do estado moderno se dava entre os cidadãos mas não entre estes e o rei, ou seja, um cidadão tinha seu direito de propriedade garantido em face de outro cidadão mas não em relação ao soberano.
A padronização de pesos e medidas foi uma demanda da classe burguesa
Aconteceu que a falta de um Estado verdadeiramente instituído trazia dificuldades no comércio e neste momento da história se assiste ao surgimento e ao crescimento, inclusive em importância da classe burguesa. Fazia parte das necessidades dos comerciantes a instituição de padrões, sejam eles relacionados à pesos e medidas, seja relacionados à monetarização das relações. Desta forma, esta classe emergente se entregou ao poder real porque apenas um governo central poderia provir-lhes desta desejada padronização, atendendo às necessidades de uma nascente expansão comercial.
Por outro lado, foi a partir do advento do Estado Moderno, com a garantia dos tributos regulares, que os suseranos puderam constituir forças militares organizadas, estabelecendo segurança às suas áreas de influência tornando-se capazes de centralizar o poder de legislar, punir e taxar, criando unidades monetárias e estabelecendo padrões de pesos e medidas, além de aplicar sanções. Assim, este Estado ao qual nos referimos aqui é aquele Estado que surge da desintegração do sistema feudal.
Foi a partir desta estabilidade que os governantes, ditos monarcas, estenderam seu poder ao limite de se tornarem absolutos, não conhecendo, pois nenhum poder igual ao seu dentro de seus domínios, avançando sobre as liberdades individuais até transformar-se em mandatários sem limites e sem adversários. Este tipo de poder acabou por causar muitos males.
Mas, ao expandir tanto o seu poder, o monarca acabou por esbarrar em uma instituição poderosa, a Igreja católica, o que acabou por gerar, naturalmente, um grande conflito. Visto desta maneira, pode-se dar ao estado moderno a paternidade da igreja protestante já que esta se organizou a partir da crítica que se fazia ao poder papal – um poder que pairava sobre o poder do monarca – um tipo de “rei dos reis”.
A Igreja católica havia se tornado, no decorrer da Idade Média a instituição mais poderosa que existia. Possuía terras e tinha as melhores mentes trabalhando para os seus propósitos. Assim, era a Igreja que articulava o funcionamento da política e da própria sociedade durante o período medieval. Agora, no alvorecer da Idade Moderna, este poder estava sendo confrontado pelo poder que o Rei atraia para si. Se até então todo o poder era dado à Igreja, assim entendido tanto o poder secular – isto é, das coisas terrenas, quanto o poder espiritual, agora, surgia questionamentos que comprometiam a exclusividade do Papa. Era chegado o momento em que o poder necessitava ser reorganizado, em que as bases da antiga sociedade tripartite – ou seja, aquela do Estado Feudal que classificava as pessoas como pertencentes ao Clero, à nobreza ou ao campesinato, sendo impossível qualquer mobilidade social – não mais fazia sentido. Aquela antiga ordem, pela qual a condição social da pessoa era entendida como um ‘desígnio de Deus’ não mais fazia sentido.
As teses de Lutero abriram o caminho para o estabelecimento do protestantismo como força religiosa e política
Foi neste contexto que Martinho Lutero (1483-1546) concebeu toda a sua teorização. Ocorre que se quisermos traçar uma linha temporal e lógica de todo o longo processo que conduziu a sociedade do feudalismo ao estado democrático de direito – e ao capitalismo – não poderemos desprezar as 95 teses de Lutero. Foi ali, em 1517 que o poder da Igreja católica, refletido na pessoa do Papa começou a ser seriamente questionado e uma longa tradição começou a ser quebrada. Porém, Lutero pretendeu legitimar o poder secular mediante um discurso religioso.
Quando enfim em 1555 – portanto quase quarenta anos depois de afixar suas teses – consegue, através da Paz de Augsburg o entendimento de que cabe a cada príncipe escolher a sua religião e a de seus súditos, havia conquistado o apoio da nobreza da atual região da Alemanha contra o poderoso imperador Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico. Havia se rompido, pois, a supremacia do poder do Papa sobre os assuntos de Estado.
Se acrescentarmos a isto o fato de que na Suíça João Calvino (1509-1564) ter introduzido o calvinismo e na Inglaterra o rei Henrique VIII (1509-1547) ter instituído o anglicanismo perceberemos o quão enfraquecida estava a Igreja católica e em consequência o poder papal neste momento – na verdade, estava sendo atacado por diversas frentes!
Apesar de a Igreja católica ter promovido a contrarreforma, o protestantismo – com o apoio de algumas monarquias já havia conquistado vastas regiões da Europa e mesmo onde ele não havia se estabelecido de forma oficial o movimento possuía adeptos que promoviam profundas fissuras no poder que a igreja católica exibia até então.
Por outro lado, a doutrina de Jean Bodin (1530-1596) que afirmara que a monarquia absolutista era a forma ideal de governo porque fundada no poder divino conferido ao Rei ainda estava presente século XVII, quando o mundo assiste ao apogeu de Luís XIV, que sobe ao trono francês em 1643 com apenas cinco anos de idade e governará com mão de ferro aquele país por 72 anos, ficando conhecido como o Rei Sol.
Porém, em 1649 o Rei Carlos I, da Inglaterra será executado, abrindo caminho para os primeiros suspiros de uma nova ordem, com o fortalecimento do parlamento.
De se observar que em 1651 – portanto dois anos apenas após a execução de Carlos I da Inglaterra, Thomas Hobbes (1588-1679) lança O Leviatã, apoiando o absolutismo. Algum tempo depois, em 1689 será marcado pela aprovação, pelo parlamento inglês da Declaração dos Direitos, no mesmo ano em que John Locke (1632-1704) escreveu Dois Tratados sobre o Governo, no qual argumenta que o governo só pode atuar com o consentimento do povo.
Nota-se que enquanto na França o absolutismo se reforçava, na Inglaterra o sistema enfrentava severa resistência do parlamento. O absolutismo começou ser combatido quando os poderes do soberano extrapolaram o razoável, uma faceta já vislumbrada por John Locke.
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Todavia, nesse ponto há um detalhe que não pode passar despercebido. Lembre-se de que estamos falando da Europa ocidental. O modelo acabado do Estado Moderno absolutista foi encontrado na França, que teve em Luís XIV seu maior representante. Na Inglaterra encontramos também o absolutismo, porém já em confronto com um Parlamento cada vez mais poderoso. Portugal e Espanha também adotaram o sistema, ainda que em Portugal, a rigor, o rei não tenha se mantido sobre a influência de uma nobreza muito influente. Já na península Itálica e na região onde se encontra a Alemanha não se desenvolveu o absolutismo da mesma maneira que em outras regiões da Europa ocidental. Tanto é, que esses países só foram unificados como tal somente no século dezenove!
A obra de Maquiavel revolucionou o pensamento político
Nicolau Maquiavel (1469-1527), mesmo estando em um reino na península Itálica, lançou uma teoria política que tinha por objetivo direcionar a maneira como um governante deveria conduzir o comando do Estado. A península Itálica era, nesse momento, um mosaico de pequenas Repúblicas. Sua teoria propagava que um governante não deveria se preocupar com o que havia dito anteriormente se os rumos do estado estavam tomando uma direção que pudesse conduzir em risco para o mesmo estado. Assim, ao afirmar que “os fins justificam os meios” acabou se tornando um dos mais mal compreendidos pensadores políticos de todos os tempos.
Sendo o conflito social um desdobramento inevitável do egoísmo da natureza humana, Maquiavel enxergou a conspiração como o cerne da atividade política. Assim, para obter sucesso, deveria o soberano se armar do segredo e da dissimulação.
De certa maneira pode-se atribuir a Maquiavel, portanto, o primeiro tratado a justificar o poder do déspota, já que nas páginas de O Príncipe, datado de 1513 se encontra forte justificativa para que o Príncipe – ou o Rei – exerça seu poder sem se ater à ética. Desta maneira, sua obra, escrita mais de 100 anos antes de O Leviatã (1651), de Hobbes, não deixa de integrar o rol daquelas que irão justificar o Estado Moderno absolutista.
Mas, conforme falado acima, foi a Igreja quem colocou grande resistência ao poder centralizado de um rei que se pretendia soberano sobre tudo e sobre todos.
Por isso é ao expor em suas teses os abusos que a igreja católica vinha exercendo durante a Idade Média, Martinho Lutero conseguiu o apoio de poderosos príncipes alemães que tinham o interesse de saírem do raio de influência do poder do Papa. Esse fato foi decisivo para a queda do poder inconteste da Igreja Católica. Foi o estopim de um acontecimento que acabou por inaugurar uma nova vertente do cristianismo e muita disputa política com um pano de fundo religioso.
Assim, a história da Europa durante este longo período esteve marcada por uma disputa por poder inédita que contrapunha interesses de coroas, principados e Igreja, inflamado por interesses tão díspares como os da velha nobreza e a nascente burguesia, sem nos esquecer da plebe que começava a se enxergar como ‘gente’.
Um dos objetivos da coroa portuguesa era o de expandir a fé católica no Novo Mundo
Em outra vertente, a expansão do processo das Grandes Navegações vinha conseguindo feitos notáveis desde o alvorecer do século XV. O mundo se expandia. Foi no além-mar que a própria Igreja Católica, combalida na Europa, iria promover a uma nova expansão territorial, agora em busca de almas do novo mundo. Protestantes também irão cruzar o oceano, levando suas concepções religiosas para a América e traçando o grande traço divisor cultural entre a América Latina e a América saxônica – a igreja católica e a igreja protestante.
Sendo assim, o século XVIII conduzirá inevitavelmente ao Estado Democrático de Direito, introduzindo o Iluminismo – que irá combater o poder absoluto do Rei.
Voltaire (1694-1778) foi um dos expoentes do Iluminismo
Voltaire, em 1733 vai elogiar a liberdade política que o parlamento proporcionou na Inglaterra. Montesquieu vai falar sobre a separação dos poderes em 1748. Assim, o Iluminismo irá impor-se enfrentando não só o poder da Igreja, mas também o poder despótico exercido pelo chefe do Estado.
Pode-se dizer que foi o Estado Absolutista que deu os fundamentos do estado moderno e, por consequência, do estado democrático de direito, mas, para além dele, temos também o enfrentamento do poder papal colocado a cabo desde Lutero.
Porém e mais uma vez: consolidado os limites e as atribuições de cada monarca sobre o seu território, o que se vê na prática é mais o conflito religioso entre católicos e protestantes, de um lado, e das diversas monarquias, como os Bourbon e os Habsburgo na Europa continental – de outro, do que qualquer benefício que este novo ‘ente’ – o Estado – pudesse dar a qualquer de seus cidadãos.
Mesmo na Inglaterra que, devido aos conflitos religiosos e dinásticos conduziu-se prematuramente à monarquia parlamentar, somente bem mais tarde o povo começaria a ter algum benefício com a instituição do Estado.
O quê, então, o Estado Moderno fez?
Ele simplesmente organizou a sociedade, conferindo-lhe regras e ordenamentos, mas o seu objetivo não era outro senão o de servir ao monarca.
Ele também procurou destituir o poder incontestável que a Igreja exercia sobre a mente das pessoas. Foi um período em que o poder do Papa foi extremamente diminuído em detrimento do poder real.
Também foi um período em que a arte se redescobriu, através do movimento artístico do Renascimento cultural. Foi ainda um período de um forte reflorescimento comercial.
Enfim, quando voltamos o nosso olhar para este longo período percebemos que foi o período da emancipação do homem como indivíduo, ainda que durante o próprio período este individualismo humano se viu refém de um rei absolutista, deposto ao final do processo.
Daí observar que o povo só será o destinatário dos benefícios inaugurados pelo estado moderno mais tarde, quando o Estado Democrático de Direito surgir.
Assim, se o racionalismo fundou o absolutismo, foi o Iluminismo que trouxe o liberalismo como doutrina social.
No próximo post falaremos sobre o Estado Democrático de Direito!